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Como amar aos outros


O amor é nossa verdadeira natureza e a verdadeira direção de nosso desenvolvimento. É a direção para a qual precisamos estar crescendo sempre. Esta ideia global, nós podemos aceitar – e pode soar inspirador quando pensamos sobre isso – mas fica-nos colocado um problema, um desafio, de como isto é vivenciado na realidade. Podemos acreditar na ideia, mas como a vivenciamos? Em que medida nós olhamos para os relacionamentos de nossa vida como a terra sagrada de Deus; como sacramentos de Deus, e como os meios que nos foram dados para perceber nosso destino em Deus?

É possível amar os outros, em outras palavras? É realmente possível? E o que significa? Eu acho que, se formos honestos, diríamos que há muitas evidências para afirmar que é impossível amarmos uns aos outros, pelo menos em considerável medida. Por exemplo, podemos amar pelo menos aqueles que são os mais próximos a nós? Pense somente naquelas pessoas com quem estamos morando; compartilhando com eles ou elas nossas vidas, em família, com nossos amigos ou cônjuges. Sabemos que o que frequentemente ocorre tais relações mais estreitas na vida é que iniciam-se com uma experiência de extrema simpatia, reconhecimento, empatia, romance, entusiástica aceitação mútua – nos apaixonamos. Não estou falando de casamento apenas. Estou falando de todas as relações próximas, da amizade a pessoas reunindo-se em comunidades religiosas, e assim por diante, incluindo casamento. Seja quando for que iniciemos uma relação que nos leva próximos de uma outra pessoa ou grupo, nós usualmente o começamos tendo esta experiência inicial de atração. Nós sentimos, por exemplo, neste primeiro estágio, que nunca estaremos solitários de novo; encontramos a resposta. Pode-se observar isso nas comunidades e, evidentemente, em casais nos primeiros tempos de amor. E então, tais primeiros momentos começam a desaparecer.

Eu me lembro de recentemente ter conversado com uma mulher, avó, que me disse que passou a desempenhar um papel curioso com os netos e netas, porque eles passaram a levar para o chá com ela as noivas e noivos, e sentam-se e conversam, e apresentam o moça ou moça com quem estão pensando em casar. Ela disse que adora conhece-los, mas quando saem, e ela limpa as coisas usadas para o chá, ela pensa consigo mesmo na aposta equivocada que estão fazendo. Se eles pelo menos soubessem que seis meses ou um ano ou dezoito meses depois de casados eles vão acordar um dia se perguntando ‘Quem, por favor, é essa pessoa com quem estou passando minha vida?” E este acordar pode trazer conflitos para estas relações íntimas de nossa vida, onde percebemos as diferenças entre nós mesmos e as pessoas ou características que nos atraíram tanto. Iniciamos com isso intensas lutas. Demandas e expectativas começam a formar-se nas áreas de conflito. As relações frequentemente tornam-se em relações de acusação. Acusamos a outra pessoa ou a comunidade ou as estruturas de terem nos desapontado. E então ao acusarmos, usualmente tentamos de alguma forma punir ao outro que nos desapontou.

Como podemos amar os mais intimamente próximos de nós, então? Eu acho que precisamos como primeiro passo aprender a ver a relação próxima, relação íntima, como a terra ou o espaço em que estamos com o outro juntos. Estamos juntos nessa relação. Em outras palavras, não é a minha relação, mas é a relação que nos une. Estamos como iguais partilhadores no mistério dessa terra sagrada. Muito frequentemente, essas relações íntimas em nossas vidas, não as escolhemos. Muito frequentemente, nós a vemos como dádivas, pessoas ou comunidades que chegam às nossas vidas como dádivas de Deus, manifestação da natureza de Deus através da relação humana. Então precisamos ser capazes de ver nossas relações com estes mais próximos a nós não mais do ponto de vista egocêntrico onde eu sou o centro da relação (esta é minha relação, esta é minha esposa, meu marido, meu amigo, meu irmão ou irmã) mas que a relação envolve nós todos. O primeiro passo, eu acho, para aprender a amar os mais íntimos a nós, é perceber que a relação não pertence a ninguém dentro dela, mas é aquela terra na qual desenvolvemo-nos para além de nossos egos.

O caminho pelo qual aprendemos a amar os outros dentro da relação é abstermo-nos de nossas projeções para eles. O caminho pelo qual aprendemos a amar nós mesmos é nos aquietar. O caminho pelo qual aprendemos a amar uns aos outros é abstermo-nos de nossas projeções para eles. E nossas projeções sobre os outros são de dois tipos. Há as projeções positivas: ‘Esta pessoa é a pessoa mais maravilhosa que poderia ter encontrada no mundo.” “Esta é a melhor comunidade que entrei na vida; me deu tudo que buscava.” “Esta relação vai me completar e satisfazer; responde a todas as minhas necessidades e vai curar todas as feridas que eu possa ter.” Dessas projeções idealísticas devemos nos abster. Para amar os outros, não podemos condená-los a atuar conforme as projeções idealizadas por nós. Afastar essas projeções é um grande passo na maturidade e é o trabalho, é evidente, que realizamos na meditação.

Ao entrarmos na solitude de nossa própria unicidade, nós naturalmente afastamos essas partes de nós que projetamos exteriormente nos outros através de fantasias. Esta é a razão pela qual nossas relações modificam-se conforme meditamos dia a dia. Mas se não afastarmos essas projeções, então o “amor”, entre aspas, que nós inicialmente sentimos por aquela pessoa que tornou-se nosso ídolo ou ideal, inevitavelmente transforma-se em ódio, em conflito. Algumas vezes você continua relacionamentos com essa pessoas ou continua a viver com elas mesmo assim. Nós todos conhecemos relações, casamentos, em que pessoas estiveram juntas apenas brigando por trinta anos, combatendo porque desapontaram umas as outras nas suas expectativas iniciais. Conhecemos também muitos casamentos, muitas relações, muitas pessoas em comunidades que passaram por estas dolorosas etapas inicias aprendendo a amarem-se umas as outras. Elas afastaram suas projeções e aprenderam a deixar a outra pessoa ser quem ela é, com suas culpas e imperfeiçoes, e a aceitar aquelas pessoas como são e a conhecê-las como são, e então realmente tornarem-se capazes de reverenciá-las e amá-las. É somente quando podemos aprender a aceitar os outros como são, em sua imperfeição, na sua pecaminosidade, nas suas fraquezas, na sua infidelidade; é somente quando podemos aprender a fazer isso e que podemos entende-los como sacramentos de Deus, e nossa relação com eles como nosso meio de perceber nossa união com Deus.

 

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