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Quarta-feira da Terceira Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Na jornada espiritual o perigo é o da preocupação exclusiva consigo mesmo, pensar demais e com demasiada frequência acerca de nosso progresso, sucesso ou fracasso. Esse é o formato padrão da atenção de nossa consciência. Nós mal conseguimos deixar de ver o mundo como um sistema solar que gira a meu redor, o sol. Nos casos em que somos redimidos disso e nos tornamos centrados no outro, frequentemente, nem sabemos o que aconteceu. Mais tarde, olhando para trás para a felicidade e paz que aquilo nos acarretou, nem lembramos que isso se deveu ao fato de, por um breve tempo, termos deixado de ser um tão maldito egoísta.

É fácil tentarmos repetir as condições que nos levaram a tal felicidade: uma pessoa, um local, um deleite, alienados daquela condição básica de altruísmo que foi sua causa. De fato, sempre que nos lembramos dela como um evento do passado, a felicidade está sempre presente e é a causa dos resultados. A Quaresma nos permite ver que o segredo da felicidade e a dinâmica da jornada espiritual são uma coisa só. Trata-se de um segredo tão óbvio que melhor seria chamá-lo de mistério. Enquanto pensarmos nele como sendo um segredo continuaremos procurando o código, a senha, a chave, a mágica esotérica com a qual o conquistaremos. Ao vê-lo como um mistério nos damos conta de que precisamos apenas caminhar em sua direção sem olhar para trás. A Quaresma pode ser esse passo determinado através desse portal do mistério.

Diádoco, a quem já nos referimos nesta Quaresma, entendia isso em termos de amor ao próximo. E porque o amor tem para nós tão diferentes significados em diferentes oitavas, vamos simplesmente chamar isso de prestar genuína (isto é, altruísta) atenção aos outros. Diádoco diz que sempre que experienciamos o amor de Deus em sua riqueza começamos a amar os outros com a atenção de uma consciência que surge diretamente de nossa dimensão espiritual. Por vezes, quando pessoas meditam pela primeira vez, de uma maneira confiante e pueril, sem exigir ou esperar nada, um alçapão nelas se abre fazendo-as cair em uma experiência nunca antes conhecida sem que possam descrevê-la. Raramente lhe dão o nome de amor, por ser diferente daquilo que imaginamos seja o amor. Todavia, é de fato o rico e enriquecedor amor de Deus que se encontra no centro e na fonte de nosso ser.

Tocar, ou ser tocado, por isso, nem que seja por um instante apenas, dispara a operação de uma conversão. Um efeito principal disso sentimos em meio a todos nossos relacionamentos. Diádoco diz que a nova qualidade da atenção que levamos a nossos relacionamentos é o amor de que falam as escrituras. Na maneira em que normalmente a experienciamos, a amizade é muito frágil. Traição, desapontamento, desconfiança ou ciúme podem abalar ou destruir mesmo as melhores delas. Porém, caso esse rico amor tenha sido despertado em nós, estaremos melhor preparados para enfrentar a tempestade e o relacionamento poderá sobreviver. Se a pessoa está espiritualmente desperta, mesmo que algo a irrite, não se dissolverá o laço de amor; reavivando-se com o calor do amor de Deus, a pessoa se recupera rapidamente, buscando com grande alegria o amor de seu próximo, mesmo que tenha sido gravemente enganada ou insultada.

Vimos ontem que a arte espiritual do viver não se refere ao poder da vontade. O perdão, a cura e a renovação de relacionamentos também não se refere a sermos sobrehumanamente desapegados e santos. Trata-se da reação natural para qualquer um que tenha bebido da mais profunda fonte de amor interior. Podemos descrever isso como sendo uma exacerbada capacidade de prestar atenção. De fato, é mais do que isso: é uma maior capacidade de amar. Ou, como diz Diádoco: a doçura de Deus consome completamente o amargor da disputa.

 


 

Texto original em inglês

Wednesday Lent Week Three

The danger of the spiritual journey is self-absorption, thinking too much and too often about our progress, success or failure. This is our default form of awareness. We can hardly help seeing the world as a solar system revolving around me as the sun. On the occasions where we are redeemed from this and become other-centred, we often don’t know what happened. Later looking back to the happiness and peace it brought us, we  don’t remember it was due to the fact that for a while we had involuntarily stopped being so damned self-centred. 

It is easy to try to repeat the conditions that led us to such happiness – a person, a place, a delight – oblivious to the basic condition of selflessness that caused it. Happiness, when we remember it as a past event, is seen as a result of a cause. In fact, happiness is always present and it is the cause of the results.  Lent allows us to see that the secret of happiness and the dynamic of the spiritual journey are one. This is such an obvious secret we should call it ‘mystery’ instead. As long as we think it is a ‘secret’ we will search for the code, the password, the key, the esoteric trick that will get it for us. When we see it as mystery we realise we have only to walk into it and not look back. Lent can be just this determined step through this portal of mystery.

Diadochus, who we consulted earlier in Lent, understood this in terms of loving others. Because ‘loving’ has so many meanings and overtones for us, let’s simply call it paying genuine (that is, selfless) attention to others. Diadochus says that when we experience the love of God in its richness we begin to love others with an awareness that arises directly from our spiritual dimension. Sometimes when people meditate for the first time, in a trusting and childlike way, with no demands or expectations, a trapdoor opens in them and they fall into an experience they have never known before and have no way to describe. They rarely call it love, because it is different from what we imagine love to be. But it is in fact the rich and enriching love of God at the centre and source of our being.

Touching – or being touched – by this, even for an instant, triggers an ongoing conversion. A major effect of this is felt throughout all our relationships. Diadochus says the new quality of attention we bring to our relationships is the love the scriptures speak of. Friendship, as we normally experience it, is quite fragile. Betrayals, disappointments, distrust or jealousy can shake or break the best of them. But, if this rich love has been awakened in us, we are better able to weather the storm and the relationship may survive. ‘When a person is spiritually awakened, even if something irritates him, the bond of love is not dissolved; rekindling himself with the warmth of the love of God, he quickly recovers himself and with great joy seeks his neighbour’s love, even though he has been gravely wronged or insulted.’

We saw yesterday that the spiritual art of living is not about will-power. Forgiving, healing and renewing relationships is also not about being superhumanly detached and saintly. It is the natural response for anyone who has drunk from the deeper spring of love within. We may describe this as an enhanced capacity to pay attention. It is in fact more: a greater capacity to love. Or, as  Diadochus, says ‘the sweetness of God completely consumes the bitterness of the quarrel.’

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.