Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Quarta-feira de Cinzas

D. Laurence Freeman

Quarta-feira de Cinzas - Quaresma 2018

Nós começamos hoje uma jornada de 46 dias para a Páscoa. Tradicionalmente nós fazemos alguma coisa a mais ou abandonamos algo por 40 destes dias. Nós podemos pular os seis Domingos uma vez que estes, tradicionalmente, são dias de folga, relaxando a disciplina para lembrar um fato essencial do qual não podemos nos esquecer durante a Quaresma: de que nós já chegamos ao lugar onde estamos indo. 

Qualquer prática espiritual é sobre descobrir a realidade e não fazê-la acontecer. Apesar disso, é claro, o processo e os estágios de descoberta também são um tipo de acontecimento.

A Ressurreição aconteceu ou do contrário não estaríamos observando a Quaresma. Nós não observamos a Quaresma para fazer a Ressurreição acontecer, certamente também não para tornar a vida dura para nós mesmos pelo que fizemos de errado (e provavelmente continuaremos a fazer pelo futuro que pode ser antecipado). A Quaresma reduz a atmosfera opressiva da ignorância que aflige nossa habilidade de viver a vida em plenitude: ela nos ajuda a perceber claramente, a ter as prioridades corretas, a restaurar o equilíbrio onde nós o perdemos. 

Eu costumava ser mais puritano e pensar que eu deveria manter mesmo nos Domingos qualquer que fosse a prática que eu tinha escolhido; geralmente quando criança era relacionado a abandonar prazeres como doces ou quando adulto um prazer como álcool ou filmes. Hoje eu sou um pouco mais relaxado sobre isso e tolerante comigo mesmo. Se eu mantenho a prática nos Domingos é porque eu sinto que está me fazendo bem e então (de forma saudável) eu estou descobrindo o outro tipo de prazer encontrado através da experiência de liberdade e simplicidade.

Eu sugiro - se você ainda não o fez - decidir o que você quer fazer e o que você não quer fazer nos próximos 46 (ou 40) dias. Os princípios ao fazer as escolhas são, por exemplo: As coisas das quais vou me abster e o que eu vou seguir respeitam e promovem a integração saudável de mente, corpo e espírito? A minha prática Quaresmal é uma afirmação da bondade e não uma punição da fraqueza? Isso vai reduzir o vício e moderar o desejo? Vai me lembrar de como o tempo pode ser melhor gerenciado e menos desperdiçado? Vai ajudar a me mostrar que atrás das minhas falhas e padrões negativos existe sempre alguma coisa boa que pode ser restaurada saudavelmente?

Você pode usar a Quaresma, por exemplo, para começar a meditar (neste caso você pularia a meditação nos Domingos?). Para encontrar o tempo para meditar, você pode deixar de lado algo como a Netflix ou navegar horas pela internet ou videogames. Para o praticante de meditação, você pode começar a meditar de novo como se fosse a primeira vez e resgatar o frescor da admiração de quando este dom entrou em sua vida. Você pode garantir que você faça as duas sessões, manhã e noite (incluindo os Domingos, quando você poderia adicionar uma terceira sessão).  E você pode tornar-se mais consciente das fantasias mentais - e, para coisas ou pessoas de aparente menor importância, derramar um generoso bônus de pura atenção. 

Eu espero que estas leituras diárias me ajudem a manter este foco e a encontrar esta liberdade e alegria mais profundas. Se elas me ajudarem, elas podem também, eu espero, ser de algum valor para você nesta jornada que começamos juntos hoje. 

 


 

Texto original em inglês

Ash Wednesday

We start a 46-day journey to Easter Sunday today. Traditionally we do something extra or give up something for 40 of these days. We might skip the six Sundays as these, traditionally, are days off, given to relaxing the discipline in order to remember an essential fact that we should not forget during Lent: that we have already arrived at where we are going. 

Any spiritual practice is about realising reality not making it happen. Although, of course, the process and stages of realisation are also a kind of happening.

Resurrection has happened or else we would not be observing Lent. We observe Lent not to make Resurrection happen, certainly not to make life hard for ourselves because of what we have done wrong (and will probably continue to do so for the foreseeable future). Lent reduces the miasma of ignorance that bedevils our ability to live life to the full:  it helps us to perceive clearly, to get priorities right, to restore balance where we have lost it.

I used to be more puritanical and think that I should keep up even on Sundays whatever practice I had chosen; usually as a child it was giving up pleasures like sweets or as an adult a pleasure like alcohol or movies. Today I am a bit more relaxed about it and forgiving of myself. If I keep the practice on Sundays it would be because I feel it is doing me good and so (in a healthy way) I am discovering the different kind of pleasure found through experiencing freedom and simplification.

I would suggest – if you haven’t already done so – to decide what you want to do and what you don’t want to do during the next 46 (or 40) days. The principles in choosing are, for example: Does what I abstain from and what I undertake respect and advance the healthy integration of mind, body and spirit? Is my Lenten practice an affirmation of goodness not a punishment for weakness? Will it reduce addiction and moderate desire? Will it remind me of how time can be better spent and less wasted? Will it help to show me that behind my faults and bad patterns there is always something good that can be restored to health?

You could use Lent for example to start meditating (in which case would you skip it on Sundays?) To make the time for it you can give up something like Netflix bingeing or aimless surfing or gaming). For the meditator you can start meditating again as if for the first time and recover the fresh wonder of when this gift first entered your life. You could ensure that you do both the sessions, morning and evening (including Sundays, when you might also do a third). And you might be more conscious of controlling daydreaming – and, on things or people of apparently small account, bestow a generous bonus of pure attention.

I hope these daily readings will help me to keep this focus and find this deeper freedom and joy. If they do, they may also, I hope, be of some value to you on this journey we start together today.

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.