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Quarta-feira da Semana Santa

D. Laurence Freeman

O ato de conversar nos tranquiliza quanto ao fato de que não estamos sozinhos. A grande solidão do coração humano não é somente psicológica. É cósmica.

Ainda que tenhamos sete bilhões de pessoas com quem conversar, a consideração de que talvez sejamos a única “vida inteligente” no universo nos perturba profundamente. Buscamos por ondas de rádio pelas galáxias mais longínquas na esperança de “fazer contato”. Provavelmente se isso acontecesse, acabaríamos tentando explorá-los ou destruí-los.

A conversa espiritual desta semana – com a Escritura e uns com os outros – nos mostra um pouco mais sobre essa compulsão e medo que deu forma à história humana, tanto quanto pode dar forma e distorcer nossa própria vida. Quando nos voltamos para um ponto comum de atenção, vivendo juntos nesta direção, o que esperamos encontrar? Uma resposta às nossas curiosas questões? Sabedoria que poderá ajudar a administrar situações? Poder que nos tornará bem sucedidos?

O que encontramos numa conversa que se tornou verdadeiramente silenciosa – uma conversa com a experiência do silêncio – é que seja qual for a direção que tenhamos tomado, já se encontra voltada em nossa direção. Além disso, está firme, ainda que falhamos pelo nosso déficit de atenção a qualquer coisa além de nós mesmos. Nesta conversa fazemos contato com vida inteligente que emite ondas de amor em nossa direção, ao nosso redor, através de nós. Trata-se de presença real.

Para que a presença seja real (não de grupo de pessoas sentados numa sala enviando mensagens de texto uns para os outros), deve haver presença mútua. Jesus realmente está presente nele mesmo ainda que estejamos distraídos. Ele está presente – como ele mesmo diz muitas vezes no Evangelho desta semana – diante do Pai. A Sua presença para nós é um convite a nos tornarmos presentes diante dEle, bem como diante do Seu Pai e nosso Pai. Só isso alivia o medo do coração humano de que estamos sozinhos sempre e em todo lugar.

 


 

Texto original em inglês

Wednesday of Holy Week

Conversation reassures us that we are not alone. The great loneliness of the human heart is not only psychological. It is cosmic. Even though we have seven billion people to converse with, it disturbs us deeply to consider that we may be the only ‘intelligent life’ in the universe. We scan the radio waves from the furthest galaxies in the hope of ‘making contact’. Probably if we did we would soon be either trying to exploit them or destroy them.

The spiritual conversation of this week – with the scriptures and with each other – reveals something more about this compulsion and fear that has shaped human history as it can so easily shape and distort our own lives. When we turn towards a common point of attention and live together in that orientation what do we hope to find? An answer to our curious questions? Wisdom that will help us cope? Power that will make us succeed?

What we find in a conversation that has become truly silent – a conversation with the experience of silence – is that what we turn towards is already turned towards us. Furthermore it is holding steady, as we fail to do with our short attention span to anything other than ourselves. In this conversation we make contact with intelligent life that beams waves of love towards us, around us, through us. It is a real presence.

For presence to be real (not a group of people sitting in a room texting other people), there must be mutual presence. Jesus has real presence in himself even if we are distracted. He is present – as he says often in the gospels of this week – to the Father. His presence to us is an invitation to become present to him and so also to his Father and our Father. This alone allays the fear of the human heart that we are forever and everywhere alone.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.