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A Cristã e Outras Tradições da Meditação

No trecho a seguir encontramos a resposta que D Laurence Freeman OSB deu a duas perguntas que muitos de nós poderíamos ter feito. Isso se deu na sessão de Perguntas e Respostas ao final de uma série de palestras que ele ministrou sobre a meditação cristã na Igreja de Nsa. Sra. do Perpétuo Socorro em Cingapura em 24 de Novembro de 2001. Na ocasião D Laurence abordava o tema de seu então mais recente livro: Jesus - O Mestre Interior.

P.: O mundo está desunido por divisões, em vez de estar unido por coesão. Não poderia haver um tipo universal de meditação, em vez de haver meditação cristã, budista, zen ou hindú? Pois, existe entre elas tanto em comum, tantos valores que lhes são comuns.
LF.: Obrigado. Bem, num certo sentido, há. Creio que a experiência da meditação é a mesma. Se você, ou eu, nos sentamos para meditar com budistas, ou com integrantes de qualquer outra religião, compartilharemos com eles os mesmos desafios: as dificuldades de se sentar em quietude, as dificuldades de se lidar com as distrações, ou de não cair no sono, as dificuldades de meditar todos os dias. De um ponto de vista humano, o desafio é o mesmo. Ora, experimentalmente, os frutos da meditação serão os mesmos. São Paulo nos fala dos frutos do Espírito: o amor, a alegria, a paz, a paciência, a gentileza, a bondade, a fidelidade, a suavidade e o auto-controle. E, há uma descrição no Dhammapada, texto budista, que é quase exatamente a mesma. O Dalai Lama diz que o propósito de qualquer religião é o de produzir boas pessoas, e o teste para qualquer religião é o de se ela produz boas pessoas, pessoas de bom coração, pessoas que perdoam, que são compassivas e tolerantes, sábias, gentis, e assim por diante.

Assim, experimentalmente a meditação é a mesma. Ora, nossa compreensão dessa experiência será diferente, a maneira como a descrevemos, o significado que damos a ela, será diferente e, a maneira pela qual entramos na prática meditativa será diferente. E, na verdade, a melhor e mais natural maneira de entrar na sua prática meditativa é através de uma tradição espiritual.
Ora, não creio que haja nenhum argumento que seja realista, ou mesmo desejável, em que poderíamos dizer que todas as religiões tornar-se-ão uma única, isso porque Deus parece estar operando através de todas essas religiões, de diferentes maneiras. Portanto, tanto quanto sabemos, e esse é um tema de discussão teológica muito contemporânea, será que Deus quer que existam as outras religiões? Eu responderia que sim. Não se trata de estarmos procurando criar uma religião universal, porque há significado em cada uma delas e, certamente, de um ponto de vista pragmático, podemos estar certos de que, pelo menos até o fim da vida de qualquer um de nós, não haverá uma única religião para todos.
No ano de 1900 dois eventos aconteceram. Um deles foi uma conferência interreligiosa em Chicago, com a participação de um grande mestre indiano, Vivekananda, que maravilhou a todos com sua sabedoria, e circulou pela América com suas pregações. Isso é, frequentemente visto como sendo o início da era do diálogo interreligioso. Ao mesmo tempo houve um encontro de missionários cristãos em Edimburgo, na Escócia. Diga-se, de passagem, que isso se deu no ápice do império britânico. Os missionários concluíram que dentro de cinquenta anos todo o mundo iria se tornar cristão, e não mais haveria necessidade de atividade missionária. Ora, em qual dos dois cavalos você teria apostado seu dinheiro?
Assim, precisamos aceitar e nos alegrar com a diversidade da expressão religiosa. Como cristãos, isso nos força a nos aprofundarmos muito mais no significado de nossa fé cristã. Não somos cristãos apenas porque nossos pais o foram, ou porque temos certas identidades culturais, mas, por causa de uma percepcão exclusiva de termos sido chamados. Por outro lado, ainda que não tenhamos uma religião universal, creio que possamos falar de uma espiritualidade universal. Fala-se muito, hoje em dia, acerca de uma ética universal, certos princípios morais que possamos compartilhar em meio a todas as culturas. Bem, talvez isso seja possível, e talvez seja possível, também, uma espiritualidade universal, que creio possa ser encontrada na experiência da meditação. Porque, com todas as diferenças que existem entre as religiões, e não se pode cancelar essas diferenças, há mesmo assim uma área comum, que encontramos no silêncio, na quietude e na simplicidade da meditação. E, se entramos juntos nessa área comum, se meditamos juntos, então, aprendemos a olhar uns aos outros muito diferentemente. As diferenças já não são mais divisões. Podemos olhar para um budista, um hindú, um muçulmano, ou um judeu, podemos olhar essa pessoa como um irmão ou uma irmã. Um irmão ou irmã budista, hindú, muçulmano, ou judeu. Trata-se de uma nova percepção, uma nova maneira de nos relacionarmos com as pessoas.
Mas, eu creio que estejamos apenas começando a compreender o que significa essa percepção. O dálogo é, com certeza, uma parte muito importante disso. Estamos aprendendo a dialogar, e ainda não sabemos muito bem como dialogar. E, dialogar não é o mesmo que procurar converter a outra pessoa sem que ela o saiba. Certamente, se fazemos isso com alguém, não podemos chamar a isso de diálogo. Diálogo é algo diferente. Mas, se entramos em diálogo através da experiência da meditação conjunta, então, creio que descobriremos o que significa essa espiritualidade universal.

P.: Não existiria uma diferença essencial entre a meditação não cristã e a meditação cristã? Da forma como a compreendo, a meditação não cristã sempre pede que as pessoas esvaziem suas mentes por meio da concentração sobre um objeto, p. ex. uma vela acesa, enquanto a meditação cristã envolve uma palavra sagrada, ou uma prece, na espera da iluminação. Qual é a diferença essencial?
LF.: Obrigado. Sim, creio que haja uma diferença entre a meditação não cristã e a meditação cristã. A diferença é a fé que trazemos para a nossa meditação, como cristãos, que é a experiência de fé em Jesus, como Mestre, como Salvador, como Senhor, em Jesus que vive em nós através da Ressurreição. Assim, nós veríamos a meditação como uma prece, como um tipo de prece muito pura e simples. Mas, dentro do ponto de vista cristão, tal como todas as formas de prece, ela nos leva à presença de Cristo, à união com a humanidade de Cristo, juntando-nos a Ele em sua jornada para o Pai, no Espírito. Portanto, há essa dinâmica trinitária, de Pai, Filho e Espírito, que é subjacente ao nosso entendimento e experiência da meditação, como cristãos.
Creio que, tal como disse na resposta anterior, há muitas similaridades e paralelos entre a meditação de diferentes tradições. Basicamente, toda meditação está às voltas da quietude: trazer a mente a uma quietude, ir além de toda atividade mental, no que tange à fala, ao pensamento e à imaginação, ir além na direção de um nível mais profundo de silêncio e de atenção pura. Ora, os budistas descreveriam isso de uma maneira, e nós o descreveríamos de outra. Eu descreveria essa atenção pura como sendo adoração. Jesus disse que Deus é Espírito e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade.
Não há dúvida que temos muito a aprender da experiência do Oriente, mas, aprendemos primeiramente entrando nós mesmos nessa experiência e, então, aprendendo a compreendê-la e a lhe dar nome nos termos de nossa própria tradição e, nos termos do Evangelho.
Creio, todavia, que a diferença básica para o meditante cristão é sim essa centralidade do relacionamento com Cristo.