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Amando aos outros

 

Isto é do Evangelho de São João:
Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como Eu vos amei, amai-vos também uns aos outros. Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns pelos outros». João 13:34-5
O primeiro aspecto do amor é o amor ao si mesmo – chegar a uma verdadeira auto aceitação, verdadeiro auto conhecimento e então portanto transcendermos a nós mesmos.

Nós podemos falar sobre isso, e teologizar e psicologizar sobre isso, mas o que precisamos saber é como fazê-lo. Acho que a grande dádiva da meditação é que ela nos mostra, em uma experiência real muito pessoal, que para aprender a amar a nós mesmos nós devemos aprender somente a ser silentes, chegar a quietude. Ao encararmos esse mistério do amor, chegamos ao entendimento que o amor a si é a condição necessária para obedecer a esse mandamento de Jesus: amar ao outro, amarmos uns aos outros.

Nós não podemos amar os outros até que tenhamos criado os alicerces para o amor a nós mesmos. Ou para colocar de outra forma, já que não é tudo preto no branco assim, o tanto possamos amar a nós mesmos é o tanto que conseguimos amar aos outros. É um grande desafio porque alguns psicólogos nos dizem que o ego tem a maioria suas defesas formadas na idade de três anos. Nesta idade, não temos muito controle sobre o que fazemos ou como nos apresentamos. Mas temos tempo e temos que usar o tempo que temos aproveitando da melhor maneira, e estes pequenos mecanismos do ego são necessários para isso. São necessários para a primeira e segunda etapas de aprender a amar. Nós precisamos do ego para amar a nós próprios, precisamos do ego para amar os outros. Precisamos particularmente do ego para amar os outros, porque precisamos ser capazes de ver o outro como “outro”. Não podemos dar um salto além de nossa própria visão limitada de mundo, a menos que possamos ver o outro como sendo diverso de nós. Este é o primeiro passo.

O segundo passo é ver que o outro não está separado de nós. Mas ter tido aquela primeira percepção é necessário, e portanto precisamos do ego, que é o processo de separação. Nós precisamos do desenvolvimento do ego, particularmente nos primeiros anos, para separar do útero, para separar do peito, para separar da mãe e do pai e da família e dos amigos e assim por diante – para sermos capazes de separar e nos por de pé, e aprender a assumirmos o desafio de sermos nós mesmos. O ego é um processo psicológico necessário que nos capacita para o advento da separação. É doloroso, é traumático, mas é necessário.
Mas o ego é também uma barreira. É o mecanismo que possibilita o estabelecimento do primeiro estágio da separação, mas usualmente transforma-se em barreira porque tranca-nos numa visão de nós próprios como permanentemente separados.

Quando estávamos lá, flutuando no fluido amniótico do útero, estávamos em um estado de união indiferenciada, comunhão, com o universo como um todo; não há separação entre mim e tudo que existe. Mas para nos tornarmos inteiramente vivos, temos que vivenciar uma ruptura, uma quebra, uma separação do senso de totalidade, aquele senso de comunhão inconsciente. Devemos experimentar na comunhão uma quebra para tornarmo-nos totalmente conscientes da comunhão. E este é o padrão que devemos aprender a reconhecer no decorrer de nossas vidas, a morte e renascimento existentes em todo relacionamento.
Mas por o ego desgostar naturalmente da dor presente neste processo, o ego não vê muito além da dor e do prazer. O ego não vê nenhum significado irrefutável no sofrimento. O ego eventualmente vem a reconhecer o padrão deste processo de crescimento e resiste a ele; e consequentemente nos tornamos estagnados, fixos, trancafiados ao nível de desenvolvimento do ego. O ego torna-se então uma barreira que devemos aprender a transcender, viver além dela. Não podemos seguir o Mestre que nos chama a menos que abandonemos a nós mesmos. Então o ego é como um barco que nos leva a outra margem, mas então precisamos abandoná-lo.

Quanto mais conscientes tornamo-nos deste processo, mais conscientes nos tornamos de que a vida mesma é relacionamento; que a vida é sobre relacionamento, e que os relacionamentos são uma dádiva de Deus para nós. O maior símbolo disto é Deus. Tudo o que nossa tradição e nossos ensinamentos nos falam de Deus simbolizam a sacralidade do amor humano, das relações humanas.

Deus é uma comunidade de amor – não um ser isolado, mas uma comunidade de pessoas. Se Deus é amor, necessariamente Deus é pessoal. O amor não pode ser impessoal; isso é uma contradição me termos. Deus não é para nós algo muito além de nossa habilidade de experimentar ou entender. A palavra ‘Deus’ é um símbolo da totalidade e realização da pessoa humana em estado divinizado. E Deus é um símbolo maravilhoso da sacralidade das relações humanas para nós. A Trindade –Pai, Filho e Espírito- as relações que formam este mistério de Deus: recebendo o amor e entregando e transcendendo-se em êxtase.

A criação é o êxtase de Deus, o êxtase desta comunhão de amor; e as relações humanas são os meios essenciais para a realização deste estado de completitude, que é Deus. Nossas relações humanas são os sacramentos, as manifestações afetivas. É uma manifestação do que está ocorrendo dentro de você. É uma manifestação externa de uma realidade interna, mas também é uma manifestação efetiva. No sentido de que realmente traz a tona o que está ocorrendo. Não é somente uma fotografia, mas parece mais a um cartão de identidade que lhe permite passar por uma barreira de segurança. É um sinal afetivo manifesto, uma imagem ou símbolo afetivo. É por isso que não podemos amar a Deus sem amar aos outros, e não podemos amar aos outros sem amar a Deus: “Todo aquele que ama conhece a Deus.” 1 João 4:7

 

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