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Quinta-feira da Semana Santa

D. Laurence Freeman

Quinta-feira da Semana Santa 2017

Bede Griffiths foi um grande defensor do Concílio Vaticano II. No entanto, havia uma frase em um dos documentos com a qual não concordava, que dizia que a ‘fonte e ápice’ da vida da igreja é a Eucaristia. Ele amava a Eucaristia e celebrava-a lindamente, todos os dias, em seu ashram Beneditino na Índia. Mas ele sentia que era melhor teologia dizer que a fonte e ápice da Igreja é o Espírito Santo.

As diferentes implicações de cada versão são importantes. Se for a Eucaristia, que é um sacramento cuja forma de celebração as autoridades da igreja controlam, isso significa que a fonte e ápice da Igreja é dependente da lei da igreja e seus legisladores. Mas, se dizemos que o Espírito Santo é a fonte e o ápice - bem, que monte de perigosa liberdade isto introduz. Onde o Espírito está, há liberdade.

Hoje, Quinta-Feira Santa, lembramos - fazemos presente através de um ato concentrado de recordação - o momento em que Jesus tomou pão e vinho e chamou-os seu corpo e sangue. Ele estava reclinado à mesa para a ceia de Páscoa com seus companheiros, não de pé atrás de um altar. O antigo ritual dessa transmissão viva de sabedoria era também uma ceia para amigos e familiares. A ceia começou com um acontecimento surpreendente e chocante, quando Jesus insistiu em lavar os pés de seus discípulos, a quem chamou seus amigos, não seus servos ou discípulos. Esta reversão da hierarquia espelha a reviravolta que ocorre no que se tornou a refeição de ágape das igrejas domésticas cristãs primitivas e, finalmente, o sacramento mais formal da Eucaristia. O protocolo do sacrifício foi invertido; não foi, como era de costume com os sacrifícios, oferecido pelo sacerdote a Deus em favor do povo. O sacrifício era a pessoa que oferecia o sacrifício e era auto-oferecido ao povo ao redor da mesa, a nenhum dos quais foi recusado o pão e o vinho. Mesmo Judas não foi excluído, foi?

Se não abordarmos a Eucaristia conscientes dessa reversão radical de papéis e inesperada reviravolta na ideia arquetípica do sacrifício, poderemos facilmente transformá-la em mais um ritual religioso, afirmando a identidade do grupo, com papéis previsíveis representados diante de um público passivo. Infelizmente isso acontece muitas vezes. Isso desperdiça sua natureza mística. Uma forma de resgatar desta banalidade o valor nutricional espiritual e o poder transformador da Missa é revelar a sua dimensão contemplativa - adicionar silêncio, compartilhar as leituras em via de mão dupla e não apenas no sentido do púlpito para baixo; e meditar após o momento místico mais elevado, após o pão e o vinho terem sido consumidos.

Algumas igrejas Cristãs minimizam a importância da Eucaristia, outras a tem superexplorado à custa de outros aspectos da oração Cristã. Minha própria experiência tem sido que, ao longo dos anos, passei a amar e fico cada vez mais maravilhado com o sempre revigorado mistério da Eucaristia. Quanto mais a compartilho de uma forma contemplativa, dando-lhe tempo suficiente, sagrado ócio, ouvindo as leituras e partindo a Palavra como partimos o pão, ligando a presença real no pão e no vinho à mesma presença no coração de cada pessoa presente, mais ela toca e satisfaz minha fome e sede espirituais. É meditação tornada visível.


 

Texto original em inglês

Holy Thursday

Bede Griffiths was a great advocate of the Second Vatican Council. However there was one  sentence in one of the documents with which he disagreed and which said that the ‘source and summit’ of the church’s life is the Eucharist. He loved the Eucharist and celebrated it beautifully, every day in his Benedictine ashram in India. But he felt it was better theology to say that the source and summit of the Church is the Holy Spirit.

The different implications of each version are great. If it is the Eucharist , which is a sacrament whose form of celebration the church authorities control, this means the source and summit of the Church is dependent on church law and its lawmakers. But if we say the Holy Spirit is the source and summit – well what a lot of dangerous freedom that releases. Where the Spirit is, there is liberty.

Today, Holy Thursday, we remember – we make present through a concentrated act of recall – the moment when Jesus took bread and wine and called them his body and blood. He was reclining at table for the Passover meal with his companions, not standing behind an altar. The ancient ritual of this living transmission of wisdom was also a meal for friends and family. The meal opened with a surprising and for some shocking event, when Jesus insisted on washing the feet of his disciples, whom he called his friends not his servants or disciples. This reversal of hierarchy mirrors the flip that takes place in what became the agape meal of the early Christian house churches and eventually the more formal sacrament of the Eucharist. The sacrificial protocol was flipped around; was not, as was customary with sacrifices, offered by the priest to God on behalf of the people. The sacrifice was the person offering the sacrifice and it was self-offered to the people around the table, none of whom were refused the bread and wine. Even Judas was not excluded, was he? 

If we don’t approach the Eucharist conscious of this radical reversal of roles and unexpected flip in the archetypal idea of sacrifice we may easily turn it into another religious ritual, affirming group identity, with predictable roles performed in front of a passive audience. Sadly this often happens. This misses its mystical nature. One way to rescue the nutritional spiritual value and transformative power of the Mass from this banality is to open up its contemplative dimension – to add silence, to share the readings two-way not just one way downward from the pulpit; and to meditate  after the highest mystical moment after the bread and wine have been consumed.

Some Christian churches downplay the importance of the Eucharist, others have over-exploited it at the expense of other aspects of Christian prayer. My own experience has been that over the years I have come to love and grow in wonder at the ever fresh mystery of the Eucharist. The more I share it in a contemplative way, giving it sufficient time, holy leisure, listening to the readings and breaking the Word as we break the bread, linking the real presence in the bread and wine to the same presence in the heart of each person present, the more it touches and satisfies my spiritual hunger and thirst. It is meditation made visible.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.