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Nosso Verdadeiro Eu – Uma Criança de Deus

Jesus nos diz que o verdadeiro Eu é o mais elevado valor na vida: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se se perder ou arruinar a si mesmo?” (Lc 9:25).

O verdadeiro eu de que temos falado, aquele que realizamos quando nos desapegamos da identificação com nosso ego, o verdadeiro eu que Jesus diz ser o mais elevado valor na vida, aquele verdadeiro eu, é uma criança, um filho de Deus.  Neste verdadeiro eu que somos, somos ainda mais verdadeiramente, filhos de Deus, do que até mesmo somos filhos de nossos pais.  Temos uma realidade mais elevada ou, uma realidade mais essencial, na condição de filhos de Deus, sendo esse o nosso relacionamento fundamental, no qual estão arraigados todos os nossos outros relacionamentos.  Na condição de filhos de nossos pais, temos uma identidade física e psicológica e, claramente, isso tem uma certa realidade.  Porém, a realidade mais básica é aquela realidade que temos como filhos de Deus.  Compreender isso, encontrar aquele verdadeiro eu, é a obra da contemplação.  A experiência contemplativa não se fundamenta em algo abstrato, mas, é algo prático e real e, comum, no melhor sentido desse termo ‘comum’, algo normal.

No Novo Testamento, particularmente nos ensinamentos de Jesus, a experiência do Reino parece ser aquilo que procuramos expressar por ‘experiência contemplativa’.  Quando Jesus fala acerca do Reino, ele fala acerca da puerilidade: “...se não vos converterdes e não vos tornardes como as crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus.”  É essa qualidade infantil que nos torna possível adentrarmos e, vivermos, continuadamente, a dimensão contemplativa de nossa fé.

A realidade mais básica é aquela realidade que temos como uma criança de Deus.  Compreender isso, encontrar aquele verdadeiro eu, é a obra da contemplação.  Essa criança de Deus, que somos, é chamada a se tornar uma criança completamente madura.  É de Karl Rahner um ensaio maravilhoso sobre essa qualidade da puerilidade.  Ele diz que a qualidade de uma criança, a “criancice”, é a franqueza.  A qualidade de uma criança adulta, uma criança completamente madura, é a franqueza irrestrita.  É uma muito bonita descrição da santidade: a franqueza irrestrita.  Essa é uma definição ou, um entendimento, do sagrado, da integralidade, que possibilita muitos diferentes tipos do sagrado, muitos caminhos diferentes para adentrar a experiência contemplativa.  Não poderemos ser íntegros, a menos que sejamos a pessoa única que somos.  Aderir a uma disciplina, não significa esmagar nossa individualidade ou, nos tornarmos algo que não somos.  Porém, ser uma criança adulta, ser nosso verdadeiro eu, é ser irrestritamente aberto à pessoa única que Deus nos criou para ser e, que as condições nos moldaram para ser, com nossas feridas e desvantagens.

Assim, Rahner nos diz que Deus será encontrado por quem quer que tenha a coragem de conservar sua infância, a coragem de permanecer aberto a essa identidade essencial que somos.  Ele diz assim: “Uma pessoa humana é uma criança que embarca na extraordinária aventura de permanecer criança para sempre, ou melhor, de se tornar cada vez mais completamente uma criança.  Sua maturidade e, sua divinização, são apenas atuações cada vez mais completas de sua criancice.”  Assim, até mesmo nossa divinização é, simplesmente, o desenvolvimento completo de nossa identidade essencial como uma criança de Deus.  

Em uma criança, podemos vislumbrar a relação existente entre a experiência contemplativa e o ser contemplativo e, a puerilidade.  De certo modo, as crianças são contemplativas por natureza; não completamente conscientes, mas, em razão de sua relativa falta de auto-consciência, elas são capazes de adentrar completamente, essa que chamamos de dimensão contemplativa.  Quanto menos auto-conscientes estivermos, mais contemplativos estaremos e, também, mais abertos e normais.  Rezar com as crianças é uma coisa muito maravilhosa.  Temos muitos pequenos grupos de crianças, grupos de meditação, via de regra iniciados por pais que meditam há já algum tempo e, que sentem uma necessidade natural de apresentar a seus filhos esta dimensão da prece, o mais cedo possível.  Presenciar isso é uma coisa maravilhosa e, ver com que naturalidade, com que normalidade, uma criança pode se sentar em silêncio e realizar essa obra interiordescrita por Cassiano, esse trabalho de repetir o mantra.  A criança não necessariamente acha isso fácil, mas, elas o acham natural.  A qualidade maravilhosa da criança, é claro, é a de não fazer muitas perguntas, como por exemplo, se é infuso, uma lembrança, a graça, a prece da simplicidade.  Elas não fazem todas essas perguntas teológicas e psicológicas.  Elas executam a obra.  Elas são simples.  Acredito, que isso tenha um muito maravilhoso efeito formador de sua fé.  Elas possuem essa capacidade natural para a prece pura, a experiência de Deus, do Reino.  À medida que elas crescem, essa capacidade tende a se perder ou, se tornar encoberta.  Parece que parte de sua formação religiosa deveria ser a exposição a isso.

À medida que realizamos o trabalho (A Nuvem do Não Saber chama essa prece pura de trabalho) e, à medida que realizamos mais claramente nosso verdadeiro eu, começam a aparecer em nosso interior, certas mudanças próprias de uma criança, uma criança adulta.

Seguem-se algumas das qualidades de uma criança.  A inocência, por exemplo.  Associamos inocência à puerilidade.  Para um adulto, esta inocência da criança seria, por exemplo, pureza de motivos.  Fazermos coisas por razões cada vez mais simples.  Alcançarmos um unidirecionamento mental acerca do que fazemos e, o fazermos com atenção, sem duplicidade, sem ulteriores motivações, com simplicidade.  

A generosidade é característica de uma criança, às vezes, pelo menos.  Como uma criança de Deus, como uma criança adulta, esta generosidade se expressa na maneira como nos doamos, na maneira como nos entregamos, na maneira como nos abandonamos, se preferirem, na maneira como nos comprometemos.  Todas essas são expressões dessa generosidade de uma criança.  A capacidade de respondermos ao chamado do evangelho, de nos desapegarmos de tudo, a pobreza de espírito na vida interior, depende desta qualidade de generosidade.  Nós acreditamos que se doarmos tudo, se deixarmos tudo para trás, receberemos cem vezes mais de volta.  Porém, o problema é que, acreditando nisso, freqüentemente, nos preparamos para desistir de tudo, desde que recebamos cem vezes de volta.  Impomos uma condição.  Dizemos: “desistirei de tudo isso, desde receba isto de volta.  Isso é uma ausência de generosidade e, alcançar aquela generosidade é obra da graça.

É obra da simplificação.

Uma criança também se caracteriza pela coragem, uma ausência de medo, pelo menos na criança saudável.  Normalmente, a coragem de uma criança é tanta, que seus pais precisam se preocupar com ela, protegê-la.  Porém, é também coragem, isso que sentimos como crianças de Deus, à medida que realizamos nosso verdadeiro eu, a coragem de arriscar nossa vida, de entregar nossa vida, de abandonar a identidade que nos é familiar.  Há uma maravilhosa frase de Heráclito, o antigo filósofo grego: “Se pudermos parar de pensar acerca de nossos problemas, isso irá gerar coragem.”  Retirarmos a atenção de nosso problema, dificuldades e preocupações, seguindo para além do estado egocêntrico, gera coragem.  Acredito que nisso esteja o ensinamento de Jesus, quando tão freqüentemente repete nos evangelhos, particularmente nas aparições da Ressurreição, para que não tenhamos medo; no sermão da montanha, para não nos preocuparmos, não nos preocuparmos, nem temermos.  Essas não são meras afirmações de consolação.  Elas são ordens para que não nos preocupemos, para que sigamos para além do medo e da preocupação, que é o que fazemos em nossa prece.

Finalmente, a qualidade da verdade, a veracidade.  Uma criança naturalmente diz a verdade; uma criança perde sua inocência, ou sua inocência fica comprometida, quando ela encontra pela primeira vez, a desonestidade dos adultos e, recuperamos essa veracidade, por meio de nossa prece, no seio da vida contemplativa, porque perdemos nosso medo.  Nosso medo diminui gradualmente: o medo de nos darmos a conhecer, o medo de estarmos vulneráveis.  Ocultamos a verdade, porque estamos amedrontados.  Tememos revelar nossa falsa identidade.  Porém, se soubéssemos que nossa falsa identidade é falsa, se sabemos que nosso ego não é nosso verdadeiro eu, então, não nos importamos que nosso ego esteja um pouco visível.  Não sentimos a necessidade de acobertar, de parecer melhores do que somos e, isso é humildade.  Veracidade é, simplesmente, humildade ou, auto-conhecimento, que permite que estejamos visíveis, conhecermo-nos como realmente somos. 

Essas são algumas das alterações de caráter prático que seriam passíveis de observação, em nível psicológico e social, como resultado dessa obra da prece pura.