Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Como amar a nós mesmos

 

Como amar-nos a nós mesmos? Amamos a nós mesmos tornando-nos quietos.
A quietude é uma excelente disciplina; é a grande descoberta da meditação. A quietude é a dinâmica da transcendência. Quanto mais quietos somos, mais transcendemos nossas limitações. Neste sentido silêncio não significa parar. Não é estático. Podemos entender o que é silêncio quando o vemos como parte de todo o processo de crescimento na natureza. Há uma relação muito importante entre quietude e crescimento.

Quietude não é incompatível com a ação. Uma das coisas que nós começamos a sentir, quando meditamos regularmente, é que esses momentos de meditação, manhã e à noite, abrem um novo centro de cognição, uma nova aquietação para a consciência, uma percepção, no profundo de nós, que não é afetada por nada o que possamos fazer, pelo quanto ocupados estejamos, o quão sobrecarregado de trabalho possamos estar, o quanto envolvidos em atividades externas possamos estar. Se nossa meditação é regular, vamos descobrir que há uma quietude no centro de toda a nossa atividade; na verdade, começamos a perceber que a atividade flui a partir dessa quietude. É a quietude que descobrimos através de meditação, a quietude na qual aprendemos a amar a nós mesmos, a aceitar-nos, a conhecer-nos e transcender-nos. Essa quietude não está em contradição com a ação. Na verdade, ela é a razão da ação, ela é a energia da ação.

A quietude significa ser sem esforço. Quando estamos quietos, não estamos fazendo esforço algum. Não um esforço da vontade, e é por isso que, na meditação, não buscamos nossa vontade de amar a Deus, ou nossa vontade de amar-nos a nós mesmos, ou nossa vontade de amar ao próximo. Nós adentramos a essa condição de ausência de esforço e total naturalidade. O ego, que sempre está se esforçando para cumprir alguma tarefa, encontra na quietude seu maior desafio, porque na quietude paramos de tentar, paramos de nos esforçar. Na quietude descobrimos uma nova liberdade, uma liberdade que está aquém do esforço, aquém de nossa vontade egóica; o ser sem esforço, de estar em harmonia com o fluxo da vida.

Esta quietude é um tipo de pobreza, soltar o que está amarrando – soltar o nosso esforço, soltar o nosso controle, soltar nossos medos e desejos que dominam nossos esforços. Nesta pobreza, descobrimos o quanto nos é necessário tornarmo-nos pobres para poder amar.

Não somos capazes de amar se não houver a pobreza. Não somos capazes de amar-nos a nós próprios a não ser ao alcançar a pobreza de espírito. Este é o primeiro passo: ceder, soltar-se, renunciar aos modelos de controle e esforço do ego, onde muitos nos viciamos a enroscar.

Na pobreza aceitamos a impermanência. A impermanência nos aterroriza por deixar-nos face a face com nossa mortalidade, nossa morte. Mas a impermanência pode ser vista por simplesmente seu ritmo, seu fluir, a quietude desempenhando um papel de movimento, a quietude conectando os dois sopros, a quietude conectando as duas tendências. Há impermanência, mas há também continuidade.

Conforme aprendemos a ser pobres na meditação, conforme aprendemos o que o mantra nos ensina, nós aceitamos nossa mortalidade, aceitamos a morte e morrer como parte de nosso desenvolvimento, aprendemos a praticar o desapego, a não- possessividade, a não-aquisibilidade e todas as negociações com as outras pessoas.

Tememos à pobreza, mas em certa medida aprendemos que é a pobreza que nos leva à alegria do reino, a alegria de soltar-nos. Na pobreza, possuímos apenas o que é necessário, nada mais, nada menos. Mas nessa pobreza deparamos com o enfrentamento do medo, um medo vasto e real em nós. É o tipo de medo que você sente ao encontrar-se na beira de um penhasco. Pessoas frequentemente sentem-se na beira de um penhasco em certas etapas na jornada da meditação, o sentimento de estar no topo, de ter que soltar. Pode talvez haver alguma razão fisiológica ou biológica para isso, mas esta imagem de estar no topo, na beira do precipício, é muito comum, muito poderosa, o ego resiste ao salto final. O ego quer retroceder. O ego, que é uma pequena ilha onde a consciência está ausente, uma turbidez na luz, quer fingir que é a luz toda. E o ego, que certamente tem um papel importante a desempenhar, não é dissolvido por drogas ou autonegação ou auto complacência, ou por esforços da vontade. Tudo isso apenas o reforça, e o crava mais profundamente em seus medos e desejos. O ego é dissolvido somente pelo amor, ao abrir-se ao que permanece aquém dele, a verdadeira luz da qual ele é apenas reflexo túrbido.

Na quietude da meditação defrontamo-nos com o ego como a fonte de nossa distração, nossa mente errante, ao mesmo tempo que nos torna cientes do quão distraídos somos nos outros períodos, não somente quando sentamos para meditar, mas o quanto podemos estar distraídos em tudo o que fazemos, nunca satisfeitos em fazer uma coisa de cada vez.

Se pobreza significa possuirmos somente o que precisamos, quietude significa fazermos somente o que precisamos fazer. Este é o motivo pelo qual, ao meditarmos, cessamos todo o pensamento desnecessário. É o pensamento desnecessário que nos comanda, que é descontrolado, que nos leva para nossas fobias, para nossas insônias, para nossas fantasias, para nossa paranoia.

Não conseguimos aprender a ficar em silêncio sem aprender a amar-nos a nós mesmos. Nós aprendemos através da quietude da meditação a tratar nossa própria raiva com compaixão, nossa irritabilidade com compaixão, nosso julgamentalismo com compaixão e com tolerância e com não-violência. Começamos a entender vagamente, ao iniciarmos a escola do amor, que este amor a si mesmo leva ao amar os outros e a amar a Deus, este é o uno amor. É a mesma realidade.

Necessitamos dos outros, mas a solitude é necessária para tornarmos aptos a conviver com os outros e amar os outros. Salvo estejamos aptos a aprender a ser livres por nós mesmos e em nosso íntimo, não será possível aprendermos a ser verdadeiramente amorosos na relação com o outro. E esta solitude é o primeiro passo a ser aprendido ao sentarmo-nos em quietude para a meditação.

Solitude significa aprender a aceitarmos nossa unicidade – um conceito apavorante, de que somos completamente únicos no universo. Nós nunca acontecemos antes e nunca seremos repetidos. Somos completamente únicos. Mas só nos apercebemos disso se pudermos ver além da visão limitada pelo ego. Ver isto é experimentar uma expansão do espírito, o que por si mesmo pode ser um tanto amedrontador, porque expandir significa soltar aquilo a que estamos agarrados. Mas este é o significado da solitude.

Amar a nós mesmos significa amar a Deus. Significa vivenciar uma profunda gratitude interior pelo mistério de nossa criação, pelo mistério de simplesmente existirmos, o mistério de Deus existir anteriormente a nós; vivenciar que emergimos do insondável mistério de Deus, do amor de Deus, e de alguma maneira, nascemos do amor de Deus.

Amar a nós mesmos significa viver a vida com profunda gratitude por ser, e dá sentido a ideia de orar a Deus. Eu não acho que podemos orar a Deus a menos que tenhamos aprendido a amar a nós mesmos. Odiar-nos, por outro lado, é odiar a Deus. Qualquer que seja a imagem piedosa que façamos de Deus, se não formos capazes de amar-nos a nós mesmos, realmente odiamos Deus; e a expressão disto frequentemente será em nossa relação com os outros. A realidade que encaramos ao aprender a amar a nós mesmos, a realidade que encaramos na quietude, pode ser dura, mas vê-la nos cura.

Se aprendermos a ver a realidade, ela nos cura. Somente vendo-a, ou simplesmente vivendo a realidade, seu efeito curador se realiza. Traz-nos um novo tipo de espontaneidade, o vigor da vida, um direcionamento à experiência, a espontaneidade de uma criança, a espontaneidade que precisamos recuperar para entrar no reino. É a espontaneidade da moral autêntica, de fazer a coisa certa com naturalidade, não de viver nossa vida por livros de regras, mas viver nossas vidas pelo que D. John Main diz ser a única moral – a moral do amor.

Esta experiência de amor por nós próprios nos dá uma capacidade renovada de viver a vida sem esforço. A vida torna-se menos empreendimento árduo, menos uma luta, menos um esforço para viver, e revela-nos o que todos vislumbramos, de alguma forma em algum momento, através do amor, que nossa natureza essencial é a alegria, no interior profundo somos seres alegres. Se pudermos aprender a saborear as dádivas da vida, poderemos ver o que a vida realmente é, que saborear as dádivas da vida capacita-nos a aceitar suas tribulações, suas dificuldades, seus problemas e sofrimentos. Isto é o que aprendemos tranquilamente, devagar, dia a dia, quando meditamos.

Passamos a entender a maravilha do que é ordinário. Passando a estar menos viciados a perseguir tipos extraordinários de estimulação, excitação, entretenimento ou distração. Passamos a encontrar, nas coisas bem ordinárias da vida cotidiana, que esta radiação inerente do amor, o todo-presente poder de Deus, está em todos os lugares todo o tempo.

Mas pode custar-nos trabalho duro. Há uma bela estória sobre um discípulo de Buda que era um discípulo bastante lento para aprender, nada brilhante, que tentou arduamente algumas vezes, mas que não compreendia nada do que Buda tentava ensinar-lhe sobre a verdadeira natureza da realidade. Buda ficou um tanto exasperado com este discípulo, e um dia deu-lhe um desafio. Ele deu ao discípulo um saco muito pesado de cevada e disse: “Leve isso. Corra para cima da montanha.” Era uma montanha alta e íngreme e ele disse: “Corra subindo a montanha com este saco de cevada.”

O discípulo, que era muito lento para aprender mas muito obediente e queria alcançar a iluminação, pegou o saco de cevada em seus ombros e correu subindo a encosta íngreme da montanha e não parou, da forma como foi dito a ele que fizesse. Ele não parou, e chegou ao topo da montanha completamente exausto, totalmente exausto. Ele largou o saco de cevada, no momento da total soltura, ele foi iluminado. Sua mente se abriu. Ele voltou e mesmo a certa distancia Buda viu que ele estava iluminado.
Então é um trabalho duro, essa aprendizagem de ser silente, essa aprendizagem de amar-nos a nós próprios. É um trabalho duro, mas é um trabalho que fazemos em obediência, não alheios a nossa vontade. É em obediência ao nosso mestre, o Senhor Jesus. É em obediência ao mais profundo chamado de nosso ser, o chamado para sermos nós mesmos.

 

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