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Quarto Domingo do Advento

D. Laurence Freeman

Assim que Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou em seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo.

O não nascido, aquilo que não se vê, nos faz sentir sua presença em nossa vida de dentro para fora. Se confiarmos exclusivamente nas evidências exteriores dos nossos sentidos, perderemos as dimensões mais importantes da realidade. 

Em nossos momentos tenebrosos, não conseguiremos acreditar em nosso verdadeiro potencial — a ‘promessa’ a ser cumprida, a vida nova ainda por nascer, que são o coração e a alma do Natal que se avizinha.

Quando apenas reagimos a circunstâncias em constante mudança, movidos pela roda da fortuna, vivemos com medo da confusão da vida e tememos o próximo grande abismo em que nossas emoções mergulharão. Muitos de nós vivemos meio que continuamente nesse estado de medo e tremor. Ou vivemos com medo de ter medo, pois nos lembramos de como o medo pode ser apavorante. Esse medo, como verificamos em algumas reações contemporâneas ao terrorismo, destrói o equilíbrio da nossa mente e nossa capacidade de fazer um bom juízo das coisas. 

Se isso pode acontecer no mundo exterior, podemos também nos tornar espiritualmente bipolares, oscilando entre os lados iluminado e tenebroso da nossa jornada interior. A experiência de Deus fica objetificada. Parece que se alterna entre revelar-se e afastar-se de nós cruelmente, como se os deuses brincassem conosco como os meninos pequenos brincam com as moscas, como a trágica visão de Shakespeare o descreveu.

Quando os sentidos interiores despertam, levam-nos a um lugar onde todos os opostos, os abismos e picos do ego confuso e guiado por emoções, são tomados por uma nova estabilidade da consciência. Profundidade, equilíbrio, proporção, prudência se formam nesse ventre da quietude interior. As dores e alegrias, perdas e descobertas da vida não ficam menos intensas, mas também já não nos arremessam para fora do ringue da equanimidade — ou, pelo menos, se o fazem, voltamos rapidamente para o próximo round. 

À medida que cresce esse equilíbrio interior, Cristo se forma em nós. Isso torna a aceitação daquilo que é — a pré-condição para a felicidade — mais fácil e intuitiva. Nunca sabemos quando nosso equilíbrio será atingido pela turbulência. Mas é possível estarmos prontos para o desconhecido, como os edifícios construídos especialmente em zonas de terremoto. Achamos mais fácil viver com confiança durante a incerteza. Nesse equilíbrio e alerta da mente, a alegria de ser e um humor saudável tornam-se nossos companheiros. 

A dimensão interior da realidade é algo que a ciência comum não consegue observar. É por isso que hoje em dia nossa cultura ignora o aspecto espiritual. Mesmo assim, recebemos mensagens dessa dimensão do ser, o chute de Deus vindo do ventre de nosso potencial; e o Espírito Santo, surpreendentemente, nos preenche.

 

A preparação para a encarnação começa com 'uma voz que clama no deserto'. No evangelho de hoje é João Batista quem primeiro reconhece o que temos esperado tão ansiosamente. Ele é a voz. Jesus é a palavra. A voz que a voz comunica através do ar puro do deserto silencioso e ermo. 

A palavra 'ermo' em grego é eremos, um lugar desabitado. É daí que vem 'eremita', significando alguém que vive na solitude. Na meditação somos todos solitários.

A meditação nos leva à região erma, a um lugar não habitado por pensamentos, opiniões, conflitos de imagens e desejos. É o lugar pelo qual ansiamos por conta da paz e da pureza que oferece. Aqui encontramos a verdade. Mas ele também nos aterroriza por causa do que tememos perder ou encontrar por lá.

Quanto mais penetramos no deserto, na solitude do coração, mais nos desaceleramos. Quando a atividade mental diminui, o tempo se desacelera até o ponto em que há somente quietude — uma quietude viva e amorosa. Aqui, pela primeira vez, podemos escutar o silêncio sem medo. A palavra emerge desse silêncio. Ela nos toca e se encarna em nós. Ela se faz carne em nós e nos torna inteiramente encarnados e reais no presente. 

Somente aqui, onde interrompemos toda a comunicação com as multidões barulhentas, zombeteiras e instáveis que habitam a nossa mente é que conseguimos entender o que significa 'fugir do mundo'. O que isso não significa é escapismo ou fuga das responsabilidades. Significa entrar na solitude onde nos damos conta do quanto estamos inteira e inescapavelmente encarnados e inseridos na teia universal dos relacionamentos.

No monaquismo do deserto do século IV, quanto mais velhos ficavam os monges, mais profundamente mergulhavam no deserto. E o mundo os seguia, atraído pela beleza incomparável e tangível daquilo que o esperava.