Leitura da Semana

Acesse mais leituras e mensagens de D. John Main e D. Laurence Freeman:

Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
Quaresma 2017 >
Quaresma 2016 >
Quaresma 2015 >
Quaresma 2014 >
Quaresma 2013 >

Séries de Palestras

Encontre um Grupo de Meditacao Crista

Calendário de Eventos

Seg Ter Qua Qui Sex Sab Dom
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

Cristo na Experiência Contemplativa

Ainda, do Evangelho de João: 

Ele estava no mundo e o mundo foi feito por meio dele, mas o mundo não o reconheceu. Veio para o que era seu e os seus não o receberam.  Mas, a todos que o receberam deu o poder de se tornarem filhos de Deus: aos que crêem em seu nome, eles, que não foram gerados nem do sangue, nem de uma vontade da carne, nem de uma vontade do homem, mas, de Deus.  E, o Verbo se fez carne, e habitou entre nós; e nós vimos a sua glória, glória que Ele tem junto ao Pai como filho único, cheio de graça e de verdade.  (Jo 1:10-14).

Falamos acerca do caminho da prece pura, de transcender nosso ego e, da experiência contemplativa.  Qual o significado do Cristo ao transcendermos nosso ego e, na experiência contemplativa?  É claro que a experiência ontemplativa não se restringe àqueles que acreditam em Cristo.  Pessoas modernas que somos, devemos abordar esse ponto muito importante.  Esta era que se inicia, é a era na qual o cristianismo se encontrará com as outras grandes religiões do mundo e, será um encontro que marcará época, tanto quanto ficaram marcados os dias em que os antigos judeus-cristãos encontraram os gregos.  Será um outro grande estágio na universalização do evangelho, quando poderemos expressar o significado e a experiência cristã, através de termos e símbolos diversos daqueles com que estivemos acostumados: um encontro contemporâneo com outras religiões, no qual freqüentemente estabelecemos contato com pessoas que transcenderam seu próprio ego, exemplos de grande santidade, pessoas que vivem e seguem uma vida contemplativa.  Isso suscita a pergunta: Onde é que, para nós, Cristo confere significado, um significado definitivo, à nossa experiência.

Na prece pura, para o cristão, Cristo é o centro de toda a experiência.  

Temos conversado acerca da teologia fundamental da prece cristã, de que estamos deixando para trás a nossa própria prece.  À medida que deixamos nosso ego para trás, deixamos para trás aquilo que pode dizer ‘eu’ ou ‘meu’.  Assim, caso estejamos realmente praticando uma prece que nos leva para além de nosso ego, não fará mais sentido dizermos que ‘esta é minha prece’.  Os Padres do deserto reconheceram essa intuição, quando disseram que o monge que sabe que está orando, que está consciente acerca da ‘minha própria prece’, na verdade, ainda não começou a orar, não alcançou a completa pureza da prece.

No entanto, ainda que Cristo seja o centro na prece pura, Cristo não é um objeto do pensamento, pois não há pensamento.  A mente se torna imóvel.  Cristo não é um objeto de nossa imaginação.  Estamos nos movimentando para além do reino da imaginação, além dos pensamentos e das imagens.  Não estamos nos comunicando com Cristo em palavras.  Estamos nos tornando silentes, deixando para trás todas as palavras.  Ainda assim, a experiência nos mostra que nossa meditação, nossa prece pura, aprofunda nosso relacionamento pessoal com Cristo, continuamente.  Aprofunda nosso entendimento e nossa experiência de nosso relacionamento, nossa união na verdade, com Cristo, a união com Cristo que experimentamos e descobrimos no nível de nosso verdadeiro Eu, em outras palavras, além do ego.  Essa experiência do relacionamento no nível de nosso verdadeiro Eu, envolve a movimentação para além do senso de dualidade ou de separação.  Caso eu encontrasse voces nesse nível de nosso verdadeiro Eu, então, não estaríamos conscientes da separação; estaríamos conscientes de uma união, amor.  Este é o fruto da meditação praticada na fé cristã.  A prece pura aprofunda nosso conhecimento e amor de Cristo.

Na verdade, essa prece pura, praticada com fé cristã e, em um contexto cristão, esclarece, torna mais claro, quem é Cristo.  Começamos a enxergar Cristo em um sentido cada vez mais universal.  Certamente, encontramos Cristo dentro dos termos de nossa própria cultura, nossa própria vocação.  Porém, o Cristo que encontramos dentro de nossa própria cultura, dentro de nossa própria tradição, é o Cristo universal, cósmico, que preenche todas as culturas e, pode se manifestar e se transmitir através de qualquer tradição.

Devemos encontrar Cristo como presença pessoal em nós mesmos.  Esse é o mais autêntico.  Não nos sentiremos realizados, não estaremos satisfeitos, não teremos alcançado nossa meta, até que tenhamos encontrado essa presença, que nos habita.  Não nos será suficiente encontrar Cristo de maneira indireta, por assim dizer, através dos sinais exteriores de nossa religião, de nossa prática ou, de nossa cultura.  Todos eles são sinais que nos apontam para este encontro mais profundo, mais pessoal, com Cristo em nosso interior.

Encontramos Cristo de maneira mais pura e autêntica, no nível pessoal, dentro do relacionamento que temos com nós mesmos, o porquê de realizarmos o trabalho de auto-conhecimento e de purificação, a ascese, alcançarmos um bom relacionamento com nós mesmos.  E, também, encontramos Cristo dentro do relacionamento com outras pessoas.

O Cristo que encontramos é o Cristo ressucitado, o Cristo presente.  A figura de Jesus que encontramos no Novo Testamento, nas escrituras ou na teologia e nos pensamentos, seria a de um encontro mais indireto.  É de grande valor e importância, mas, não tão puramente pessoal, ou tão puramente real, como o Cristo que encontramos nesse nível pessoal de relacionamento.

Porém, acredito que, como resultado de nossa meditação, de nossa prece pura, passamos a valorizar mais o Jesus histórico expressado nas palavras das escrituras.

A meditação conduz a uma leitura mais aprofundada das escrituras, a um entendimento intuitivo mais aprofundado do significado das palavras, daquilo que aquelas palavras inspiradas nos transmitem.  Cassiano diz isso claramente, que um dos frutos dessa prece pura é o de que passamos a ler a escritura como se fossemos seu autor; em outras palavras, cada vez mais no nível da experiência.  A experiência na escritura entra em ressonância com nossa própria experiência.  Ao deixarmos para trás as imagens e os pensamentos, na hora da meditação, voltamos a essas imagens e pensamentos na hora da lectio, com significativo ganho.  Na verdade, o Verbo está encarnado nas escrituras, tal como nos disseram os primeiros padres.  Porém, nossa aptidão para reconhecer e, nos conectar ao Verbo encarnado nas escrituras, depende da profundidade de nosso encontro pessoal com o Verbo, em nossos corações.  A escritura é uma espécie de espelho do que existe pessoalmente no interior de nossos corações.  O Jesus histórico da escritura espelha ou reflete o Jesus ressucitado do interior de nossos corações.

A prece em si não é um exercício teológico.  Causamos significativo dano à fé cristã, sempre que limitamos a prece ao nível da prece mental, à meditação discursiva, a pensamentos e imagens e imaginação.  Essas são as ferramentas da exploração e do pensamento teológico, valiosas, mas, insuficientes.  A prece não é um exercício teológico, ainda que, de acordo com Evágrio, ela nos torna verdadeiros teólogos.  “Aquele que ora verdadeiramente, é um teólogo e, um teólogo, é aquele que ora verdadeiramente,” diz ele.

Todavia, a prece em si é um encontro, um encontro pessoal.  A redenção é o resultado de um contato, um encontro pessoal, mais do que uma troca de idéias ou opiniões, ou pontos de vista.  E, nesse tipo de encontro, em um encontro redentor desse tipo, envolve-se a pessoa toda.  Nossa jornada para a integralidade e santidade é inseparável do nosso relacionamento com Cristo.  Na verdade, Cristo nos cura psicologicamente, espiritualmente, talvez até mesmo fisicamente, para que possamos chegar a uma integralidade na qual possamos conhecê-lo completamente e, ser redimidos por esse conhecimento.