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Sexta-feira Santa

D. Laurence Freeman

Importa como morremos. E como morremos depende de como abordamos morrer. Como abordamos essa inevitabilidade depende de como tenhamos vivido. O modo como vivemos depende de quanto tenhamos aprendido a amar.

Em muitas tradições de sabedoria, a morte está associada a uma crise – a palavra krisis significa julgamento. Um acerto de contas tem que ser feito e, como fazer imposto de renda, ninguém se alegra em fazer mas, não é tão ruim como parece uma vez que você decida fazer. Quanto mais complicado seus negócios, mais tempo levará. Mas diferentemente do imposto de renda, você não pode pagar para alguém fazer por você. Morrendo, nós todos nos tornamos eremitas e, se não compreendemos a solidão antes, vamos aprender nessa ultima crise de vida.

Os Egípcios compreendiam o julgamento final como a pesagem do coração humano contra a pena da verdade. Se o coração do morto estava muito pesado, muito impuro, a deusa da verdade o devoraria e a pobre alma seria detida em sua jornada para a
imortalidade, presa em algum limbo intermediário ou mundo subterrâneo.

Então, com medo da vida desconhecida após a morte, as pessoas costumavam rezar por uma morte santa. Isso significava deixar a vida e seus apegos e amados pacificamente. Mesmo quando a dor era intensa a pessoa poderia alcançar uma equanimidade dignificada, sem se queixar dramaticamente sobre ‘a noite escura’ na qual o poeta romântico Dylan Thomas disse que não devemos entrar suavemente. Pelo contrário, ele disse que devemos, ‘enfurecer-nos contra o esmorecer da luz’. Porém ao lado da testemunha de uma morte santa, isso soa embaraçosamente adolescente.

O que pensar dessa Sexta feira Santa em meio dessa pandemia na qual tantos morreram, e ainda levará muitos outros antes que termine seu curso? Se estivemos seguindo a Quaresma – e que Quaresma tem sido essa de 2020 – deveríamos estar mais preparados para olhar a morte de frente e enfrentar nossos medos mais profundos. Quando os medos são enfrentados, eles desmoronam. Somente quando fugimos deles é que se tornam monstruosos e destroem nossas vidas e nossa capacidade de amar.

Mesmo a morte de acusados injustamente, das crianças, vítimas de genocídio ou da desigualdade social (como vemos nas figuras das vítimas do Covid19), mesmo as mortes mais perturbadoras podem nos ensinar sobre a vida. Yama, o deus mítico da morte no Katha Upanishad, é um professor da humanidade. O mesmo acontece com Jesus totalmente humano e histórico, não somente naquilo que pregou, mas em como Ele viveu e morreu por seus ensinamentos, tornando-se verdadeiramente o que Ele ensinou. Se morrermos como vivemos, nossa morte será um presente, um ensinamento autêntico em si mesmo, para aqueles que deixamos. Mesmo na tristeza podemos sentir a graça de uma morte santa e sua alegria em sua expansão e liberação, semelhantes ao nascimento. Jesus nos mostra que toda morte pode ser redentora.

Ele não se enfureceu contra a diminuição da luz. Ele viu a luz do alto. Ditas por esse despertar incomunicável, suas últimas palavras nos iluminam: Tenho sede. Hoje você estará comigo no paraíso. Pai, perdoa-os, pois eles não sabem o que fazem. Pai, em tuas mãos, entrego o meu espírito. Tudo está consumado.

 


 

Texto original em inglês

Good Friday

It matters how we die. And how we die depends upon how we approach dying. How we approach that inevitability depends upon how we have lived. How we live depends upon how much we have learned love.

In many wisdom traditions death is associated with a crisis – the word krisis means judgement. A reckoning has to be made and, like doing tax returns, no one looks forward to it but it is not as bad as it seems once you set your mind to it. The more complicated your affairs, the longer it will take. But unlike tax returns you cannot pay anyone to do it for you. Dying, we all become hermits and if we haven’t understood solitude before we will learn in this last crisis of life.

The Egyptians saw the last judgement as a weighing of the human heart against the feather of truth. If the heart of the deceased was too heavy, too impure, the goddess of truth would devour it and the unfortunate soul would be arrested on its journey into immortality, stuck in some intermediate limbo or netherworld.

So, scared of the unknown afterlife, people used to pray for a holy death. This meant letting go of life and one’s attachments and loved ones peacefully. Even when pain was acute one could achieve a dignified equanimity, no thrashing around dramatically complaining about that ‘dark night’ which the romantic poet Dylan Thomas said we should not go gently into. Rather, he said we should, ‘rage against the fading of the light’. But beside the witness of a holy death this sounds embarrassingly adolescent.

What about Good Friday in the middle of this pandemic in which so many have died, and which will take away many others before it has run its course? If we have been following Lent – and what a Lent it has been in 2020 – we should be a little readier to look death in the eyes and face our deepest fear. When fears are faced, they crumble. It is only when we run away that they become monstrous and wreck our lives and our capacity to love.

Even the death of the unjustly accused, of children, victims of genocide or of social inequality (as we see in the figures of Covid 19’s victims), even the most disturbing deaths teach us about life. Yama the mythical god of death in the Katha Upanishad is a teacher of humanity. So is the fully human, historical Jesus, not only in what he preached but in how he lived and died into his teaching, indeed becoming what he taught. If we die as we lived, our dying is a gift, an authentic teaching in itself, to those we take leave of. Even in grief we can feel the grace of a holy death and its joyful, birth-like expansion and release. Every death, Jesus shows us, can be redemptive.

He did not rage against the fading of the light. He saw the rising light. Spoken from this incommunicable awakening, his last words enlighten us: I am thirsty. Today you will be with me in paradise. Father, forgive them, for they know not what they do. Father, into your hands I commit my spirit. It is accomplished.