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Jesus

Laurence Freeman OSB

Capítulo 1*
Introdução

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Misticismo, essa experiência pessoal da presença de Deus, não está particularmente limitada a qualquer expressão religiosa da humanidade, mas, constitui uma parcela essencial de todas as religiões ou tradições de sabedoria do mundo. O Cristianismo, certamente, não é uma exceção, ainda que esse fato possa surpreender muitos cristãos modernos.

Na antiga tradição judaica, as experiências místicas foram bem registradas; existem muitos relatos sobre a experiência da presença divina, em sonhos e visões: podemos pensar em Abraão, Jacó e Moisés, sem esquecer os profetas, especialmente a visão que Ezequiel teve quando do exílio na Babilônia, e a visão de Deus que Elias teve no Horeb, a montanha de Deus.

Ainda que a Cabala, a tradição mística judaica, seja, em geral, considerada como tendo se desenvolvido apenas no século doze, havia já, séculos antes de Jesus, e mesmo durante o seu tempo, uma prática de meditação bem estabelecida, a Merkavah ou tradição mística da “carruagem”. Fundamentava-se na visão de Ezequiel da “carruagem”, o “trono” de Deus, assim como, na visão muito significativa e influente do “trono” no livro de Enoque, e no livro de Daniel.

Ironicamente, trata-se de um aspecto praticamente trivial, que profundas experiências espirituais, nascidas do silêncio absoluto, frequentemente ocorram em períodos social e politicamente tumultuados. Mesmo Jesus nasceu em uma terra sujeita a muitos conflitos e conquistas políticas. Foi naquele clima problemático e precário que Jesus teve suas experiências místicas, das quais se desenvolveu sua própria e exclusiva percepção da presença divina.


Para Entendermos Jesus

Há muitas maneiras de entendermos Jesus, quem ele é, e o que ele quer nos dizer, talvez, em última análise, tantas maneiras quantas há de culturas e indivíduos humanos. O estudo que Jaroslav Pelikan fez  sobre isso ao longo dos séculos ilustra a imensa diversidade das respostas à grande e central pergunta de Jesus: “E vós quem dizeis que Eu sou?” (Lc 9,20). Ao darmos início à jornada para a qual este livro nos servirá de guia através de séculos de tradição mística cristã, essa pergunta nos ajudará a começar na direção certa. Dentre as muitas maneiras de responder à pergunta que define a identidade cristã, aqui me concentrarei nesta: Jesus é um mestre da contemplação.

Esta não é a maneira que, em princípio, muitos compreendem Jesus e, na verdade, alguns cristãos poderiam argumentar que esta não é de nenhum modo algo que a Ele se aplica. O Cristianismo passou a se identificar particularmente com a sua forma dominante ocidental, com a ação (se não com o hiperativismo), muito mais do que com a contemplação; pode parecer caracterizar-se mais por um zêlo missionário de converter, mais do que por uma capacidade contemplativa de coexistir com outros parceiros da busca pela sabedoria. Para alguns cristãos, a contemplação até parece suspeita, uma aproximação perigosa com a espiritualidade “oriental”, até mesmo uma contaminação do Oriente, ou uma mentalidade auto-obcecada de tantas das culturas contemporâneas. Para o bem do mundo e de sua crise, no entanto, urge que corrijamos essa interpretação errônea acerca da natureza não-contemplativa do Cristianismo e, igualmente, urge que compreendamos a necessidade de um diálogo interreligioso que surja de uma comum base contemplativa e a ela nos reconduza. São tantos os conflitos no mundo moderno que prosseguem sob as bandeiras da identidade religiosa e da intolerância para com outras identidades, a ignorância das crenças uns dos outros e, até mesmo, do medo das semelhanças que naturalmente nos conectam. O holocausto é uma acusação perpétua deste fracasso na compreensão religiosa. Porém, ele não parou ali. As guerras europeias do século vinte culminaram com um cerco com bombardeio de cristãos ortodoxos sobre muçulmanos, que durou quatro anos em Sarajevo, uma cidade em que os “três povos do Livro” coexistiram ao longo de séculos. O terrorismo do novo século ainda se disfarça sob bandeiras religiosas ameaçando a iminente polarização social. Nada encontramos nos ensinamentos de jesus que justifique essa intolerância; tudo o que encontramos em seus ensinamentos respira o espírito de unidade. Sua determinação pela não violência, mental e física, é o pilar central de sua mensagem à humanidade, que se complementa, em todos os sentidos, por sua ênfase na contemplação.

Jesus é um mestre da contemplação. Sua vida é um modelo para ela. Nem podemos começar a responder a sua pergunta “E vós quem dizeis que Eu sou?”, ou entender o significado de Reino, a sua crítica à religião, a sua compreensão da humanidade, ou sua morte e Ressurreição, a menos que entendamos o quão central é a contemplação em sua vida e em seus ensinamentos. Um exemplo explícito disso é a curta passagem do Evangelho de Lucas, a história de Marta e de Maria que, mesmo assim tão cedo na tradição cristã, expressa a primazia da contemplação sobre a ação, ao mesmo tempo que reconhece a inerente e difícil tensão existente entre ambas (Lc 10,38-42).

. . .

A história nos mostra Jesus como um mestre da contemplação, que compreende e comunica que a plenitude está no equilíbrio e na integração da santidade. Jesus não usou apenas palavras para ensinar isso, mas exemplos. Particularmente no Evangelho de Lucas o vemos frequentemente parar seu ritmo acelerado de vida, sua pregação, curas e viagens, e se retirar a locais quietos para rezar só ou na companhia de alguns de seus discípulos (Lc 6,12; 9, 18; 22,39). Se não houvesse uma harmonia entre o que pregava e o que fazia, faltaria autoridade ao seu ensinamento. A identidade cristã depende diretamente dessa autoridade. Caso não consigamos ver Jesus como um mestre da contemplação, perde-se o restante do quadro, a outra metade da identidade cristã. Certa vez, Bede Griffiths conclamou a Comunidade Mundial para a Meditação Cristã a ir depressa para a Índia, para começar a ensinar a meditação aos cristãos de lá. A razão disso, dizia ele, era a de que a maioria dos indianos nem encaravam o Cristianismo como uma religião verdadeira. Eles compreendiam e admiravam as inúmeras boas obras, as escolas e hospitais, ainda que ficassem menos impressionados com  a história de intolerância e exclusivismo. Porém, uma religião sem contemplação, tal como o Cristianismo era visto por muitos deles, carecia de uma parcela essencial do sagrado.

“E vós quem dizeis que Eu sou?”

Os mestres são figuras poderosas, e muitos podem abusar desse poder. Alguns mestres dominam e escravizam seus seguidores. Os verdadeiros mestres libertam e conferem poder, e se deleitam sempre que seus discípulos se apoderam pessoalmente daquilo que aprenderam e o colocam em prática. Mais do que isso:

Quem crê em mim fará as obras que faço e fará até maiores do que elas, porque vou para o Pai. (Jo 14,12)

Um bom mestre faz perguntas. Tal como um bom terapeuta, o bom mestre tanto sabe qual é a pergunta certa a ser feita, quanto o qual é o melhor momento de fazê-la. Um mestre da contemplação sabe que a formulação de perguntas, mais do que a entrega das respostas, é mais eficaz para abrir as mentes e conduzir as pessoas àquela verificação pessoal, que é o seu verdadeiro objetivo. Então, não é tanto a resposta que importa, é a maneira pela qual a se escuta a pergunta, quão profundamente ela é acolhida, o nível de atenção a que ela conduz. A pergunta certa leva quem a escuta a uma abertura para aquele processo de integração (aquela “uma só coisa que é necessária”) que promove a cura e se constitui no trabalho para a plenitude.

Há ligeiras diferenças nos relatos do Evangelho acerca da ocasião em que Jesus formulou essa pergunta de máxima importância. Há também discrepâncias entre os Evangelhos na maioria das histórias e dos eventos importantes da vida e do ensinamento de Jesus. Os Evangelhos canônicos são como quatro janelas voltadas na direção e para o interior dos mesmos eventos. Eles foram escritos para diferentes audiências, em diferentes comunidades de fé, em diferentes momentos. Quem os lê precisa se conscientizar de estar lendo um documento inspirado pela experiência da Ressurreição e do Cristo que vive em nosso interior, e não um artigo de jornal ou os autos de um processo legal. Os Evangelhos se baseiam em tradições verbais e escritas que nos conectam com eventos históricos que ainda possuem  influência sobre a consciência humana. Porém, a realidade dominante é a do Cristo Ressuscitado no presente espiritual. Por essa razão, sempre nos beneficiamos em perguntar por que esse evangelista em particular incluiu tal história ou deixou de fora aquele detalhe. Ao longo de dois milênios, a diversidade na fé conduziu a uma imensa riqueza nas tradições teológicas e, talvez sejam os comentaristas místicos, mais do que os ideólogos, os que fazem as melhores leituras desses textos sagrados no nível em que estes foram redigidos e tal como deveriam ser lidos. A meditação te sintoniza com esse nível e te permite lê-los como uma inesgotável fonte de inspiração e de sabedoria.

Tanto em Lucas, como em Marcos, Jesus “orava em particular, cercado por seus discípulos” quando formulou sua pergunta. Essa é a forma paradoxal em que isso é descrito e, de fato, é isso o que fazemos sempre que nos reunimos juntos em profunda oração. Estamos em particular, no sentido de que estamos em solitude. Oramos de maneira individual, mas não em isolamento; estamos na companhia, uns dos outros, mas não indistintos. Estamos fazendo aquilo que podemos fazer apenas em nossa individualidade. A contemplação, nesse sentido, é solitária. Porém, nessa solitude descobrimos nossa base comum com aqueles que oram conosco e, também, com toda a humanidade. Nesse sentido, a “meditação gera comunidade”, tal como dizia John Main.

Após a prece Jesus faz uma primeira pergunta aos discípulos: “Quem sou eu no dizer das multidões?” Eles respondem dizendo-lhe o que as pessoas estão dizendo: que Jesus é um dos profetas que ressuscitou. Jesus pode, certamente, ser entendido pelo lugar que Ele ocupa na tradição profética da Bíblia: os judeus e os muçulmanos o vêem dessa maneira. Jesus, no entanto, não tece comentários aqui. Em vez disso, Ele faz uma segunda pergunta, mais pessoal: “E vós quem dizeis que Eu sou?” Isso altera radicalmente tanto o tom quanto o significado da pergunta. Como de costume, Pedro se adianta com uma afirmação de fé: “Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo”. A reação de Jesus a essa resposta teologicamente correta não é aquela que poderíamos esperar. Não se trata de uma simples afirmação (como na versão de Mateus), mas uma severa proibição de anunciá-lo a alguém. Depois de elogiar Pedro, Ele logo o rejeita (“Afasta-te de mim Satanás”) por seu fracasso em compreender o significado daquilo que Ele havia dito. Como mestre contemplativo Jesus se acautela contra respostas e títulos. É tão fácil se agarrar a uma fórmula, fechando a mente, tão logo se pense ter encontrado a resposta certa. As perguntas satisfazem muito melhor a abordagem contemplativa por manterem a mente aberta à medida que esta chega à verdade de maneira mais completa. Elas incentivam a pessoa à própria descoberta e verificação da verdade. Assim, o que é que a pergunta de Jesus faz? Qual a razão da pergunta? Isso é importante para um entendimento do conteúdo contemplativo do ensinamento de Jesus, bem como, dos fundamentos da tradição mística cristã.

Trata-se de uma pergunta que ressoa ao longo de séculos e, ainda assim, chega até nós de maneira tão pessoal quanto ela chegou a Pedro e aos outros discípulos quando a eles foi formulada. Fico pensando em qual seria a reação que você teria à pergunta, “E vós quem dizeis que Eu sou?” Certa vez eu ministrei um curso na universidade sobre a “Moderna Identidade Cristã” e eu comecei o curso fazendo essa pergunta aos estudantes. A maioria deles deu respostas boas e brilhantes. Porém, na verdade, nenhum deles respondeu a real pergunta, quem eles pensavam Jesus ser. Eles comentavam ou citavam aquilo que outras pessoas pensavam. A razão de ser da segunda pergunta é que ela não pode deixar de ser pessoal e, portanto, ao contrário da primeira pergunta, que nos permite permanecer em segurança atrás dos pontos de vista de outras pessoas, toca diretamente ao nosso auto-conhecimento. Há ali, na segunda e mais poderosa pergunta, uma intimidade com a nossa privacidade, que é quase uma intromissão. Se a escutamos, não podemos nos esconder de nós mesmos. Ao final daquele curso, passados três meses, fiz a mesma pergunta aos estudantes. Então, já havíamos meditado juntos, explorado o Evangelho e estudado alguns dos principais professores e testemunhas do Cristianismo contemporâneo. Dessa vez, quase todos responderam à verdadeira pergunta, de um modo que parecia brotar do coração. O único estudante judeu naquela classe colocou sua resposta de uma maneira que particularmente me comoveu. Ele disse: “Bem, eu sou judeu, e isto me ajudou a entender ainda mais a minha identidade judaica. Ainda sou judeu, mas eu diria que passei a conhecer Jesus e, tenho certeza de que ele será uma presença em minha vida para o resto de minha vida”.

Essa é uma pergunta que mostra Jesus como um mestre da contemplação, e daquilo a que somos conduzidos pela contemplação. Ela não tem por objetivo testar a ortodoxia dogmática, ainda que o Cristianismo tenha, mais tarde, se ocupado mais com isso do que qualquer outra religião. Ela abre o caminho e conduz à meta e aos frutos da contemplação. A contemplação  é um caminho, como experiência, uma prática para toda uma vida, uma expansão e um aprofundamento da consciência. Trata-se de estar no momento presente. De acordo com Tomás de Aquino, trata-se do “simples desfrute da verdade”. Acima de tudo, conduz ao auto-conhecimento. A tradição mística cristã, através da qual este livro nos guiará, afirma cada vez mais claramente, a cada nova geração, que o auto-conhecimento é a base e o necessário prelúdio para o conhecimento de Deus. No início de seu livro intitulado Confissões, Santo Agostinho diz: “Que eu me conheça a mim, para que eu possa conhecê-Lo”. Em um trabalho mais tardio ele desenvolveu essa ideia ao dizer: “O ser humano deve, antes de mais nada, restaurar a si mesmo, de modo a, fazendo de si mesmo um degrau, elevar-se de si mesmo para Deus”. O auto-conhecimento é uma espécie de trampolim. A contemplação é o oposto da auto-fixação. É dinâmica e transcendente. Nos modificamos a cada nível de auto-conhecimento que penetramos.

Pedro chamava Jesus de “Messias” ou “Cristo”, que significa “o ungido”. Sua referência é a de um vocabulário da tradição bíblica e da fé judaicos. Na medida em que Jesus nasceu, viveu e morreu nessa cultura religiosa, esse vocabulário é naturalmente apropriado e ainda segue sendo relevante. Qualquer um que deseje entender Jesus não pode ignorar seu ambiente histórico, e necessitará de algum conhecimento que lhe possibilite navegar na linguagem bíblica original da tradição cristã. Ao mesmo tempo, a pergunta de Jesus, ao longo dos séculos, disseminou-se muito além desse meio cultural, e tocou pessoas mergulhadas em muito diferentes sistemas de conceitos e simbolismo religioso. Na verdade, essa expansão para alé de fronteiras culturais aconteceu desde o início. Durante sua vida e imediatamente após a Ressurreição, os primeiros judeus cristãos encararam o desafio de comunicar a fé a gregos e romanos que possuíam pouco ou nenhum conhecimento da linguagem e história bíblicas. Nos dias de hoje esse “diálogo da pergunta” se expandiu muito além do mundo greco-romano e muito mais longe do que os primeiros cristãos poderiam ter imaginado. Ainda assim, a pergunta sobrevive, e continua a ser tão desafiadoramente simples quanto sempre foi. Como, então, responderiam a essa pergunta um budista, um hindú, um muçulmano ou um moderno humanista? Quem dizemos que é Jesus pode redefinir radicalmente como entendemos a nós mesmos e nossas tradições. Isso não significa que sua pergunta nos força à rejeição de outras tradições e de suas correntes de sabedoria. Ela simplesmente nos desafia a um novo nível de auto-conhecimento, a uma maior autenticidade e a uma experiência mais profunda da verdade universal. Assim, uma resposta asiática que se utilize da linguagem dos Vedas ou dos Sutras, não está “errada”, assim como a resposta europeia, que se utiliza de termos escolásticos ou gregos mais familiares, não está “certa” em prejuízo das outras. Jesus, como mestre universal da contemplação, nos permite uma expansão na direção dos horizontes infinitos de sua própria largura e profundidade. Na contemplação focalizamos esses horizontes cada vez mais afastados. Podemos fazer uso de uma grande variedade de fórmulas e de conceitos, mas não somos obrigados a nos aprisionar a eles. Essa liberdade contemplativa da linguagem e do pensamento em nossa experiência de Deus ( a dimensão “apofática” da fé) é, portanto, central para o significado e o empreendimento de Jesus.

O Cristianismo carrega uma bagagem pesada em sua identificação praticamente exclusiva com a cultura, o pensamento, a linguagem e a arte europeus. Se você for a uma igreja indiana, muito provavelmente verá um Jesus branco, louro, de olhos azuis, e muitos devotos de lá se sentiriam ofendidos de tê-lo de outro modo. A “busca pelo Jesus histórico”, no entanto, não é o único elemento em nossa resposta a essa pergunta. Todavia, a autenticidade histórica de Jesus e dos Evangelhos é fundadora. Jesus foi um judeu do primeiro século. Isso demanda bom senso, assim como fé, tanto na leitura dos textos quanto ao comentá-los. Porém, ele é, ao mesmo tempo, mais do que isso.

Jesus como profeta, sacerdote e Rei

Os primeiros cristãos não ficavam presos, tal como acontece com muitos modernos eruditos, ao reducionismo que uma ênfase excessiva sobre a identidade histórica carrega consigo. Eles pensavam em Jesus como profeta, sacerdote e Rei: símbolos bíblicos tradicionais que a eles Jesus parecia exemplificar, preencher e transcender. Ele era um profeta porque ele era tão claramente uma parte daquela tradição religiosa de seu povo, e mesmo por seu status e destino controversos. Os muçulmanos reverenciam Jesus de modo especial como sendo um dos grandes profetas e mensageiros do plano divino. No sentido muçulmano, os profetas são aqueles que voltam a fazer cumprir  as revelações de Deus e os significados das Escrituras. Os mensageiros também trazem uma nova Escritura. Jesus é um profeta e um mensageiro. Dentre os 25 profetas mencionados no Corão ele é um dos cinco grandes profetas. Como todos os profetas, ele, acima de tudo, afirma e proclama a unidade de Deus. Deus é um: essa é a revelação e a mensagem fundamental das três fés irmãs. A missão que lhes é comum inclui a exposição e a rejeição de qualquer forma de idolatria, que é substituída por Deus. Os profetas bíblicos insistem repetidamente na importância da fidelidade, da monogamia religiosa; e, o grande símbolo do casamento humano, um sacramento indissolúvel dentro do entendimento cristão, é utilizado para descrever todo relacionamento humano com Deus. Jesus fala dessa maneira da sua e da nossa unidade com o “Pai”, esse termo que ele usa para descrever esse amigo da humanidade que é brando, amoroso, inclinado ao perdão e completamente leal, e que é a fonte de todo ser. O tema do “casamento místico” na tradição cristã se origina disso. Para os humanos o casamento com Deus, individual ou socialmente, é uma caso de amor apaixonado e, uma viagem atribulada.

Através de sua história, os israelitas contam como, motivados por seus desejos ou temores, eles estavam sempre se desviando, cometendo adultério contra esse casamento, pulando a cerca com deuses pagãos. Sob pressão, tal como em todo casamento, a fé é submetida ao teste e não raro se quebra, quando um ou ambos os cônjuges se entregam à forma conjugal de politeísmo. Jesus não faz um chamado pela volta das pessoas que se entregavam à devoção de deuses cananeus ou babilônicos, mas, ele está claramente na tradição profética quando expõe a idolatria do Templo (a religião como um substituto para Deus), ou do poder social e da prosperidade.

Todavia, ele também é um sacerdote no sentido que sua vida possui um significado sacrificial. Os sacerdotes oferecem sacrifício, não apenas ou essencialmente oferendas de sangue, mas o contemplativo “sacrifício do louvor”. O sacrifício “torna sagrado” e envolve, no nível mais profundo, intercâmbio, transferência e transformação. As parábolas muitas vezes ilustram isso com a imagem de uma semente que cai ao solo e morre de modo a produzir a vida. O significado contemplativo no interior do ensinamento e das parábolas acerca do Reino demanda esse tipo de interpretação. No Novo Testamento vemos Jesus “tanto como sacerdote, quanto como sacrifício” e, ao explorarmos o significado dessa combinação somos conduzidos à dimensão mística de sua identidade. Ao chegarmos ali, podemos ver porque Jesus, como um mestre da contemplação, é simultaneamente um mestre da não-violência. Ao oferecer a si mesmo, você acaba com a necessidade ou mesmo com o sentido de um bode expiatório (vide R. Girard, A Violência e o Sagrado – São Paulo, Ed. Paz e Terra, 2008). Isso explica o porquê de cada uma das narrativas dos Evangelhos dedicar tão grande parte às suas poucas horas finais de vida e à maneira como ele encarou e aceitou a morte. Sua morte é considerada como sendo de importância crucial para o entendimento de quem ele é. Ele viveu e morreu tal como ele ensinou e, assim, sua vida e sua morte constituem, em si mesmas, supremas exposições de sua identidade.

No entanto, o significado do sacrifício é místico, e não econômico. Jesus não estava pagando uma dívida atrasada que havia crescido a proporções tão astronômicas que demandava uma morte divina para ser saldada. Essa ideia da expiação nos atrai porque está muito próxima das nossas maneiras humanas de pensar acerca de dívidas e de punições, mas, somos constantemente avisados para nos lembrarmos que: se Deus “pensa”, Ele o faz de maneiras muito diferentes das nossas. Ainda assim, não é fácil dizermos exatamente qual o significado que o Novo Testamento oferece para o sacrifício de Jesus. Não há nenhuma explicação clara e definida do porque Jesus devia morrer para nos salvar dos nossos pecados, ou de como essa morte operou esse efeito da salvação. A teoria da expiação é a de que Deus estava muito zangado porque Adão e Eva comeram do fruto da árvore proibida e, que a única maneira de acalmar esse Pai zangado e implacavelmente justo, de modo a demonstrar misericórdia, foi por meio da morte horrível de seu Filho; ou seja, uma metáfora poderosa e perigosa, mas não é a explicação. Poderíamos pensar que os Evangelhos e o Novo Testamento são surpreendentemente imprecisos quanto ao porque esse sacrifício precisava acontecer e, de que maneira ele funcionou. A tradição mística mostra que, na verdade, não há imprecisão, mas que o significado é transmitido apenas àqueles que passam pela experiência em questão. Apenas aqueles que se perdem a si mesmos verão o que Jesus quer dizer por meio de “dar a sua vida” por nós. Aqui também, precisamos ver Jesus como um mestre da contemplação, e não como um comerciante dos mercados cósmicos.

Profeta, sacerdote e Rei: ele não recusou a atribuição sarcástica com que Pilatos o intitulou. Um dos sentidos disso é social. Ele é um dos governantes da história, cujo curso ele continua a influenciar. É como se ele houvesse plantado sementes de aparência inocente no campo da evolução humana, e as deixasse crescer. O aparente fracasso total de sua missão era, em si, parte da realização da mesma. Infelizmente, mas de maneira previsível, seus seguidores logo confundiram essa influência com o poder, concebido como sendo uma força social e religiosa. Sempre que esse erro assumiu forma institucional, traiu de maneira flagrante tanto o mestre quanto o ensinamento. No entanto, miraculosamente, e não há outra palavra para isso, a história da Igreja é de contínua recuperação desses imensos lapsos, conseguida por meio da reativação da dimensão contemplativa da fé.Os santos e místicos, mais do que quaisquer outros, entendem e relembram aos demais que seu “Reino não é deste mundo”, ainda que agora, certamente, esteja atuando neste mundo. O Reino, ele nos diz, está no meio de nós tanto quanto está em nós. Entramos nele, não através do acúmulo e do exercício do poder, ou pela construção de edifícios, mas, de maneiras muito diferentes, radicalmente paradoxais: o abandono do poder; o perdão; a compaixão; a identificação de si com o outro na necessidade; o crescimento humano; a infantilidade e a sabedoria.

O significado da Ressurreição

Não precisamos de muita sabedoria para entender que a pergunta “E vós quem dizeis que Eu sou?” não é tão fácil como Pedro talvez tenha pensado. Jesus não demanda uma resposta rápida, fácil, nem mesmo uma “resposta certa”. A análise teológica se faz necessária, é claro, mas não é suficiente para o entendimento da verdadeira razão da pergunta. Assim como em todas as passagens do Evangelho, o seu significado demanda um trabalho de atenção em múltiplas camadas. Devemos, na verdade, prestar atenção à busca na pergunta. Na medida em que demanda uma clareza de atenção profunda e sustentável, ela também demanda silêncio. A prece isenta de imagens e o silêncio ajudam a revelar o significado que as histórias contém. Os milagres, as curas, os ensinamentos, a Ressurreição não são apenas respostas factuais: elas expressam a verdade de quem formula a pergunta que se revela no significado da pergunta.

A Ressurreição, é claro, é central para qualquer entendimento de Jesus, e da natureza do discipulado cristão. Não era a Ressurreição que era gerada pela comunidade cristã; era o oposto. A comunidade cristã se formou por meio da experiência da Ressurreição. No entanto, não há nos Evangelhos uma descrição específica de como aconteceu a Ressurreição. Jesus aparece para as pessoas que, em geral, falham ou temem em reconhecê-lo, mas não o vemos, de repente, sair vivo da cova. Alguns evangelhos apócrifos descrevem isso, mas não os canônicos. Nem mesmo apenas o fato de que a cova estava vazia  é a prova de que Jesus renasceu do meio dos mortos. O “vácuo”, claramente, fez parte da tradição primitiva, mas, o que realmente constitui a experiência da Ressurreição é a surpresa do encontro com o Cristo vivente, que é a mesma pessoa que era antes, mas é uma pessoa, alguém que se relaciona com os outros e conosco, de uma maneira significativamente nova.

Novamente, fora de uma mente orientada pela fé, ou mesmo fora de uma comunidade de fé, não existe uma explicação fácil do que a Ressurreição significa, ou de como hoje experienciamos o Cristo Ressuscitado. Por não haver prova científica para isso, a mente racional e analítica se vê perplexa e se sente ultrajada. Tanto melhor, porque é então um koan1 que nos leva à beira do abismo mental e nos convida a olhar para o ilimitado espaço do espírito. Assim agem, de um mesmo modo, a beleza de uma cantata de Bach ou o altruísmo de um Bom Samaritano. A explicação teológica da cruz e da Ressurreição não é definida e estéril; mas, o que significa dizermos que Jesus morreu “para nos salvar dos nossos pecados”, ou que ele vive e “habita em nosso interior”? Uma resposta satisfatória a essas perguntas muito se beneficia pela maneira com a qual encaramos a Jesus como um mestre da contemplação. Falamos aqui tanto acerca do estilo de vida, dos usos e costumes, quanto acerca do pensamento. Precisamos retornarao seu questionamento: “E vós quem dizeis que Eu sou?” Ao escutar essa pergunta e permitir que ela nos conduza ao auto-conhecimento e a mudanças na maneira como vivemos e entendemos a vida, crescemos no conhecimento espiritual dos mistérios: “O teólogo é alguém que ora e, alguém que ora, é um teólogo” (Evágrio Pôntico: The Praktikos and Chapters on Prayer, ch. 60)

O Ensinamento através de Parábolas

Acima de tudo, a resposta pressupõe Jesus como pessoa que, em si mesmo, é uma pergunta para a humanidade, bem como, alguém que formula grandes perguntas para todas as culturas e épocas. Nos Evangelhos o vemos como um mestre, um mestre de seu próprio tempo, e de todos os tempos, voltado para a sua cultura e para todas as culturas. Rabi, Mestre, Professor, esses são os termos pelos quais ele é chamado, mais do que quaisquer outros. O que ele ensinava?

Como mestre judeu do primeiro século, tipicamente, ele era chamado de Rabi e tinha seguidores. Ele aceitava os dogmas fundamentais do Judaísmo baseados na verdade de que Deus é Uno e que não há nenhum outro. Há aspectos significativamente originais em seus ensinamentos, mas, de muitas maneiras, ele é um mestre do contexto de seu tempo. Ele se utiliza da regra de ouro da ética: ”tudo aquilo que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles”. E, até mesmo algumas de suas modificações à Lei (“ouvistes o que foi dito . . . Eu, porém, vos digo . . .”) possuem paralelo contemporâneo.

No entanto, os Evangelhos mostram o impacto pessoal único que ele imprimia sobre aqueles que o ouviam, como um mestre “com autoridade”. Ninguém permanecia indiferente a ele, ninguém adormecia enquanto ele falava. Uma característica, e de certo modo um estilo único de seus ensinamentos é seu uso das parábolas. São Marcos, na verdade, diz: “nada lhes falava a não ser em parábolas”. De que maneira vemos Jesus como um mestre, e especialmente como um mestre da contemplação, através das parábolas?

O capítulo 4 de Marcos possui uma boa colheita de parábolas. Como sempre, a linguagem e as imagens utilizadas por Jesus são próximas ao comum da vida, sem jargão religioso ou conversa de Deus. As parábolas são uma forma de ensinamento com a qual as pessoas podem se relacionar de imediato: imagens de crescimento, relacionamento, trabalho, necessidade, perder e encontrar. Elas ilustram a orientação e conteúdo contemplativo dele, porque agem em nós no ponto em que nos encontramos, em vez de nos empurrar ideias e crenças. Ele fez um chamado à conversão, mas sem coerção.

Jesus falava acerca do “Reino de Deus” (referindo-se mais a uma presença do que a um local). Ele disse:

Acontece com o reino de Deus o mesmo que com o homemque lançou a semente na terra: ele dorme e acorda, de noite e de dia, mas a semente germina e cresce, sem que ele saiba como. A terra por si mesma produz fruto: primeiro a erva, depois a espiga e, por fim, a espiga cheia de grãos. Quando o fruto está no ponto, imediatamente se lhe lança a foice, porque a colheita chegou”. (Mc 4, 26-29)

Meditantes poderiam ler isso com uma particular ressonância de sua própria prática diária. Nos estágios iniciais, o ritmo diário da meditação matutina e vespertina pode não parecer muito produtivo. Ainda assim, eles perseveram por causa de alguma percepção de que algo está acontecendo (como, eles não sabem). Existe uma intuição de crescimento, mesmo antes de aparecerem os seus sinais, que segundo a descrição de São Paulo são os frutos do Espírito: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, gentileza e o auto-controle. (Gl 5, 22)

Esse é o trabalho de Maria e, como vimos, ele é complementar ao trabalho de Marta no cotidiano da vida. Místico e moral: Jesus abraça e une a ambos. Como um mestre da contemplação ele não aponta apenas para interioridade e calma de alma, mas para a inteireza. Há uma ilustração disso na poderosa ambiguidade de sua resposta a uma pergunta acerca de quando viria o Reino de Deus. Quem fez a pergunta, claramente, pensava no Reino como um local ou uma mudança na política social, em vez de um crescimento para a presença. Jesus, no entanto, não rejeita nem a dimensão interna, nem a externa. Ele diz: “A vinda do Reino de Deus não é observável, pois eis que o Reino de Deus está no meio de vós”. A pequena preposição grega ev engloba tudo. A contemplação simplifica e integra. Jesus simplificou a Lei, reduzindo o universo moral ao único e grande mandamento do amor. A contemplação também revela a reciprocidade do trabalho interior e exterior, a maneira como o estado da alma de alguém se espelha em seu comportamento. Assim, seria um engano dizer que Jesus é apenas um mestre da contemplação. É necessário percebercomo ele é um inequívoco mestre da não-violência. Fica claro, então, como esses dois pilares de sua sabedoria sustentam-se um ao outro, e formam o edifício espiritual de seu ensinamento.

A não-violência está muito clara: oferece a outra face, orai pelos que vos perseguem. Caminha uma milha a mais. Se você for atacado não reaja com violência , mesmo que a Lei e o bom senso te dêem o direito de fazê-lo (Mt 5, 38-48). A Lei demanda olho por olho, dente por dente. Isso não significa vingança, mas um equilíbrio de um certo tipo de justiça a que hoje se dá o nome de “reação proporcional”. Caso alguém te agrida com seus punhos, você poderá dar um soco de volta, mas não utilizar uma arma. Se alguém bombardear seu paiol de munições, você não poderá bombardear os seus civis. Não é uma regra perfeita, mas ajuda a moderar o nível de violência. Jesus, no entanto, nos convida a renunciar a esse direito à retaliação proporcional, e a adotar uma política de completa não-violência. “Eu, porém, vos digo . . .” Esse chamado à não-violência não se baseia em um idealismo moral (pensando que seja, poucas pessoas se dão ao trabalho de levar isso a sério). Baseia-se num discernimento contemplativo da correspondência que há entre naturezas humana e divina. O Deus que Jesus conhece é aquele que “faz nascer o seu sol igualmente sobre maus e bons e, é bom para com os ingratos e os maus”: muito distante do Iaweh colérico dos fundamentalistas. Ademais, o ensinamento está fundamentado em uma verdade ontológica, a de que a humanidade possui os mesmos genes desse Deus. “Vosso amor não deve ter limites, assim como o amor de vosso Pai celeste não tem limites”. Nossa verdadeira natureza é não-violenta porque a nossa verdadeira natureza é divina. Isso não quer dizer que sejamos Deus. Porém, quer dizer que somos como Deus. Ainda que não tenha sido assim historicamente, toda a moralidade cristã se origina essencialmente desse discernimento místico do ser humano à imagem e semelhança de Deus. De fato, os primeiros pensadores cristãos, que elaboraram seu pensamento à luz da própria experiência mística, teologizaram essa correspondência-em- natureza humana-divina com a equação doutrinária da Encarnação: Deus tornou-se humano para que os seres humanos pudessem se tornar Deus.

O senso de urgência em Jesus

Ao dar início a sua pregação pública, Jesus a condensou em uma frase de efeito: “Cumpriu-se o tempo e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho”. (Mc 1,15) A força motriz de sua mensagem é um discernimento das verdades eternas, assim como, um senso de urgência que é muito humano. Assim, o seu ensinamento possui um eixo contemporâneo-contemplativo. Ele fala da descoberta do tesouro enterrado no campo do próprio coração da pessoa, do encontro com a pérola de tão grande valor que justifica que a pessoa de boa vontade venda tudo o mais que possui. Pobreza, esvaziamento, desapego, estão no fulcro contemplativo da boa nova. Mas, ele também fala de reconhecer os sinais dos tempos, de permanecer vigilante, alerta e pronto, porque “daquele dia e daquela hora, ninguém sabe”.(Mt 24,36) Olhe em volta para os campos: eles já estão maduros para a colheita. O ceifeiro cobra seu salário e junta uma safra. Felizes os olhos que vêem o que vós vedes! Pois eu vos digo que muitos profetas e reis quiseram ver o que vós vedes, mas não viram, ouvir o que ouvis, mas não ouviram. (Lc 10,24)

O termo grego para julgamento é krisis. A vida é assunto crítico e, há um limite de tempo zero para o ensinamento de Jesus. João Batista é o divisor de águas, a ponte entre a antiga, a visão cíclica das coisas, e a nova confrontação com a imediata e irresistível bondade da presença de Deus. Nesse “agora” reuniram-se a Lei e os Profetas, assim como fizeram Elias e Moisés com Jesus na cena da Transfiguração. (Mt 17) Existem dois aspectos universais na religião: de um lado as leis, regras morais e rituais originados de uma autoridade transcendental e, de outro, os ensinamentos espirituais transformadores, os profetas, a visão mística e imanente. Eles se reúnem, aquela única coisa que é necessária, no Reino de Deus.

Qual é, então, a posição da religião? Se a Lei e os Profetas se integraram no Reino e, se o Reino é agora, é muito mais uma realidade presente do que uma recompensa por uma vida boa e moral, qual a razão de toda a bagagem religiosa? A bagagem carrega essa mensagem e se presta a muitas necessidades humanas, mas podemos abandonar grande parte dela à medida que a experiência nos permita assimilar e verificar pessoalmente o ensinamento. Jesus profere a mais radical de todas as críticas religiosas da religião. Ele deslegaliza o pecado, associando-o com  a graça e o perdão, e não com a exclusão e a punição. A urgência de sua mensagem é tão forte agora, quanto sempre foi. Não é urgente porque o fim do mundo acontecerá na próxima semana. É urgente porque você e eu, agora, precisamos ouvir e reagir a esse anúncio. Por este motivo, os grandes místicos e mestres da tradição, que este livro apresenta, muitas vezes se encontraram em maus lençóis com a instituição. Eles viram e ouviram aquilo que Jesus estava realmente dizendo, além do horizonte da imensa e bela bagagem cultural e moral que cresceu para carregar a sua mensagem que é simples, devastadoramente simples.

O problema é que uma vez que você tenha ouvido isso, você não será mais a mesma pessoa. Por vezes, alguém poderá até desejar não ter ouvido. Não se pode voltar atrás. Que diferença a escuta provoca?

Ivan Illich cunhou a frase “a corrupção do Cristianismo”. Ele via que o problema atual da Igreja não se devia à secularização ou ao materialismo, mas, à errônea escuta e distorção dos ensinamentos dos Evangelhos. E, a “corrupção do que há de melhor, é o pior que pode acontecer”. O restabelecimento e a cura dependem de uma volta às raizes, de uma nova escuta que purifica os olhos do coração e restaura nossa capacidade de ver a Deus. Essa é a linguagem e o conteúdo da tradição mística cristã, que nos reconecta ao frescor do coração contemplativo do Evangelho e a Jesus como mestre da jornada interior que transforma a realidade exterior e, com ela, a vida da Igreja.

Jesus, que exorcisa e cura

Me concentrei em Jesus como um mestre da contemplação, e isso focaliza todos os muitos aspectos desse significado. Mas, também o vemos como um exorcista, que expulsa as forças das trevas da mente, as que nos controlam através do medo e da raiva. A frase que a Bíblia mais utiliza é “Não temas”. Também é o começo e o fim dos Evangelhos. Jesus liberta dos medos que habitam a treva interior. Essas histórias preparam o terreno para a ulterior exposição da tradição mística da obra de purificação, a noite escura, ascese interior e o estado de guerra espiritual da prece.

Também vemos o Jesus que cura. Suas curas milagrosas serão posteriormente utilizadas para ilustrar a percepção da tradição mística de que a prece é a grande terapia da alma. Ele restabelece as pessoas na inteireza física, mental e social, mas não de modo a provar coisa alguma acerca de si mesmo. Ele cura por causa de um relacionamento direto de compaixão com quem sofre. Via de regra ele atribui a cura à fé da pessoa que pediu a cura, e não a magia, ou nem mesmo a poderes pouco usuais. Através da compaixão ele dá início a uma ética revolucionária na maneira pela qual definimos nosso próximo. Tal como nos ensina a parábola do bom samaritano, nosso próximo é todo aquele para quem nos permitimos destinar nossa compaixão, e com quem nos sentimos interligados nas necessidades e nas feridas mútuas da sempre passageira condição humana.

As parábolas e as afirmações de Jesus criticam a moralidade, o pecado e a religião em maneiras que a humanidade jamais poderá esquecer. Ainda assim, e porque seu ensinamento flui de sua experiência unitiva de Deus, seu objetivo não é o de ensinar uma nova moralidade, nem mesmo o de estabelecer uma nova religião. O efeito é muito mais o de despertar uma nova consciência. Os rabinos de seu tempo muitas vezes discutiam, tal como os pensadores religiosos sempre fazem, sobre quais eram os mandamentos e os ensinamentos essenciais. Ele participou desse debate afirmando: “Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, com toda a tua força; e a teu próximo como a ti mesmo. Disso dependem toda a Lei e os Profetas”. O termo que sobressai aqui é amarás. Ele não apenas simplifica a moralidade e a religião, mas na tradição que se segue irá descrever tanto a verdadeira natureza de Deus, quanto a obra da prece pela qual o humano se torna divino. Quando dizemos que Jesus é um mestre da contemplação, estamos na verdade dizendo que que ele nos confre toda uma nova consciência, toda uma nova maneira de ver a presença de Deus no interior de cada um de nós, e a presença de Deus em todos os relacionamentos humanos e na sociedade humana. “Mestre da contemplação” não significa que ele tenha sua morada no mundo das nuvens de um outro mundo. Assim que ele sai de Nazaré ele está em conflito pelo resto de sua vida. Porque ele viu a verdade da não-violência, ele não mais teme o conflito. Ele promete a paz e o descanso, mas não se trata de uma falsa paz ou de estagnação.

Ênfase na interioridade

Em seus “discursos de despedida” (Jo 13-16), Jesus descreve a prece “em meu nome”. O termo “nome” sugere não apenas aquilo que você inclui no campo solicitado ao preencher um formulário bancário, mas, a verdadeira presença, a essência viva e misteriosa de uma pessoa. Tal como os místicos cristãos iriam descobrir em seu progresso, rezamos “nele, com ele e através dele”. No restante deste livro os mestres da prece cristã apresentarão as grandes variações sobre este tema.

Ao sermos apresentados a eles, nos abrimos mais completamente para a experiência de Jesus como nosso mestre da contemplação, como um mestre vivo. Ao percorrê-la, essa jornada interior se materializa numa maior capacidade para o amor: “Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos se tiverdes amor uns pelos outros”. (Jo 13,35)

Isso abrirá os sentidos espirituais para ajudar a “verificar as verdades da fé em sua própria experiência”, tal como afirmou John Main, e assim, compreender o significado do envio do espírito, que é a culminância da vida de Jesus:

“Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós. . . . o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que vos disse”. (Jo 14, 18-26)

Finalmente, nos será de auxílio vermos que ao meditar estamos colocando em prática o ensinamento de Jesus sobre a prece, de uma maneira séria. No Sermão sobre a Montanha (Mt 5-6), em que ele condensa seu ensinamento sobre a prece, o primeiro elemento que ele enfatiza é a interioridade. A prece nada tem a ver com demonstrações públicas, ou com a obtenção de boas opiniões das outras pessoas de modo a alimentar nosso próprio ego. Em vez disso, deveríamos entrar em nosso quarto e fechar a porta”. A prece nada tem a ver com “vãs repetições, imaginando que pelo palavreado excessivo sereis ouvidos. Vosso Pai sabe do que tendes necessidade antes de lho pedirdes”. Assim, a prece tem a ver com brevidade, simplicidade e confiança, e isso se coaduna naturalmente com o silêncio. Também tem a ver com libertação da ansiedade e da obssessão com necessidades materiais. Tem a ver com consciência plena, buscar antes de mais nada o Reino de Deus. E, tem a ver com viver o momento presente livre de temor do futuro.

Estes são os elementos centrais do ensinamento de Jesus sobre a prece: interioridade, silêncio, calma, consciência plena e estar presente. Esses são os elementos da contemplação. Ao colocá-los em prática estaremos rezando como ele, o mestre da verdadeira fonte da contemplação, nos ensinou. Ao rezar dessa maneira descobrimos aquilo que John Main também afirmou: que sempre que nos sentamos para meditar adentramos em uma tradição viva.


 


[1] Na tradição Zen um koan é uma história que tem o propósito de ensinar, que é frequentemente irrealista, paradoxal, e não permite uma explicação lógica. Ela faz com que a mente se liberte da racionalidade.

 


[*] Esta é a tradução do capítulo um, de autoria de Dom Laurence Freeman OSB, do livro que a Comunidade Mundial para a Meditação Cristã (WCCM) fez publicar no Reino Unido onde foi impresso em Norwich por Canterbury Press sob o título Journey to the Heart – Christian Contemplation through the Centuries – An Illustrated Guide edited by Kim Nataraja.

Os capítulos desse livro se baseiam nas palestras semanais que diferentes apresentadores ministraram em Londres num curso de um ano sobre “As Raizes do Misticismo Cristão” e apresentam a evolução do pensamento ligado ao misticismo cristão ao longo dos dois últimos milênios. O livro conduz o leitor desde as raizes do ensinamento de Jesus no NT, passa pelos ensinamentos dos Padres e Madres do Deserto, por Mestre Eckhart, pelos místicos ingleses e espanhóis chegando até místicos contemporâneos, como John Main, Thomas Merton e Bede Griffiths.

Este livro ainda não foi traduzido para o português e a tradução aqui apresentada é assinada por Roldano Giuntoli, sem que todavia tenha sido revista.