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Reflexões da Quaresma

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Encontre um Grupo de Meditacao Crista

Quinta-feira da Quarta Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Aqui, assim espero, está a conexão da reflexão de ontem com a Quaresma.

Recentemente, eu estava  meditando com um grupo de médicos e enfermeiros que trabalham em um ramo muito estressante da medicina pública. Eles são um grupo de indivíduos extraordinariamente generosos e compassivos, que formam uma equipe com um companheirismo  profissional fortemente solidário. Eles também verdadeiramente querem meditar. Eles expressam sua motivação de maneira diferente, mas isso, não é de surpreender, pois está relacionado com os perigos inerentes ao seu trabalho. Perigos como o burnout (colapso interno, mantendo as aparências na superfície), ou mesmo várias formas de auto-mutilação, ou perder o equilíbrio dos aspectos pessoais e profissionais de suas vidas, ou as consequências físicas e psicológicas de um estresse não controlado.

A maioria também luta para encontrar tempo para meditar.  Esta luta mostra-lhes como a meditação leva ao autoconhecimento, até mesmo no próprio processo de aprendizagem. Compreendemo-nos e vemo-nos melhor quando não conseguimos fazer o que queremos fazer. Claro, isso pode nos levar a desistir. Mas, de forma mais positiva, pode nos ajudar a rever nossos objetivos, superar nossa resistência, ou apenas gerir o tempo de forma mais sensata. A maioria das pessoas admite que poderia encontrar tempo para meditar caso configurasse a mente para tal.

Da mesma forma, nossa observância quaresmal encoraja o autoconhecimento, quer estejamos ou não satisfeitos com nosso grau de observância. Esse autoconhecimento leva ao que os mestres do deserto chamavam de ‘discernimento’. Nada é mais importante do que o discernimento, no caminho espiritual a que nos referimos como ‘vida’. Ele obedece às leis eternas das coisas, sem cair na armadilha de ser legalista. É por isso que os mestres do deserto disseram que adquirir autoconhecimento é mais importante do que a capacidade de fazer milagres.

O nível mais puro de autoconhecimento, no entanto, é o que abordei ontem como a experiência que não pode ser experimentada. Isso soa muito astral e esotérico? Não se você ouviu os médicos que estão aprendendo a meditar. Estávamos falando sobre a quietude - do corpo e da mente - como um elemento essencial da meditação. Perguntei se algum deles tinha experimentado quietude. Até então eles haviam falado de sua meditação principalmente em termos de distração e fracasso. Mas, com um empurrãozinho, alguns deles reconheceram que tinham vislumbrado, por um momento fugaz, o que a quietude significava. Eles quase imediatamente começavam a pensar sobre essa experiência e, é claro, ela era perdida.

A maior parte do que chamamos experiência é simplesmente lembrança, a impressão deixada por um momento puro, no qual fomos libertados de nossa habitual autoconsciência. A experiência, em si, é um desvelamento que derruba as estruturas do tempo em nosso pensamento e imaginação. É puramente presente. Assim que a chamamos de experiência, ela regride. Com o passar do tempo, nossa lembrança dela se desvanece, e muitas vezes se torna imprecisa. Em última instância, somente a experiência pura importa. Ela não pode ser repetida à vontade, mas podemos estar sempre abertos a ela. Nossa abertura desinteressada é a fé. À medida que a fé se fortalece, aumenta a consciência da presença contínua, mesmo se não estivermos de fato na experiência.

Os médicos estão em uma introdução à meditação com limite de tempo. Como a Quaresma, o limite de tempo nos dá o incentivo e a disciplina para nos desvencilharmos do tempo e atingirmos o presente.

 


 

Texto original em inglês

Thursday Lent Week Four

Here, I hope, is the connection with Lent from yesterday. 

I was recently meditating with a group of doctors and nurses working in a very stressful branch of public medicine. They are an extraordinarily generous and compassionate collection of individuals who form a powerfully supportive team of professional friendship. They also really want to meditate. They express their motivation differently but it is, not surprisingly, related to the dangers inherent in their work. Dangers such as burnout (shutting down internally, while going through the motions on the surface) or even various forms of self-harm, from losing the balance of the personal and professional aspects of their lives or the physical and psychological consequences of unmanaged stress.

Most also struggle with finding time to meditate. This struggle shows them how meditation leads to self-knowledge even in the learning process itself. We understand and see ourselves better when we fail to do what we want to do. Of course, this may lead us to give up. But, more positively, it may help us review our goals, to overcome our resistance or just to manage time more sensibly. Most people admit they could find the time to meditate if they set their mind to it. 

Similarly, our Lenten observance encourages self-knowledge, whether we are satisfied with our measure of observance or not. This self-knowledge leads to what the desert teachers called ‘discretion’. Nothing is more important than discretion on the spiritual path we refer to as ‘life’. It obeys the eternal laws of things without falling into the trap of being legalistic. That is why the teachers of the desert said that acquiring self-knowledge is more important than the ability to work miracles.

The purer level of self-knowledge, however, is what I wrote about yesterday as the experience that cannot be experienced. Does this sound rather astral and esoteric? Not if you listened to the medics who are learning to meditate. We were speaking about stillness – of body and mind - as an essential element of meditation. I asked if any of them had experienced stillness. Up till then they had spoken of  their meditation largely in terms of distraction and failure. But, given a little push, some of them acknowledged that they had  glimpsed, for a fleeting moment, what stillness meant. Almost immediately they began to think about this experience and, of course, it was lost. 

Most of what we call experience is simply memory, the impression left by a pure moment in which we were freed from our usual self-consciousness. The experience in itself is an unveiling that takes down the structures of time in our thought and imagination. It is purely present. As soon as we call it an experience it recedes. Over time, our memory of it fades and often becomes inaccurate. Only the pure experience ultimately matters. It cannot be repeated at will, but we can always be open to it. Our ungrasping openness is faith. As faith strengthens so does the awareness of the continuous presence, even if we are not actually in the experience.

The doctors are on a time-limited introduction to meditation. Like Lent the time-limit gives us the incentive and the discipline to wriggle free of time and to touch the present. 

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.