Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Amando-nos a nós mesmos

 

Nossa experiência humana de amar aperfeiçoa-se com nossos etapas de desenvolvimento. Precisamos crescer. Precisamos tornarmo-nos adultos caso queiramos ter discernimento de nossa aptidão para amar, se quisermos ser a pessoa que somos chamados a ser. Este processo de crescimento e desenvolvimento é uma jornada. A vida é uma jornada pela qual passamos através de etapas, e a meditação é uma jornada. Ela nos ajuda a reconhecer que etapas de desenvolvimento existem. Isto pode nos ajudar a ser pacientes – a encontrar e a ir com a correnteza ao invés de impor nossa própria ordem, nosso desejo próprio para o crescimento e nosso desejo próprio de amor, acerca de uma situação que ainda não está pronta para tal. A compreensão de que a vida e nossa capacidade de amar revelam-se por etapas ensina-nos paciência, ensina-nos sabedoria.

Mas algumas vezes estas etapas são incompreendidas. É onde os ensinamentos de D. John Main sobre meditação são tão importantes para nós como pessoas da modernidade. A maioria de nós foi ensinado que devemos amar primeiramente a Deus; e então tendo amado a Deus, devemos então amar a outras pessoas. E realmente é até aí que a maioria de nós chegou. Talvez haja uma vaga menção a amar-nos a nós mesmos porque Jesus diz isso – que você deve amar ao próximo como a si mesmo. Então somos ensinados um pouco que devemos amar-nos a nós mesmos, mas o amor a si mesmo é normalmente posto em último, e ainda usualmente expresso em termos negativos.

D. John Main reverteu esta ordem. Ele disse que o primeiro passo é amar-nos a nós mesmos. O segundo passo é amar outros. E somente então podemos realmente adentrar ao mistério de amar a Deus, ou mesmo saber o que significa amar a Deus.
Esta mudança na ordem dos estágios de nosso crescimento no amor é de grande importância para o nosso próprio entendimento da meditação. Ela nos faz entender porque a meditação, que é tão simples, pode ser tão difícil, porque é em tal medida um desafio.

A dificuldade e o desfio é que estamos aprendendo, como um primeiro passo, a amarmos a nós mesmos. E a maioria de nós chega à meditação com fortes impulsos de ódio a si mesmo, desconfiança de si mesmo e auto-rejeição. A maioria de nós, particularmente na nossa educação religiosa, escutou que devemos suspeitar muito de nós mesmos ao fazermos um exame de consciência, mesmos quando crianças pequenas. Quando fomos ensinados a irmos confessar, nosso primeiro preconceito, o preconceito com o qual fomos treinados, foi que precisamos primeiro procurar nossas culpas porque estas são as nossas características das quais Deus mais está a par, e estas são as características de nós mesmos das quais mais devemos ter medo porque seremos punidos por elas. Então fomos ensinados, mesmo como crianças pequenas, a nos consideramos essencialmente como suspeitos, perigosos e pecadores.

E isto levou, em muitos casos, ao desenvolvimento de uma espiritualidade totalmente negativa, uma espiritualidade na qual a imagem de Deus guarda muito pouca relação com o Deus que encontramos no ensinamento de Jesus, com um Deus que ama. Nesta espiritualidade negativa, na qual atentamos para nossa pecaminosidade – nosso ciúme, nossa luxúria, nosso orgulho, nossa raiva, todas essas emoções negativas e impulsos negativos em nós, nosso egotismo – em uma espiritualidade que enfoca o autoconhecimento apenas sobre nosso lado negativo, Deus pode ser entendido apenas como um Deus que pune ou que condena. Este é o porquê de que uma das mais irrefutáveis mudanças que a meditação opera em nossa vida e uma re-visão do nosso entendimento sobre Deus. Isto é o porquê de muitas pessoas dizerem, após terem estado meditando por algum tempo: “Sabe, nada acontece durante minha meditação, só fico me arrastando dia após dia, mas pela primeira vez em minha vida eu consigo entender o que significa dizer que Deus é amor. Eu começo a entender o que é realmente todo esse ensinamento religioso e tudo sobre Cristianismo. Eu estou apenas começando a ver a luz através desses anos de escuridão.”

Uma espiritualidade negativa, certamente, é contraproducente. Ela nos diz que somos pecadores, temos uma desestruturada tendência para o pecado, inata, que é nossa identidade mais profunda, e que devemos resistir a ela e superá-la; que somos repletos pelo ego e que devemos destruir o ego. Mas uma espiritualidade negativa deste tipo tende somente a reforçar o ego, a empurra-lo para o recôndito profundo, a reforça-lo por seus próprios medos, suas próprias culpas, sua própria vergonha. Então, certamente, onde quer que você tenha esta culpa, vergonha e medos em seu ego, você tem uma rebelião. Você se depara com o ego envolvido em uma dinâmica auto-contraditória: conflitos e tensões dentro de nós, confundindo-nos, fazendo-nos sentir que não entendemos a nós mesmos, não sabemos por que agimos da maneira como agimos. Sentimo-nos soterrados por sentimentos negativos, controlados por impulsos negativos. Encontramo-nos fixos, tão frequentemente, em modelos de vida que parecem nos reter e nos tolher com suas forças negativas, cheios de truques mentais, muito do jeito daquilo que as pessoas que lutam contra vícios enfrentam – todos os truques mentais que vão nos manter presos a vícios; todas as desculpas que temos; todas as mentiras plausíveis que contamos a nós mesmos com a finalidade de mantermo-nos aprisionados ao modelo do vício.

Eu acho que é esta espiritualidade negativa com seus resultados contraproducentes que explica, mais que qualquer outra coisa, a aparente rejeição a religião institucional no mundo moderno, e porque particularmente pessoas jovens, que foram instruídas de maneira muito diferente, simplesmente não veem um sentido na Igreja, neste tipo de religião institucional. Eu tive um vislumbre disto há algumas semanas atrás quando estava lendo uma cópia da revista Rolling Stone. Era o exemplar do vigésimo quinto aniversário da Rolling Stone, uma coleção de entrevista com cantores de rock durante os últimos vinte e cinco anos, começando com John Lennon e terminando com Madonna. E conforme eu lia, ficava impressionado com o que via. Com isso entendi porque estes são os heróis dos jovens, porque são os modelos. Não é por serem pessoas exemplares por algum conceito, não eram santos, mas eram honestos pecadores. Eles eram honestos. E isto me fez entender porque este era exatamente o tipo de pessoas que Jesus andava e porque era tão chocante para os Fariseus que ele circulasse acompanhado de prostitutas, coletores de impostos, pessoas desonestas ou outros assim. Estas eram as pessoas em quem a pecaminosidade – sua fraqueza, seu orgulho e todo o mais – é aberta. Ela não é negada, como a negamos na espiritualidade negativa.
Isto é uma coisa que aprendemos quando meditamos: a encarar nosso lado obscuro, a encarar nossa pecaminosidade, a encarar todo esta complexa dinâmica autocontraditória que nos acompanha, a encará-la sem decepção, sem repressão, sem evasão piedosa. Nós a encaramos e aceitamos a responsabilidade por quem somos em nós mesmos, e chegamos além das divisões que nos impõe a espiritualidade negativa e de auto rejeição.

O que cura as feridas da divisão é o amor. O amor une, unifica e cura as feridas do eu dividido. Ele supera as profundas feridas de nossa alienação. Ele nos simplifica. Este é o significado real do amor a si mesmo, e o porquê, como D. John Main nos ensinou, de precisarmos começar com nós mesmos. Ao dizer isso, de certa forma, ele não disse nada de novo. É o verdadeiro ensinamento da tradição espiritual contemplativa cristã, que nosso conhecimento de Deus precise começar do nosso conhecimento sobre nós mesmos, que para conhecer Deus precisamos conhecer a nós próprios. Como disse Santo Agostinho, nós precisamos primeiramente ser reintegrados em nós mesmos, para então tornarmo-nos a “pedra de impulso” e transcendermos-nos a nós mesmos para Deus. O que a meditação nos ensina é que só podemos amar a nós mesmos se pudermos nos aceitarmo como somos; se nós pudermos reconhecer e ver nossa integridade, colocar o lado obscuro no quadro e aceitar o lado obscuro como parte dele.

Mas tudo leva a questão: Como proceder para amar-se? Eu acho que em reação a esta longa história de moral negativa e espiritualidade de auto rejeição, hoje estamos mudados, às vezes de forma conflitante, autocontraditória, para o outro extremo, onde nos dizem que devemos ser bondosos para conosco: Cuide-se; seja gentil consigo mesmo; permita-se um feriado; se quiser algo, faça-o. É nisto que o amor próprio frequentemente torna-se um pouco mais que auto complacência, onde amar-nos é somente dar-nos uma série permanente de pequenos regalos.

Pode ser necessário e bom para nós a colocarmo-nos um pouco para outra posição. Certamente há sabedoria na psicologia moderna, popular, de sermos bons para nós próprios. Mas acho que aquilo que na tradição espiritual, e nos ensinamentos sobre meditação, clama-nos a amarmos a nós próprios, é achar o caminho do meio entre autonegação e auto rejeição por um lado, e auto complacência e narcisismo por outro. Em algum lugar entre a autonegação e a auto complacência, nós encontramos a capacidade verdadeira de amarmos a nós mesmos.

A meditação, sabemos, é um caminho de moderação, um caminho do meio. É muito difícil permanecer no caminho estreito da meditação. É muito mais fácil, e há uma tendência constante, a desviarmo-nos do caminho tanto na direção da auto-rejeição e autonegação, ou para o lado de uma autocomplacencia ampla e negligente. Nós vemos isto claramente expresso em movimentos espirituais de nosso tempo. Alguns movimentos sugerem autocomplacencia total: tudo vale; faça o que quer; se cai bem, vai. Por outro lado, particularmente no fundamentalismo e em alguns cultos, há uma tremenda rigidez, um tremendo medo do prazer, medo da harmonia, e uma tremenda autonegação.

Eu acho que o que aprendemos através da meditação é curar as feridas destes extremos através do poder do Espírito. E ao espírito ser liberto, ao revelar-se a dimensão espiritual, aprendemos a dinâmica de amar a nós mesmos. Aprendemos a viver na lei dessa dinâmica, e é a dinâmica, antes de tudo, da aceitação de nós mesmos como somos, sem julgamento, sem parcialidade. Aprendemos a aceitarmo-nos como somos, com nossas culpas, nossas fraquezas, com todas as nossas tendências. E então a conhecermo-nos, entendendo o significado do que estamos aceitando. Não é suficiente apenas nos aceitar. Aceitar-nos significa precisar conhecer a nós mesmos e somente então, conhecendo a nós mesmos, podemos ver além de nós, podemos ver que não estamos limitados a esta pessoa egocêntrica que pensamos ser, mas que somos maiores que isso. Que nosso verdadeiro centro não é em nós mesmos, mas em Deus.

Auto aceitação, auto conhecimento e auto transcendência.

 

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