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Sexta-feira Santa

D. Laurence Freeman

Sexta-feira Santa 2017

Você se lembra da Quarta-feira de Cinzas, início da Quaresma?

A Sexta-feira Santa é o fim de uma linha que temos seguido desde então. Precisamos sentir sua finalidade para podermos adentrar o epílogo que é um novo começo.

Muitos daqueles que se lembram por que é feriado bancário mas não visitam uma igreja, vão à igreja para o culto especial. Como judeus não-observantes com o Yom-Kippur, há uma mística religiosa que não pode ser ignorada e demanda alguma medida de devoção e reconhecimento.

Por isso a chamamos Sexta-feira Santa. O que ela tem de santa? Um santo homem e grande mestre é preso em segredo, arrastado a um rápido e falso julgamento, rejeitado pelo seu povo, abandonado por seus amigos, crucificado por uma força invasora inimiga. Ele morreu na Cruz com sua mãe e um punhado de amigos a seus pés.

Por que tão trágico desperdício e fracasso merece ser chamado santo? Por que nos enfileiramos, o maior e o menor de nós, para beijar a cruz em silêncio na nona hora, às 15 horas, hoje, alinhando-nos em solidariedade com sua vítima silenciosa e sua humilhação?

Enxergamos as cruzes menores de nossas próprias vidas nessa grande Cruz nua que projeta sua sombra sobre o mundo, unindo seu sofrendo coletivo em seu abraço anônimo? Na simplificação desse símbolo unificador, não encontramos uma cura da depressão, uma redenção do isolamento e solidão que a morte, o sofrimento, o fracasso e a humilhação repetidamente nos mergulham?

‘Está consumado’, disse Jesus, um de seus sete dizeres na Cruz. É um alívio sentir que o pior já passou. Do seu alívio, mesmo no beco sem saída, vem a esperança. Por algo que ainda não temos imaginação.

Desta vez, o silêncio é fácil.


 

Texto original em inglês

Good Friday

Do you remember Ash Wednesday, the beginning of Lent?

Good Friday is the end of the line we have been following since then. We need to feel its finality in order to enter into the epilogue which is a new beginning. 

Many of those who remember why it is a Bank Holiday but don’t usually darken the doors of a church come to church for the special service. Like non-observant Jews with Yom Kippur, it has a religious mystique that cannot be ignored and demands some measure of devotion or recognition.

This is why we call this Friday Good. What is good about it? A good man and great teacher is arrested in secret, dragged through a quick fake trial, rejected by his people, deserted by his friends, crucified by an occupying enemy force. He dies on the Cross with his mother and a handful of friends beneath him.

Why does such another tragic waste and failure deserve to be called good? Why do we line up, the great and the small of us, to kiss the cross in silence at the ninth hour, 3pm, today, aligning ourself in solidarity with its silent victim and his humiliation?

Do we see the smaller crosses of our own lives within this one great bare Cross that casts its shadow over the world, uniting its collective suffering in its anonymous embrace? In the simplification of this unifying symbol, do we not find a healing of depression, a redemption from the isolation and loneliness that death, suffering, rejection, failure and humiliation repeatedly plunge us into?

‘It is accomplished’, Jesus said, one of his seven sayings from the Cross. It is a relief to feel that the worst is over. From this relief, even in the dead end alley, comes a hope. For something we have as yet no imagination for.

For once, silence is easy.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.