Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Séries de Palestras

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Como amar a humanidade

 

Ao aprendermos a amar as pessoas mais próximas a nós, devemos abandonar nossas projeções positivas, nossas fantasias. Quando aprendemos a amar pessoas de quem somos inimigos, devemos abandonar nossas projeções negativas. E para aprender a amar todo mundo, devemos abandonar nossas abstrações.

Devemos abandonar nossa mente estatística, que é a maneira como frequentemente atentamos para o sofrimento dos outros. Fazemos isso em escala global quando falamos sobre quantas centenas de milhares de pessoas com Aids vão morrer. Pensamos nele em termos de notáveis estatísticas. Às vezes conduzimos essa atenção através do trabalho social, em hospitais ou em outros lugares, aonde vamos para um treinamento – necessário talvez, e significativo como treinamento – mas então começamos a tratar o paciente ou o caso como se fossem apenas um livro texto para estudo. Para amar a humanidade é necessário que estejamos capacitados a tratar cada um de seus membros como um indivíduo único.

Aqui encontramos uma grande diferença entre compaixão e pena. Pena é quando amamos alguém que está sofrendo, mas este amor está ainda ligado ao nosso próprio medo. Quando vemos o sofrimento de alguém, por exemplo, quando vemos alguém morrendo, não podemos evitar temer nossa própria morte. E se somos controlados por esse medo, mesmo que inconscientemente, temos pena da pessoa que vai morrer. “Coitada”, dizemos. Há entretanto algum lugar onde nosso amor encontra o sofrimento do outro e liberta-se desta dinâmica do medo, rompe esta dinâmica do medo egocêntrico de nós mesmos, nós não mais pensamos na outra pessoa que sofre como coitada; pensamos nelas como nós mesmos. Elas não estão separadas de nós.

O significado da compaixão é que reconhecemos, que choramos com aqueles que choram, que morremos com aqueles que morrem, que sofremos com aqueles que sofrem. Esta é a compaixão de Cristo, que uniu nele toda a humanidade: Quando você deu um copo de água a um homem que tinha sede, você o deu a mim. O que você fez ao menor de meus pequenos, você o fez a mim. (Mateus 10:42; 25:40)

Então nosso amor ao nosso interior, que aprendemos na quietude da meditação, nos conduz sem rodeios e naturalmente ao amor aos outros. Mas então, ao aprendermos a aceitar as relações de nossas vidas como a terra sagrada e sacramentos da existência divina, ao aprendermos a vivenciar o relacionamento com os outros, é inevitável que aprendamos também a habilidade humana, a arte humana, de abandonar nossas projeções para as pessoas, se acontecer de as amarmos. Para amar os outros, da mesma maneira que para amar a nós mesmos, é essencial deixarmos os outros serem quem são.

A única maneira de manejar a complexidade das relações humanas é aprender a amar: a aprender que o amor é a única força unificadora em toda relação humana, seja na relação com aqueles mais próximos a nós, com aqueles que nos machucaram e podem não terem se arrependido de como nos machucaram, ou como nos relacionamos com a humanidade em sua abrangência – com o beberrão na rua ou com o sofrimento que vemos nas telas da televisão. É o mesmo amor que nos conduz a todos esses relacionamentos. A única maneira de manejar a complexidade das relações humanas, que são tão complexas, é a simplicidade do amor; no amor onde não julgamos, no amor onde não competimos, mas onde aceitamos, onde reverenciamos, e onde aprendemos compaixão. E então, ao aprender a amar os outros, libertamos a alegria interior de ser, a alegria de ser que irradia de nós para o exterior, através de nossos relacionamentos, tocando os outros através de nossos relacionamentos. É por isso que as comunidades e famílias e casamentos não existem somente para a realização destas pessoas imediatamente ligadas a estes relacionamentos. Existem também para irradiar para fora o amor da família, o amor dos pais, o amor dos indivíduos da comunidade, além de si; irradiando esta alegria, a simplicidade do amor é mostrada para além daquele núcleo, para tocar todos que vierem a ter contato com ela.

Esta era a visão de D John Main sobre a comunidade, uma comunidade que se fez possível – não que tenha se feito perfeita, mas se fez possível – através do comprometimento que fazemos à mais profunda relação de nossas vidas, que é a relação com Deus. E isto é porque, ao aprender a amar os outros, somos conduzidos a uma nova visão, a uma nova percepção da unicidade da criação, para a simplicidade da vida, quando vemos o que significa dizer que o amor sobrepõe-se a uma multiplicidade de pecados; o motivo de o perdão ser a força mais revolucionária e transformadora do qual somos capazes. E nos ensina como amar é a dinâmica essencial de todos os relacionamentos, do mais íntimo ao mais casual. E é a regularidade de nossa meditação que nos revela o quão universal é o caminho do amor.

Isto é da Primeira Carta de João
Vede que manifestação de amor nos deu o pai: sermos chamados filhos de Deus. E nós o somos! Se o mundo não nos conhece, é porque não o conheceu. Amados, desde já somos filhos de Deus, mas o que nós seremos ainda não se manifestou. Sabemos que por ocasião desta manifestação seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é. Todo o que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, como também ele é puro. Filhinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas em ações e em verdade. Este é o seu mandamento: crer no nome do seu Filho Jesus Cristo, e amar-nos uns aos outros conforme o mandamento que ele nos deu. (1 João 3:1-3;18;23)

 

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