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Sábado Santo

D. Laurence Freeman

Santo Antão, do deserto, certa vez convocou todos os monges. Ao se reunirem ele disse “Apenas respirem Cristo”, e mandou-os embora.

De um modo pouco usual para a maioria das filosofias religiosas, o Budismo tibetano oferece um relato muito confiante acerca do que ocorre após a morte. Ainda que sejamos naturalmente curiosos, também ficamos, em grande maioria, felizes por permanecer ignorantes acerca da jornada que seguiremos nesse reino sombrio. Nos é mais fácil acreditar que nada acontece; que esta vida é o que há, e que depois que a luz da consciência se apaga há uma infinita escuridão.

Os tibetanos acreditam que, para a maioria de nós, ao passar pela morte há um estado inicial de inconsciência. A este, no entanto, seguem-se seis reinos do bardo, estados de transição, com percepções e visões muito vívidas. Passamos por isso até que aconteça o renascimento. Por uma perspectiva, todas as coisas são transitórias, até a própria vida. Por outra, todo estado, até mesmo aquele que se interpõe entre duas respirações, é um mundo por si só, que tem significado e propósito específico. Hoje é um reino do bardo, mas certamente há algo acontecendo.

O entendimento cristão do significado do Sábado Santo, a transição entre a morte e a ressurreição de Jesus, é o de que Ele estava intensamente ativo. Ele arou o inferno. Ele desceu às mais profundas e escuras camadas do humano, lá de onde o humano inicialmente emergiu, lá onde se inicia a consciência. Ele mergulhou mais e mais fundo. Ao contrário da maioria de nós Ele não se distraiu com os conteúdos vívidos dos diferentes reinos. Ele os viu como projeções da consciência, e não como a própria consciência.

A verdade e o amor que Ele havia descoberto em toda Sua vida, e que ansiou por compartilhar, impulsionaram-no agora como um míssil da redenção. Sua missão de irresistível compaixão harmoniza todas as camadas da consciência com a própria realidade.

Agora não há nenhum lugar a que possamos ir em que Ele já não tenha estado, e o tenha feito consciente de ali estar. Até mesmo a inconsciência foi impregnada com a semente da consciência amorosa. À medida que fazemos nosso próprio progresso através dos reinos do bardo e encontramos a Sua presença, o medo se dissolve tão logo se forma.

Em vez do renascimento, somos conduzidos para além do ciclo das repetições, para o estado da Ressurreição, onde não mais inspiramos e expiramos. Nós simplesmente respiramos Cristo.

 


 

Texto original em inglês

Holy Saturday

St Anthony of the Desert once called all the monks to him. When they gathered he said ‘ Only breathe Christ’ and sent them home.

In a way unusual for most religious philosophies Tibetan Buddhism offers quite a confident account of what happens after death. Although we are naturally curious we are also, most of us, happy to remain ignorant about the journey we continue in this shadowy realm. Easiest of all is to believe that nothing happens. That this life is it, and after the light of consciousness goes out there is infinite darkness.

Tibetans believe that, for most of us, in entering death there is an initial state of unconsciousness. This is followed however by six bardo realms, transitional states, with very vivid visions and perceptions. We pass through these until rebirth happens. From one perspective, everything is transitional, even life itself. From another, every state, even that between two breaths or two thoughts is a world of its own with a particular meaning and purpose. Today is a bardo realm but something is definitely happening.

Christian understanding of the meaning of Holy Saturday, the transition between the death and resurrection of Jesus, is that he was intensely active. He harrowed hell. He penetrated into the deepest and darkest layers of the human to where the human first emerged, to where consciousness begins. He dived deeper and deeper. Unlike most of us he was not diverted by the vivid content of the different realms. He saw them as projections of consciousness not consciousness itself. 

The truth and the love that he had discovered in his lifetime and longed to share propelled him now like a missile of redemption. His mission of irresistible compassion harmonises all layers of consciousness with reality itself. 

There is now nowhere we can go where he has not been and been conscious of being there. Even unconsciousness has been impregnated with the seed of loving consciousness. As we make our own progress through the bardo realms and meet his presence, fear dissolves as soon as it forms. 

Instead of rebirth, we are led beyond the cycle of repetition into the state of Resurrection where we no longer breathe in and out. We simply breathe Christ.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.