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Terceira Semana do Advento

D. Laurence Freeman, OSB

Terceira Semana do Advento 2016

Certa vez conheci um jovem empresário de uma área muito problemática do mundo. Notei que, numa conversa anterior com outras pessoas sobre a situação política, ele se manteve indiferente e calado. Mais tarde, sozinho comigo, ele disse que não fazia política porque “eles (políticos) são todos iguais”. Eu pensei, bem, eles são os mesmos na medida em que são todos imperfeitos; mas o modo e o grau de imperfeição de cada um não é o mesmo. Perguntei-lhe como estavam seus negócios e ele se animou. “Estão muito bem. Difícil, arriscado. Mas podem-se fazer muitos bons negócios durante uma crise”. Esse foi para mim o ponto mais triste da minha visita e lançou uma luz sinistra sobre o futuro de nossas democracias falidas.

Fiquei surpreso de modo parecido quando as pessoas me disseram que não votaram nas eleições recentes dos Estados Unidos porque “um lado era tão ruim quanto o outro”. A reflexão sobre o significado do Advento deveria iluminar todas as dimensões da nossa vida - não apenas a interior e solitária, mas também as formas pelas quais somos obrigados a interagir no mundo com responsabilidade. A maioria das decisões morais - e todas as decisões são morais - não são preto no branco. Muitas situações, especialmente neste mundo pós-verdade onde o extremismo está em ascensão, nos obrigam a escolher o menor de dois males. O mal maior, ligado à covardia moral, poderia ser não escolher em absoluto, porque esperamos por um conjunto perfeito de circunstâncias que corresponda à nossa receita de realidade.

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Observar o Advento nos treina em realismo. Escolhemos esperar - sem fantasia - por um bem que nunca se encaixará num cenário fechado de nossa imaginação. Aprendemos a acreditar num bem acima do que podemos desejar. Esperamos um grau de bondade, de plenitude, que já começou a nos influenciar desde a primeira vez em que ouvimos falar da boa nova. Podemos descartá-lo como mito ou falso consolo, indigno de um racionalista cético moderno. Ou talvez fiquemos impacientes e duvidemos que ele venha a irromper. Mas, se alcançamos o espírito do Advento, aprendemos o que significa “esperar com alegre esperança”, como diz uma das orações da liturgia do Advento.

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Alegre esperança não é o mesmo que celebrar uma chegada, um regresso à casa. A dimensão do tempo ainda não foi penetrada pela eternidade que toma e unifica todas as dimensões, incluindo aquelas que ainda não descobrimos. A cronologia ainda não foi banhada pela ontologia. O trabalho diário ainda não foi iluminado pelo brilho do ser. Apenas saber que tudo isso ainda está por vir eleva o espírito e nos encoraja a nos engajarmos nas decisões difíceis desses tempos.

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Mas, pelo menos, estamos chegando lá. Saber isso nos fortalece quando estamos tremendo de medo e nos salva do precipício do cinismo onde nossa única lealdade é para conosco. A demora é apenas do tempo que levamos para cair em outro tipo de precipício, abandonando nossas defesas, reconhecendo e acreditando no que vem em nossa direção. Nesse instante, vemos que a encarnação acontece quando deixamos de fantasiar e aceitamos a realidade.

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Não é apenas o Verbo eterno que se fez carne. O tempo e a eternidade são parceiros num casamento. Nós também precisamos encarnar. E aí reconhecemos no que estamos nos precipitando. Percebemos que o que está vindo em nossa direção também está aqui. Ele está escondido em sua autorrevelação até que tenhamos sido abalados e transformados pela colisão pacífica do Natal.

 


 

Original em inglês

Week 3 Advent
2016

I once met a young businessman from a very troubled part of the world. I noticed that in an earlier conversation with others about the political situation he kept aloof and said nothing. Later, alone, he told me that he didn’t do politics because ‘they (politicians) are all the same’. I thought, well they are the same inasmuch as they are all imperfect; but their way and degree of being imperfect is not the same. I asked him how his business was going and he brightened up. ‘It’s going very well. Hard, risky. But you can do very good business in a crisis’. It was for me the saddest point of my visit and threw a lurid light on the future of our broken democracies.

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I was similarly surprised when people tell me that they didn’t vote in the recent US election because ‘one side was as bad as the other’. Reflection on the meaning of Advent should throw light on all dimensions of our life – not only the interior and solitary but also the ways we are obliged to interact responsibly in the world. Most moral decisions – and all decisions are moral – are not black and white. Many situations, especially in this post-truth world where extremism is rising, force us to choose the lesser of two evils. The greater evil, linked to moral cowardice, could be not to choose at all because we are waiting for a perfect set of circumstances to arrive to match our prescription of reality.

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Keeping Advent trains us in realism. We choose to wait – without fantasy – for a good that will never fit into a packaged scenario of our imagination. We learn to believe in a good beyond what we can desire. We await a degree of goodness, of plenitude that has already begun to influence us from the first time we hear about the good news. We may dismiss it as myth or false consolation, not worthy of a modern sceptical rationalist. Or we may get impatient and doubt it will ever break through. But if we get the Advent spirit we learn what it means to ‘wait in joyful hope’ as one of the prayers of the Advent liturgy puts it.

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Joyful hope is not the same as celebrating an arrival, a homecoming. The time dimension hasn’t yet been penetrated by the eternity that sweeps up and unifies all dimensions including those we have not yet discovered. Chronology has not yet been bathed in ontology. Doing the daily stuff has not yet been illuminated by the radiance of being. Just knowing that all this is yet to come lifts the spirit and gives encourages us to engage with the hard decisions of the times.

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But at least we’re getting there. Knowing that much strengthens our trembling knees and saves us from the precipice of cynicism where our only loyalty becomes to ourselves. The delay is only the time it takes us to us to drop over into another kind of precipice by letting go of our defences, to recognise and believe what is coming towards us. In that instant we see that incarnation happens when we stop fantasising and accept reality.

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It is not only the eternal Word that is made flesh. Time and eternity are partners in a marriage. We too need to become incarnate. Then we recognise what we are hurtling towards. We realise that what is coming towards us is also here. It is concealed in its self-revealing until we have been shaken up and transformed by the peaceful collision of Christmas.