Leitura da Semana

Acesse mais leituras e mensagens de D. John Main e D. Laurence Freeman:

Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
Quaresma 2020 >
Quaresma 2019 >
Quaresma 2018 >
Quaresma 2017 >
Quaresma 2016 >
Quaresma 2015 >
Quaresma 2014 >
Quaresma 2013 >

Encontre um Grupo de Meditacao Crista

Sábado Santo

D. Laurence Freeman

Familiares e pessoas queridas à beira do leito de alguém respirando por aparelhos ou — como na crise do corona — proibidos de estar ao lado dos doentes, mas que aguardam notícias à distância. Enquanto há vida, há esperança. Não importa quão perto o inevitável pode estar; é uma outra era e fica a um mundo de distância. Mas quando chega, quando o último suspiro é dado, quando não há uma próxima inspiração, entramos no summum silentium da vida. O grande silêncio.

Nos mosteiros, essa expressão se refere ao silêncio que os monges devem observar estritamente após a oração da noite. No entanto, não é tão incomum que monges entrem numa reunião online ou conversem com alguém da comunidade depois do grande silêncio. Com a morte, porém, não existe escolha: o silêncio tem que ser observado. Não podemos enganar a morte. E é chocante o quanto somos impotentes. Como crianças que acham que nunca conseguem ter o que querem depois de insistir, jogar charme, chorar e ameaçar, finalmente desistimos e admitimos que fomos derrotados. O que passou, passou.

Não importa quantas vezes revisitemos as conversas que tivemos com os mortos, nunca mais vamos ouvi-los ou vê-los como antes. Fotos, velhas cartas, objetos pessoais que guardamos são míseras consolações e, depois de um tempo, tornam-se impedimentos para o novo relacionamento que está sendo formado no túmulo que lentamente evolui para se tornar um útero.

O silêncio inflexível e intransigente da não comunicação, a impossibilidade de fazer contato, de saber o que a pessoa falecida pode estar vendo ou sentindo — se é que vê ou sente alguma coisa. O silêncio de ficar pensando se eles se importam, se estão em algum lugar ou algum tipo de existência em que podem cuidar daqueles que sentem saudade. Por fim, o processo de luto permite aos saudosos aceitar o óbvio e o inevitável. Embora com mais uma carga a ser levada em seu coração pesado, eles seguem em frente. À medida que morremos naquela morte, o summum silentium mostra sinais de vida. O verde brota em solo morto.

Isso não significa que os recados dos mortos estão chegando através de uma rede carregada, mas que o silêncio se aprofunda. Vamos ficando mais capazes de escutar o silêncio sem povoá-lo com nossos desejos, medos e imaginação. Ele se torna simples presença. Simples, mas mais intensamente presente que qualquer coisa que considerávamos real antes.

Nas entrelinhas desta pandemia e na ruptura dolorosa — mas não sem sentido — que está causando, deveríamos conseguir escutar este grande silêncio. Se não temos um grande silêncio, ou se ele caiu em decadência, esta é a hora de começar ou recuperar uma prática espiritual. É hora de ver como o silêncio das coisas é necessário para a sobrevivência. O silêncio que empodera a vida através da morte.

Aqui em Bonnevaux, notei como minhas caminhadas estão muito mais presentes e como os pássaros e animais parecem muito mais amistosos. Imagino que seja uma projeção minha. Fui eu quem mudou, não eles. Mas, quem sabe? No fim das contas, talvez seja um relacionamento e não somente observar e ser observado. É hora de começar a quaresma novamente.

 


 

Texto original em inglês

Holy Saturday

Family or loved ones waiting beside someone on life support or - as in the corona crisis – not allowed to be beside them but waiting for news at a distance – as long as there is breath there is hope. However close the inevitable may be, it is another age, another world away. But when it comes, and the last breath is drawn, when there is no next inbreath, we enter the summum silentium of death. The great silence.

In monasteries this refers to the silence monks are supposed to observe strictly after the night prayer. It’s not unknown, however, for monks to get on zoom or chat with someone in the community after the great silence. With death, however, there is no choice, silence can only be observed. We can’t cheat death. And it is shocking how powerless we are. Like children who think they can get what they want by insisting, by charming, by crying, by threatening, we finally give up and admit we are defeated. What is gone is gone.

However much we replay conversations with the dead we will never again hear or see them as we did. Photos, old letters, personal objects we treasure are all meagre consolation and after a while they become impediments to the new relationship that is being formed in the tomb that slowly evolves to become a womb.

The unyielding, uncompromising silence of non-communication, the failure to make contact, to know what the dead person might be seeing or feeling – if anything. The silence of wondering if they care – if they are anywhere or in any kind of existence in which they could care about those who miss them. Eventually the grieving process allows the bereft to accept the obvious and the inevitable. Albeit with another weight in their heavy heart to carry, they move on. As we die into the death the summum silentium shows signs of life. Green shoots from dead soil.

This doesn’t mean that messages from the dead are getting through on a busy network but that the silence becomes deeper. We become better able to listen to the silence without populating it with our desires and fears and imagination. It becomes simple presence. Simple but more intensely present than anything we thought was real before.

Inbetween the lines of this pandemic and the painful, not meaningless disruption it is causing, we should be able to hear this great silence. If we don’t have one, or if it has fallen into disrepair, this is the time to start or re-service a spiritual practice. It is time to see how necessary for survival is the silence of things. The silence which empowers life through death.

Here at Bonnevaux I have noticed on my walks how much more present and friendly the birds and animals seem. I imagine this is my projection. It is I who have changed, not them. But who knows? Maybe it is after all, all about relationship, not just observation or being observed. It is time to start Lent again.