Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Como Amar a Deus

 

Se aprendemos a amar-nos a nós próprios estando silentes, e aprendemos a amar os outros retirando o nosso jeito de projetar sobre eles nossas próprias emoções, aprendemos a amar a Deus simplesmente por sermos amados, ao permitir sermos amados. Nosso amor por Deus origina-se do amor de Deus por nós. ...Não fomos nós que amamos a Deus, [diz São João] mas foi ele que nos amou e enviou-nos seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados. Quanto a nós amemos, porque ele nos amou primeiro. (1 John 4:10,19)

Não há nada mais óbvio de que Deus tenha nos amado primeiro; Deus nos criou de seu amor por nós. Nada é mais óbvio, mas é do óbvio que sempre nos esquecemos. O que aprendemos na meditação é a lembrar que Deus nos amou primeiro, e ao abrir-nos para esta verdade, ao aceitarmos essa verdade, experienciamos o amor de Deus inundando o mais íntimo de nosso coração pelo espírito santo que ele nos deu. Nós nos experimentamos amados, nós aceitamos que somos amados, nós nos deixamos amar. Isto é o que estamos fazendo na meditação. E como um resultado disso é que nos tornamos capazes de amar a nós mesmos, amar os outros, amar a Deus.

A grande resistência a isso é o ego. O ego quer amar a Deus primeiro, e é claro que o ego está sempre querendo se colocar em primeiro. Mas conforme aprendemos a atuar além da egocentricidade que tenta nos fazer amar a Deus antes que Deus nos ame, ou até tentando amar a Deus para que então Deus nos ame – todas as complexas maneiras pelas quais o ego tenta manipular e controlar até mesmo Deus ou a imagem que faz de Deus – conforme aprendemos a nos recentrar no verdadeiro centro da realidade, a realidade de que Deus nos ama primeiro, então a experiência de ser amado, que é tudo o que significa redenção, impele-nos a uma resposta.

Você não deve nem mesmo tentar amar os outros. É impossível tentar, forçar-se a amar a alguém, forçar-se a amar a si próprio. Não é um ato da vontade. Nós somos impelidos pela essência da natureza da experiência de sermos amados a tornarmo-nos amantes. Ela nos revela nossa verdadeira natureza e nosso verdadeiro potencial.

Mas claro, não podemos limitar esta experiência do amor de Deus por nós somente a nossas emoções, ao que sentimos; nem mesmo à mente, nossas ideias de Deus. È mais profundo que ambos, a experiência do amor de Deus inundando nossos corações. É mais profundo que a mente e mais profundo que as emoções. Nos faz abertos para a relação fundamental com nosso ser, a identidade mais profunda que temos. E é neste relacionamento com Deus que todos os outros relacionamentos, incluindo nosso relacionamento com nós mesmos, lança raízes. O que pode ser mais profundo que nosso relacionamento com nós mesmos? O que é mais profundo é nosso relacionamento com Deus, a procedência de nosso ser. É claro que esta experiência de ser amado por Deus inunda a mente e inunda as emoções, e até mesmo inunda o corpo. Ela transfigura todos os aspectos de nosso ser – corpo e mente, todos os níveis da mente. Mas é mais profundo que isso. Precisamente porque pode tocar todas as partes de nosso ser, incluindo nosso corpo, é mais profundo que tudo isso. Pode ser percebido pela mente em algum grau, e pode ser sentido pelas emoções, e as emoções são parte do corpo. Quando nos tornamos completos, quão mais completes nos tornamos, mais integrados nos tornamos, mais nos tornamos conscientes de que o amor de Deus não é somente a radiação primária do universo, é aquilo pelo que nós como pessoas completas estamos imergidos.

Aqui descobrimos um dos grandes frutos da meditação, no qual esta experiência de Deus, silenciosamente e permeada pela quietude, que deixa de restringir-se à autoconsciência, desenvolve-se e floresce em nós dia a dia com nossa jornada na meditação. Esta experiência de Deus remete-nos às palavras e imagens da escritura. Ela modifica nosso conhecimento de Deus assim como modifica nosso conhecimento de nós mesmos. Acho que passamos a observar frases, palavras, imagens na escritura que não notávamos antes. Notamos por exemplo que Jesus mostra Deus como Aquele que é verdadeiro [Jo 7;28]; notamos que São Paulo mostra Deus como o Autor [Hb 5:9], o Objetivo e o Guia. Começamos a entender o que São Joao quer dizer ao dizer que Deus é maior que nosso coração [1Jo 3:20], um conhecimento muito libertador que podemos somente principiar a entender a partir de nosso própria experiência de Deus. Que Deus é maior que nossa consciência significa que Deus é anterior a nossa autoimagem, anterior a nossa culpa, anterior ao nosso medo de sermos punidos. Deus, como diz São João, conhece todas as cousas [1Jo 3:20].

E nós aprendemos, pela combinação de nossa própria experiência com os ensinamentos, o conhecimento da tradição dos sábios iluminados do passado. Nós aprendemos que a moralidade é a moralidade do amor; que o perdão e a compaixão não são sinais de fraqueza ou compromisso ou condecendência, mas perdão e compaixão são a verdadeira estrutura da realidade. Este é o Deus que ama igualmente os bons e os maus.
“O amor vem de Deus” diz São João. “Todo aquele que ama é filho de Deus”.

Esta experiência de amar a Deus está enraizada na nossa capacidade de sermos amados. E é a grande qualidade de uma criança que uma criança quer ser amada. É o mais natural; talvez a única coisa que uma criança deseja com todo o seu ser é ser amada. É esta capacidade como a da criança de ser amada que nós resgatamos na meditação, nossa primeira e verdadeira identidade como filhos de Deus – desejando ser amados, e aceitando a pobreza, a vulnerabilidade de precisarmos ser amados – é o que nos cura. É esse auto conhecimento, essa visão da realidade, que nós cura e cura a pessoa completa; e a pessoa completa inclui a realidade psicológica que somos como filhos de nossos pais, como maridos ou esposas, ou amigos, ou irmão ou irmão, ou o que sejamos. Esta realidade psíquica que é sobre o que pensamos a maior parte do tempo, lutando com ela, é parte real de nós, mas não é a pessoa completa. Aqui está a diferença básica entre o caminho do espírito e o caminho da psicologia. Nossa identidade primordial é nossa identidade como filhos de Deus, e é ao descobrir e ao conhecer isso que libertamos poderes cósmicos de cura e renovação.

São João diz que Deus nunca foi visto. Em outras palavras, Deus nunca pode ser um objeto exterior a nós. É a mente que esta sempre criando objetos; a mente que está sempre criando uma realidade externa. Nós fazemos isso continuamente, e esta é a causa da necessidade de irmos na oração para além da mente, para o espaço de nosso ser – o coração, o espírito – onde não há objeto externo a nós; onde compreendemos estar em relacionamento, em comunhão, na dança da existência, com tudo que existe, em Deus. E isto é ao que cada um de nós é chamado, e do que cada um de nós é capaz. É por isso que em nossa meditação nós nos rendemos a Deus. Nós cedemos às todas as ideias ou imagens de Deus como sendo um objeto que pode ser visto, ou uma coisa que pode ser pensada, uma coisa externa a nós. Deus nunca foi visto, mas habita em nós se nos amamos um aos outros. Esta é a estrutura completa da vida Cristã. Deus não pode ser visto, mas habita em nós, se amarmos uns aos outros. O amor é então aperfeiçoado [1Jo 2:5], diz São João.

Estes aspectos do amor sobre os quais temos refletido nos mostra que o amor é uma escola. Aprendemos a amar amando. A meditação é a principal tarefa pela qual aprendemos. Aprendemos pela meditação que o amor é a única coisa pela qual seremos avaliados no final de nossa vida, como as pessoas fazem quando sabem que estão morrendo. Os valores pelos quais elas se avaliam são s valores do amor, valores de seus relacionamentos. A única coisa que as pessoas realmente querem fazer antes de morrer é, tanto quanto possível, colocar seus relacionamentos em boa condição, e estarem certos de que apropriam-se deste passo final de transcendência com tanta energia em livre-fluir neles quanto seja humanamente possível a eles.

À luz dessa experiência de meditação, nós estamos aptos a ver o equilíbrio do amor em nossas vidas; este grande força do equilibradora do amor que nos cria, que nos acompanha através de nossas vidas; que cura – as vezes dolorosamente – que cura e nos ensina; o amor que está conosco, que nos acompanha na jornada. Não o amor que estamos tentando obter, mas o amor que está constantemente conosco. Nossos olhos estão abertos, pela meditação, para ver o quanto esta força do amor está presente no centro de nosso desiquilíbrio, toda nossa teimosia, toda nossa distração. Até na distração de nossa meditação nós conseguimos entender, perceber, sentir com mais e mais profundidade, a presença da paz. E o que ela também nos ensina, a medida que ensina-nos a nos amar, a amar aos outros e a amar a Deus, é que todos os relacionamentos são aspectos de um relacionamento.

Deus é amor: aquele que permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele. Nisto consiste a perfeição do amor em nós: que tenhamos plena confiança no Dia do Julgamento, porque tal como ele é também somos nós neste mundo. Não há temor no amor: ao contrário: o perfeito amor lança fora o temor, porque o amor implica castigo, e o que teme não chegou à perfeição do amor. Quanto a nós, amemos, porque ele nos amou primeiro. (1 João 4:16-19)


Não há nada mais óbvio de que Deus tenha nos amado primeiro; Deus nos criou de seu amor por nós. Nada é mais óbvio, mas é do óbvio que sempre nos esquecemos. O que aprendemos na meditação é a lembrar que Deus nos amou primeiro, e ao abrir-nos para esta verdade, nós nos experimentamos amados, nós aceitamos que somos amados, nós nos deixamos amar. Isto é o que estamos fazendo na meditação. E um resultado disso que nos tornamos capazes de amar a nós mesmos, amar os outros, amar a Deus.

 

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