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O Ego

Estas são as palavras de Jesus no Evangelho de Lucas:

 

Dizia ele a todos: “’Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me.  Pois aquele que quiser salvar sua vida a perderá, mas o que perder sua vida por causa de mim, a salvará.  Com efeito, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se se perder ou arruinar a si mesmo?” (Lc 9:23-26)

 

O grande obstáculo nessa jornada, seguindo o Cristo, é a maneira como nos enganamos ao nos identificarmos com nosso ego.  Talvez, por sermos religiosos, exageramos ao acreditar que haja consenso acerca de ser uma boa coisa, essa a de deixar o si-mesmo para trás.  Certa feita, Eu estava conversando com uma executiva de sucesso em Nova York, que acabara de assistir a uma palestra que ali ministrei.  Eu havia falado em deixar o ego para trás, algo que voces não pensariam que alguém realmente pudesse contestar.  Ela se apresentou em seguida e disse:  “Que coisa mais sem sentido é essa de que voce fala!  Eu não quero deixar meu ego para trás.” E, ela acrescentou: “Eu sou meu ego.”  Penso que, ao menos, ela possuía uma clara percepção daquilo em que ela acreditava.  A maioria de nós, se identifica com seu próprio ego, inconscientemente.

Ao nos empenharmos nesta prece, passamos a entender a nós mesmos, nosso ego, mais claramente.  Compreendemos que o ego é, ao mesmo tempo, a causa e o estado de sofrimento.  O Buddha afirmou: a vida é sofrimento e, o sofrimento é a vida.  Suponho que ele se referia ao ego.

 

O ego se manifesta de muitas maneiras e, se mete em todas as coisas.  Ele pode interferir em nosso trabalho espiritual, em nossa jornada espiritual.  Quando abraçamos uma vida religiosa, não perdemos o ego.  Não perdemos o ego, nem mesmo quando começamos a orar.  Existem determinados sinais da atividade do ego, dos quais nos tornamos mais conscientes, à medida em que nos tornamos mais simples.

 

O primeiro sinal do ego, é o desejo de ser grande, por exemplo, o desejo de ser o número um, o desejo de dominar.  Há, então, o desejo de tomar; o ego quer tomar, mais do que dar, ou mais do que largar.  O ego deseja manter, segurar, agarrar, possuir, não largar.  O ego deseja avançar, conseguir mais, ser mais, conhecer mais, possuir mais.  O ego deseja agarrar-se a tudo, mesmo que seja em prejuízo dos outros, em outras palavras, colocando-nos a nós mesmos acima dos outros.  Essas características do egoísmo, são características de todas as atividades, sejam elas espirituais, físicas ou mentais, nas quais possamos estar envolvidos.  Assim, existe um perigo real, especialmente para o religioso, de uma espiritualidade egoísta.  Uma espiritualidade que deseja a grandeza, que deseja tomar uma experiência de Deus, ou da santidade, mantê-la, ganhar mais e, agarrar-se a ela, mesmo que seja em prejuízo de outros.

 

As palavras dos Padres do Deserto são, na verdade, um comentário constante acerca dos perigos de uma espiritualidade egoísta.  Talvez seja por isso, que São João da Cruz nos diz para renunciarmos a todos os desejos, até mesmo ao desejo por Deus.  Não ao amor a Deus, não a nossa inata saudade de Deus, aos quais não podemos renunciar, mas, ao nosso desejo por Deus, o desejo de agarrar, de controlar,  de possuir , de manter Deus.  Nesta forma de prece, na simples ascese da palavra única, atingimos a ‘raíz do pecado’, tal como  A Nuvem do Não Saber a denominou, a raíz de nosso ego.  Largamos.  Existe a frase dos Alcólicos Anônimos: Largar, permitir Deus.

 

É claro, que o ego é um estágio natural do desenvolvimento de nossa humanidade.  O ego se desenvolve numa criança em determinada idade e, o ego é uma força, ou ferramenta, instrumento da consciência, útil e necessário.  Sem um ego, não nos seria possível a comunicação de uns com os outros.  Não é que o ego seja mau, em si mesmo.  Na natureza humana não existe nada que seja mau de per si.  Assim, Jesus, que era completamente humano, deve ter tido um ego.  Não obstante, Jesus não pecou: um homem como nós, em todas as coisas, exceto no pecado. 

 

Como compreendemos os problemas do egoísmo?  Todos esses obstáculos, todas essas falhas que podem até mesmo interferir em nossa vida espiritual.  Porém, se olhamos para Jesus, o que vemos, penso Eu, é um homem que certamente tinha um ego, que podia dizer “Eu” e, que tinha uma vontade, que pôde renunciar ao seu ego e à sua vontade, ao final de sua vida, não pela sua vontade, mas, pela vontade Dele.  Assim, vemos um homem que tinha um ego e, claramente, um forte ego, mas, um homem que não pecou, porque ele nunca se identificou com seu ego.  Ele nunca disse “Eu sou meu ego”.  Essa foi a grande tentação, pela qual ele teve que passar no deserto, a de se identificar com as tendências do egoísmo.  Ele foi tentado.   O ego nele manifestou claramente suas tendências, porém, ele nunca identificou seu verdadeiro ser, com o ego.  Nós, que pecamos, temos o trabalho de nos desapegar dessa identificação, quebrar essa identificação, em outras palavras, simplesmente acordarmos para o fato de que temos um ego e, que ele é algo útil como tal, mas, que ele não é quem Eu sou.  O ego não é minha mais profunda e verdadeira identidade.

 

Penso que isto se constitua num grande desafio para a cultura moderna, nossa sociedade contemporânea, pois o ego se encontra tão hiper-ativado em nossa sociedade.  O ego é a grande força de uma sociedade de consumo, tecnológica, uma sociedade tecnológica que quer controlar tudo e, uma sociedade de consumo dominada pelo desejo.

 

Nessa cultura, precisamos ter especial cuidado com a criação de uma espiritualidade de consumo, ou de uma espiritualidade tecnológica, uma espiritualidade que, por exemplo, se identifique com técnicas psicológicas.  Ou mesmo, uma espiritualidade que se identifique apenas com as festanças espirituais, os prazeres espirituais.  Esse é o papel do ascetismo em uma sociedade como a nossa.  Trata-se da compreensão de que o ascetismo e, a ascese essencial da vida cristã, é a prece.  O ascetismo é o caminho, dentro do qual, recobramos a vontade primordial na pessoa humana.  A vontade primordial é mais profunda do que os desejos de nosso ego.  A vontade primordial é a nossa inclinação, tendência, natural na direção de Deus, aquilo que os primeiros padres cisterciences denominavam o pondus, a gravidade natural na alma, que nos leva em direção a Deus.  O objetivo do ascetismo, não é o de esmagar a vontade, ou de punir, mas, de superar as dificuldades, de tirar as pedras do caminho, de desenvolver a mente e, de revelar essa bondade essencial do núcleo da pessoa humana, de modo que o que façamos seja certo e, o que desejemos fazer seja certo.  E, nesta via da prece, na simples ascese da palavra única, nós atingimos a raíz de nosso ego.