Leitura da Semana

Acesse mais leituras e mensagens de D. John Main e D. Laurence Freeman:

Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
Quaresma 2017 >
Quaresma 2016 >
Quaresma 2015 >
Quaresma 2014 >
Quaresma 2013 >

Encontre um Grupo de Meditacao Crista

Sábado Santo

D. Laurence Freeman

Sábado Santo 2017

A morte é sempre dramática. É o encerramento final. Os dias após a morte podem ser tudo menos dramáticos. Frequentemente eles são mundanos e descoloridos, o começo de uma lenta, implacável depressão. Aqueles que se sentem deixados para trás nessa praia vazia da existência, começam a adaptar-se ao espaço vazio, ao vácuo deixado para eles por quem amavam. Suas vidas giravam em torno daquela pessoa de maneira que tinham apenas meia consciência antes, e em profundezas neles mesmos que nunca tinham notado antes.

Este deve ter sido o caso para aqueles pessoalmente atingidos pela morte de Jesus na Cruz. A multidão circunstante e sedenta de sangue esquece-o rapidamente, era somente outra vítima dos tempos violentos que eles viviam. Sua família e seus amigos teriam indo e vindo como um espectro variando da vergonha e culpa para a decepção, medo e raiva.

Nós precisamos desse tempo para chorar e lamentar e ocasionalmente para o desespero ou a raiva. O Sábado Santo simboliza esse tempo, uma bacia hidrográfica sem água, uma ponte quebrada ao meio, uma cadeira vazia, uma cama ocupada pela metade.

De qualquer forma, isso é verdade apenas na superfície. Mas, nas profundezas interiores, nós ouvimos o míssil do espírito de Cristo penetrando dentro de todas as camadas da consciência escondida, esquecida e enterrada. Elas estão presentes em nós, se apenas soubéssemos, desde o começo da evolução humana. Mas nós iríamos preferir não saber por que isso iria nos confundir em sabermos quantas fase do desenvolvimento pré-humano ainda permanece em nós, quantos ancestrais nós temos.

Como o Jesus que ainda não foi levantado das grades do inferno, nós esperamos por seu ressurgimento no reino humano, onde reconhecemos a nós mesmos. Mas iremos nós reconhece-lo ressuscitado? Logo iremos ver como nós mudamos, como quando correntes pesadas são mais leves, afrouxadas se queremos testá-las. Nós começaremos, através dos próximos séculos, a sentir como uma nova paz substitui os medos antigos, uma nova gentileza à antiga violência. Nós veremos conexões crescentes entre o pré-consciente e o consciente. Insights dentro da justiça, liberdade humana e dignidade, religião e relações humanas emergem dessa nova consciência à medida como o ser humano é entendido à luz de sua origem e objetivo.

Mas iremos nós reconhecê-lo ressuscitado? Ele que disse ‘você e eu formamos uma pessoa indivisível’?


 

Texto original em inglês

Holy Saturday

Death is always dramatic. It is the ultimate closure. The days after death may be anything but dramatic. They are often mundane and colourless, the beginning of a slow, relentless depression. Those who feel left behind on this empty beach of existence begin to adapt to the empty space, the void left to them by the one they loved. Their lives once revolved around that person in ways they were only half-aware of before, and at depths in themselves that they had never noticed before.

This must have been the case for those personally stricken by the death of Jesus on the Cross. The bystanders and bloodthirsty mob forgot him quickly, just another victim of the violent times they lived in. His family and friends would have moved backwards and forwards across a spectrum ranging from shame and guilt to disappointment, fear and anger.

We need this time to mourn and grieve and occasionally despair or rage. Holy Saturday symbolises this time, a watershed with no water, a bridge broken midway, an empty chair, a half-occupied bed.

Anyway, this is true on the surface. But, from the depths below, we hear the missile of Christ’s spirit penetrating into all the hidden, forgotten and buried layers of consciousness. They are present in us, if only we knew, from the beginning of the evolution of the human. But we would rather not know because it would confuse us to know how many stages of pre-human development still remain in us, how many ancestors we have.

As the not yet risen Jesus harrows hell, we wait for his resurgence into the human realm, where we recognize ourselves. But will we recognise him risen? Soon we will see how we have changed, how once heavy chains are lighter, loosened if we wish to test them.  We will begin, over the coming centuries, to feel how a new peace replaces the old fears, a new gentleness the ancient violence. We will see connections growing between the preconscious and the conscious. Insights into justice, human freedom and dignity, religion and human relationships emerge from this new consciousness as the human is understood in the light of its source and goal.

But will we recognise him risen? He who said ‘you and I form one undivided person’?

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.