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Quinta-feira da Semana Santa

D. Laurence Freeman

Eu consigo me lembrar claramente do momento em que me tornei consciente da comida. Um amigo estava falando sobre uma boa refeição que estávamos fazendo ou talvez estava relembrando uma boa refeição no passado e eu observei que nunca realmente tinha me importado com o que eu comia. (Isso faz muito tempo).

Ele olhou para mim espantado, talvez porque, sendo Judeu, refeições comunais e o que era preparado para alimentar e satisfazer as pessoas à mesa, eram sacramentais para ele. Para mim foi um daqueles momentos em que você enxerga algo que não enxergava antes. Uma descoberta.

Até aquele momento eu era um pouco como o filósofo Schopenhauer que disse à proprietária da sua casa que ele não se importava com o que comia desde que fosse a mesma coisa todo dia. Ele não queria ser distraído de seus pensamentos por qualquer coisa tão banal como comida.

Algo similar aconteceu comigo com relação à Eucaristia cuja fundação baseada na refeição da Páscoa Judaica nós lembramos hoje. Vendo como John Main celebrava este acontecimento com tamanha reverência e profundidade de significado e depois descobrindo a luz direcionada em nosso mundo interior através da meditação, me fez perceber, com uma sensação de descoberta, o que eu há muito era familiar mas nunca havia entendido, que isso realmente era comida a ser apreciada e levada à sério. 

Depois eu vi através da leitura a grande reverência e a enorme satisfação que os Cristãos primitivos sentiam em relação à Eucaristia. Aos poucos me ocorreu que a meditação e a Eucaristia são ambas sobre a mesma presença real se manifestando de diferentes maneiras. O que a torna real é certamente a reciprocidade. Não há nada mais destrutivo para a presença do que a distração. Sentar em uma refeição com outros que estão constantemente espiando os seus telefones e enviando mensagens de texto, por exemplo. Isso era provavelmente o que Judas estava fazendo na Última Ceia. 

Para se assegurar deste ponto, Jesus chocou e despertou os discípulos ao lavar os seus pés. A Eucaristia nos alimenta na fonte com este espírito de humildade. Jesus se doa nesta substância sem reservas. Ele não é auto-importante. Nada é mais importante do que não ser auto-importante. Então, ao escancarar as portas interiores do amor, nós somos inundados com um sentimento de descoberta. Nós vemos o que sempre esteve lá mas que falhamos de compreender. 

Comunhão significa ser re-lembrado e re-membrado*. 

(*Nota: no original, Fr Laurence faz um trocadilho com "re-membered", ser lembrado e ao mesmo tempo se tornar membro novamente.)

 


 

Texto original em inglês

Thursday of Holy Week

I can remember quite vividly the moment I became aware of food. A friend was saying what a good meal we were having or perhaps was recalling a good meal in the past and I remarked that I never really bothered about what I ate. (This was a long time ago). He looked at me with astonishment, maybe because, being Jewish communal meals and what was prepared to nourish and please the people at table, were sacramental to him. For me it was one of those moments when you see something you did not see before. A discovery.

Until that moment I was a bit like the philosopher Schopenhauer who told his landlady that he didn’t mind what he ate as long as it was the same thing every day. He didn’t want to be distracted from thinking by anything as banal as food.

Something similar happened to me with regard to the Eucharist whose foundation from the Jewish Passover meal we remember today. Seeing how John Main celebrated it with such reverence and depth of meaning and then discovering the light shed upon inner world through meditation, made me realize, with a sense of discovering what I had long been familiar with but never understood, that this really was food to be enjoyed and taken seriously.

Then I saw through reading the great reverence and grateful delight that the early Christians felt towards the Eucharist. Slowly it dawned on me that both meditation and the Eucharist are about the same real presence manifesting in different ways. What makes it real is of course reciprocity. There is nothing more destructive of presence than distraction. Sitting at a meal with others who are constantly sneaking a look at their phone and texting, for example. This is probably what Judas was doing at the Last Supper.

To make this point Jesus shocked and woke them up by washing their feet. The Eucharist feeds us at source with this spirit of humility. Jesus gives himself in this medium without reserve. He is not self-important. Nothing is more important than not being self-important. Then, by throwing open the interior doors of love, we are flooded with a sense of discovery. We see what has always been there but what we failed to understand.

Communion is about being re-membered.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.