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Amando a Deus

 

Há sempre uma grande lacuna entre Deus em nossa mente e Deus em nosso coração. A meditação nos ensina que precisamos renunciar o Deus de nossa mente, para que possamos amar a Deus. Devemos persuadir além da imagem que se formou em nossa mente para que possamos encontrar a realidade. Não podemos estar unidos sem essa experiência de renúncia.

Gostaria de abordar o terceiro aspecto do amor, que é o amor a Deus. Há uma estreita relação entre a maneira como imaginamos ou o que pensamos sobre Deus, e a maneira como experienciamos Deus. Parte dos problemas que enfrentamos ao nos propor a meditar é que frequentemente há uma grande lacuna entre o que pensamos sobre Deus, o Deus em nossa mente, e o que experienciamos de Deus, o Deus em nossos corações; entre o Deus além das imagens e o Deus do qual fizemos uma imagem.

Esta lacuna entre imagem e experiência, ou pensamento e experiência, é uma das feridas, uma das fragmentações de nosso interior, que é curada com a meditação. É uma ferida ou fragmentação que usualmente, para a maioria de nós, começa na infância.

A maioria de nós pode provavelmente lembrar-se de uma experiência de Deus nos primeiros anos de nossa infância, uma experiência direta e completa. Pode ser uma experiência de amor transbordante, uma experiência de júbilo incontido ou uma experiência, que ocorre bastante em crianças, de profunda unicidade com tudo o que está em volta delas; talvez na natureza, simplesmente olhando uma árvore; um sentimento de ser puxado para a unidade da criação. Uma criança pode ter esta experiência muito profunda e integralmente, mas uma criança não tem conceito que a torne apta a classificar esta experiência, a descrevê-la. E o que acontece com certeza é que as imagens, os conceitos de Deus com os quais a criança é informada e formada em seu desenvolvimento religioso, muitas vezes não carrega relação nenhuma com a experiência que ela teve; e frequentemente, mesmo que ela fale sobre aquela experiência ou a compartilhe, o relato não estará ligado a Deus, à presença real de Deus.

É muito mais frequente que nossa imagem de Deus esteja ligada, não com estas experiências de amor, de júbilo, ou de união, mas relacione-se com experiências de autoridade e punição. A criança pequena é ensinada a pensar em Deus como um tipo de super progenitor. Certamente já a palavra mesma que usamos para referir-nos a Deus, Pai, carrega nela, na formação moral da maioria das crianças, a imagem de uma pessoa da família que corrige, que disciplina. A ideia de Deus como pai carrega, portanto, este senso de controle, este senso de dominância. E onde há punição ou este tipo de relação com a autoridade, há usualmente medo. Tememos ser punidos; tememos ser mandados para o inferno.

Então existe, para a maioria de nós, uma profunda desarmonia entre o que pensamos sobre Deus, a poderosa imagem de Deus que opera em nossa memória, e a verdadeira experiência de Deus que podemos ter tido como crianças, e que podemos até experimentar na atualidade. O que aprendemos na meditação é abandonar todas as imagens que podemos ter formado de Deus ao longo dos anos. E ao abandonarmos todas as imagens, todo o imaginário, todos os conceitos de Deus que formamos, nós reconquistamos a capacidade da criança de experienciar integralmente a Deus, a criança para quem a experiência não é controlada pelos conceitos. É por isso que Jesus diz que para entrar no reino, que é a experiência direta de Deus, devemos tornamo-nos como é uma criança pequena.

Ao entendermos isso, entendemos que a única imagem de Deus que é adequada é a de nós mesmos. Nós somos a imagem de Deus, e essa imagem de Deus realiza-se magnificamente em Jesus, Jesus que reflete para nós a imagem de quem verdadeiramente somos. Ele é o espelho de nosso verdadeiro eu, é a imagem do Deus invisível, como São Paulo o descreve.

A meditação está sempre nos mostrando que precisamos libertar Deus, o Deus de nossas memórias, o Deus de nossos conceitos, para podermos amar a Deus. Esta é uma lição que aprendemos através de todos os relacionamentos humanos. Para amar, precisamos libertar: precisamos nos colocar para além da imagem da pessoa que possa ter se formado em nossas mentes para encontrar a realidade. E uma relação só poderá ser profunda e duradoura se nos transpusermos da imagem para a realidade mais além – se nós libertarmos a pessoa que amamos. Não podemos nos unir sem esta experiência de renúncia.

E só podemos conhecer Deus pelo amor. Este é o grande ensinamento de toda a tradição Cristã. Deus não bode ser abarcado em nenhum pensamento, nem em nenhum lugar, em nenhum ritual ou nenhuma manifestação exterior. Mas Deus pode ser conhecido pelo amor e, portanto, é necessário que aprendamos como amar a Deus.

Eu me lembro de, há algum tempo, ter estado com uma mulher que estava morrendo. Ela estava atormentada pelo medo de que ela não amasse a Deus. Ela era uma boa mulher, que havia vivido uma vida com bondade, mas que se defrontava com esta tremenda angústia em seu leito de morte, e foi somente de modo lento e doloroso que ela pode chegar à compreensão de que este seu simples desejo de amar a Deus era ele mesmo aquele necessário amor a Deus.

A vontade de amar é amar, mas o completo desabrochar do amor leva tempo. O completo desabrochar do amor envolve uma troca de identidade, uma poda de nossa vida e a descoberta do outro, e de nós mesmos no outro. Nós encontramos não mais no isolamento da nossa consciência delineada pelo ego, mas nos encontramos então em um relacionamento, existindo com o outro, com os outros. O completo desabrochar do amor demanda reciprocidade, doação e recebimento.

Quando usarmos a palavra ‘amor’ é necessário sempre que lembrar que significa duas coisas, unidas no mesmo ato. Significa tanto amar como ser amado. Não é inteiramente amor até que o amar e o ser amado tenham sido equilibrados. O amor só se cumpre quando as dimensões ou elemento passivo e ativo forem equilibrados; e nossa parte receptiva, nossa parte interior, nossa parte feminina, é equilibrada com a doação, a parte expansiva ou a parte masculina de nós.

E Deus é o equilíbrio do amor. A imagem da Trindade é o mais profundo símbolo da vida Cristã. Ela nos mostra o equilíbrio dinâmico do amor, a dádiva do amor, o recebimento do amor, o êxtase do amor no Espírito. Isto expresso perfeitamente no que foi dito por Jesus, no Evangelho de São João, como ele descreve o relacionamento dele com o Pai através de sua relação humana com seu Pai. Ele não exclui deste relacionamento com seu Pai todos os seus relacionamentos humanos com sua família, seus amigos, seus discípulos e enfim toda humanidade.

Aprender a amar a nós mesmos, que é o primeiro passo para adentrar a este equilíbrio do amor, requer simplesmente que aprendamos a estarmos silentes, que aprendamos a aceitar-nos, a conhecer-nos e permitirmo-nos a ser liderados para além de nós mesmos através da quietude.

Aprender a amar os outros significa, nesta quietude, nos permitirmos aprender a aceitar os outros e ver os outros pelo que realmente são, não colocando-os nos moldes de nossas próprias emoções ou nossos próprios desejos ou nossos próprios medos, não projetando neles nossos próprios sentimentos ou imagens, mas permitindo-nos vê-los e relacionarmo-nos com eles como são neles mesmos. E então conseguirmos ver nossas relações como algo que compartilhamos com os outros, como o sacramento de Deus transportando-nos, cada um de nós e todos nós, para a plenitude, a plenitude que nos permite partilhar da verdadeira essência de Deus como diz São Pedro (2 Ped. 1:4).

É o amor que nos diviniza. E nós aprendemos a amar – amar a nós mesmos, amar aos outros – aprendemos a amar entrando no mistério de nossas relações. Então aprender a amar-nos e aprender a amar ao andar de mãos dadas com os outros nos ensina a amar a Deus. Nos ensina quem é Deus, porque é somente amando que descobrimos quem Deus é. “Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor” (1 Jo 4:8). Ainda que tenham muitas ideias maravilhosa sobre Deus, nada conhecem de Deus, se não amarem, pois “Deus é amor”. E eu acho que a meditação sempre nos questiona como vemos Deus, esta crença mais profunda e o sentimento mais profundo de nossa vida, que dá forma a tudo que fazemos e a tudo que somos, que tipo de configuração que há aí.

Aprendemos o que foi dito a eles: “Ame seu próximo e odeie seu inimigo”. Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos. Se vocês amarem aqueles que os amam, que recompensa vocês receberão? Até os publicanos fazem isso! E se saudarem apenas os seus irmãos, o que estarão fazendo de mais? Até os pagãos fazem isso! Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês. (Mat.5:43-8)

Esta é uma maravilhosa descrição da plenitude. É a plenitude que todos buscamos: o equilíbrio, a integridade, a reconciliação com todas as coisas de nossas vidas no amor.

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