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Séries de Palestras

Encontre um Grupo de Meditacao Crista

A Busca Humana por Deus

Bede Griffiths, OSB

Gosto de iniciar a palestra com um pequeno cântico em sânscrito. Na Índia, sempre começamos com um determinado cântico, pois isso nos conecta com o passado da humanidade. O sânscrito é talvez, a língua mais antiga do mundo hoje, que ainda esteja em uso. É uma língua sagrada, uma língua dos deuses. Ela nos dá acesso ao passado da humanidade, com o qual estamos todos conectados.

Pertencemos todos ao passado da humanidade, que se desenvolve ao longo da história, que se desenvolve aqui conosco. De maneira aproximada ele significa: Desfrutemos juntos, compartilhemos juntos, nos esforcemos juntos, brilhemos juntos, que não haja desavenças entre nós.

Om. Saha Nāvavatu. Saha Nau Bhunaktu.
Saha Viryam Karavāvahai.
Tejasvināvadhitamastu. Mā Vidvishāvahai.
Om. Śānti. Śānti. Śāntih.

São Bento descreve a vida monástica como sendo uma “busca por Deus”. Essa busca tem acontecido desde os primórdios da história humana e, talvez nunca tenha sido tão intensa quanto o é hoje. Pessoas de todas as partes estão buscando o mais elevado propósito e significado da vida, em um mundo onde significado e propósito freqüentemente parecem ter se perdido. Que resposta podem nos dar a esse problema, São Bento e a tradição que dele se origina? Como podemos encontrar a Deus, no mundo de hoje? São Bento, é claro, vem do seio da tradição cristã, porém, que resposta o cristianismo pode nos dar? Ele mesmo está dividido e, muitos perderam a fé nele, buscando a Deus de outras maneiras.

Existirá no seio da tradição cristã um caminho para o Supremo, que não seja pela via da doutrina ou do ritual, mas, da experimentação direta de Deus? É isto que as pessoas estão procurando hoje, não palavras ou idéias, mas, experiência direta. Existiria uma via de experiência direta de Deus, da verdade e, da realidade, na tradição cristã?

Acredito que exista e, que Dom John Main foi um dos que abriram a via de acesso a essa experiência para as pessoas de hoje. Ele a encontrou na tradição beneditina que se originou dos Padres do Deserto. E, aqui chegamos hoje para refletir na mensagem que ele nos deixou, um meio de descobrirmos nós mesmos, a tradição dessa sabedoria, que é o conhecimento de Deus através do amor. Dom John foi um homem de grande sabedoria e, acima de tudo, de grande amor. Ouçamos o que ele tem a nos dizer e, descubramos nós mesmos o caminho para essa experiência de Deus, de modo que possamos compartilhá-la com o mundo, que espera ouvir essa mensagem e, encontrar seu caminho de volta para Deus. Nesta palestra, estarei me pautando especialmente em uma palestra de John Main sobre a testemunha do mundo da oração monástica e, eu convido vocês todos a compartilhar sua visão e a adaptá-la a suas vidas.

Dom John começa dizendo que a vocação do monge e, conseqüentemente, da humanidade como um todo, no sentido de que existe um arquétipo de monge em todo ser humano, é o de permanecer aberto ao próprio potencial eterno em Deus, na nova criação cujo centro é Cristo. Existe um arquétipo monástico em toda a humanidade. Por detrás de todas as diversidades da natureza humana, existe um terreno comum e, nesse terreno comum, todo ser humano está em busca de Deus, do significado supremo e, da verdade suprema. De certo modo, trata-se de uma busca solitária. É algo que toca a profundeza de nosso ser e, que ninguém mais pode nos dar. Devemos acessar essa profundeza e, então, tocamos a Deus, tocamos a realidade. Aquele é o monge em nós, em todo ser humano. John Main nos diz que devemos “estar abertos ao nosso potencial eterno em Deus, na nova criação cujo centro é Cristo”.

Todo ser humano possui uma capacidade para Deus, uma capacidade de ser atraído por Deus, para as profundezas de nosso ser e, de experimentar a presença de Deus, do infinito, da realidade eterna que sustenta o mundo, fundamento e fonte do próprio ser de cada indivíduo.

Aqui, nos defrontamos com o problema que, para muitas pessoas, a palavra “Deus” perdeu seu significado. Elas não gostam de utilizá-la e, de fato, algumas vezes consideram embaraçoso seu uso, pelo fato de que transmite a imagem errada às pessoas. Será de grande ajuda, irmos além da palavra, abrindo-nos a seu mais profundo significado. Aqui, existe o problema específico do cristão: nosso conceito e nossa imagem de Deus, que se origina do Evangelho, de Jesus, é principalmente o do “Pai nos céus”. Enquanto que, quando abordamos as tradições do oriente, concluímos que elas possuem uma visão diferente e quase que oposta. Para eles, Deus é muito mais o fundamento, a fonte, o Ser por detrás do mundo. Gosto de contar uma passagem acerca de Dom Jules Monchanin, o fundador de nosso ashram na Índia. Durante muitos anos ele foi o pároco de Tiruchirapalli, no sul da Índia. Um dia ele se dirigiu a um grupo de crianças da escola e lhes perguntou: “Onde está Deus?” Algumas das crianças eram hinduístas e, algumas eram cristãs.

Todas as cristãs apontaram para cima, para o céu (Deus está nos céus) e, todas as crianças hinduístas apontaram para o coração (Deus está no coração). Estas são duas diferentes maneiras e, elas são complementares. Você pode pensar em Deus do alto, o Pai, o Criador, enviando-nos sua graça, encarnando-se em Jesus. E, você pode pensar em Deus como o Espírito que nos habita, o fundamento de nosso ser, a Fonte de tudo. Eles se opõem e se complementam. E, uma das coisas que estou aprendendo atualmente e, talvez, todos estejamos, se refere a como reconciliar os opostos. Tão amiúde, pensamos que deva ser uma coisa, ou a outra. Mas, quase sempre são ambas: uma coisa e a outra. Os chineses tinham a bonita percepção do yin e do yang. Tudo está inter-relacionado. Não menosprezemos uma ou outra coisa, mas, aprendamos a entender como os opostos se juntam. Assim, quando pensarmos em Deus, necessitamos ambas as imagens: precisamos do Pai nos céus e, precisamos do Espírito Santo dentro de nós.

Essa experiência direta de Deus não é algo que demande qualquer estudo ou habilidade especial. É algo que existe no verdadeiro centro de nosso ser, que confere significado e propósito a nossa existência e, que só ela pode responder à mais profunda carência da vida humana. Em nosso pequeno ashram, na Índia, temos pessoas provenientes de diferentes partes do mundo, de todos os cinco continentes e, é quase estranho que todas elas estejam buscando a mesma coisa. Todos estão procurando encontrar um significado mais profundo na vida, um eu mais profundo, uma mais profunda relação com Deus e com a humanidade, “realizar a Deus” costumamos dizer na Índia.

Para a maioria das pessoas, essa capacidade para Deus foi quase perdida. Tem sido tão obscurecida, que elas não estão mais conscientes dela. Particularmente na civilização materialista do ocidente, as pessoas perderam essa dimensão em suas vidas. Elas estão tão ocupadas com o mundo que as cerca e, tão absortas nos problemas do mesmo, seus prazeres e dores, que elas não possuem o poder de ir além. Elas perderam o sentido de estar abertas para Deus, para o transcendente. Este sentido para Deus, foi obscurecido e quase perdido e, é isto que estamos tentando recobrar. Todos os grupos de meditação ao redor do mundo são compostos de pessoas que estão buscando esse significado mais profundo, essa realidade de Deus em suas próprias vidas.

Dom John se refere a esse movimento para recobrar nossa capacidade para Deus, como a “nova criação”. Essa capacidade, inata em todo ser humano, foi obscurecida através do pecado, ou seja, alienando-o de seu próprio ser verdadeiro. Pecado é alienação. É falharmos em nos conhecermos como verdadeiramente somos, alienando-nos de nosso verdadeiro ser, da realidade, de Deus. A nova criação é a renovação de nosso ser, que se dá ao despertarmos para quem somos. Na Índia, frequentemente eles se perguntam: “Quem sou eu? Sou esse corpo aqui sentado? Sou essa personalidade que se relaciona com outras pessoas? Ou, será que existe algo mais profundo no interior, além de meu corpo e minha mente? Existe uma realidade mais profunda em mim e, no mundo que nos cerca?” A nova criação desponta ao despertarmos para quem somos, para a realidade por trás de todas as aparências superficiais de nossas vidas.

Tal como nos diz Dom John:
...a nova criação é uma passagem além de todas as ilusões e imagens que projetamos de nós mesmos e do mundo que nos cerca e, a descoberta de nosso verdadeiro ser, nosso eu interior, que foi escondido por trás de todas essas aparências ilusórias.
Todos nós, toda a família humana, tende a se perder neste mundo de aparências, que afinal é uma ilusão e, a perder de vista a realidade por trás de tudo.

Dom John entende a vida monástica, isto é, a vida do monge oculto em todos nós, como um caminho de transcendência. Karl Rahner, um grande teólogo, um místico que experimentou um profundo mergulho no mistério de Deus, descreveu um ser humano como sendo “constituído pela capacidade de auto-transcendência”, sendo capaz de ir além de si mesmo. Caímos para um eu separado, isolados dos outros e, do fundamento e fonte de nosso próprio ser. Devemos transcender esse eu separado, esse ego que esconde nosso verdadeiro ser e, devemos nos abrir para Deus e para o mundo, para a luz e a verdade que estão por toda parte e, em todas as pessoas. Esse eu separado é a fonte de todo mal. O ego não é o mal em si mesmo. Precisamos ter um ego, um eu separado. Uma criança precisa crescer e se tornar consciente de si mesma. Ela precisa se separar da mãe e, se tornar uma pessoa. Mas, nos fechamos no ego e, isso nos isola dos outros e de Deus, aprisionando-nos. Em alguma extensão, estamos todos aprisionados no eu separado. A graça de Deus recebida na prece e, na meditação, é o caminho que nos leva além do ego.

O caminho da transcendência, é claro, é o caminho do amor. Como nos diz Dom John: o amor é “a transformação, além do eu, para um outro”. É por isso que ele fala de uma “expansão infinita do espírito”. Amar é expandir-se a si mesmo, abrir-se para a infinitude do ser, que está em nós e à nossa volta e, essa infinitude do ser no amor é o que chamamos Deus. Por sua vez, isso conduz a um desenvolvimento criativo de todo nosso ser, um aprofundamento da harmonia íntegra de oração e mente.

Começamos a ver agora qual o significado de uma “nova criação”. Trata-se de transcender o eu separado com suas imagens ilusórias e desejos e, de ir ao encontro da realidade, a realidade de nosso próprio ser e, do mundo em que vivemos. Pode nos soar muito fácil ir ao encontro da realidade, porém, o fato é que somos impedidos pelas imagens e ilusões que projetamos. Atualmente, os cientistas nos dizem que todo o mundo tridimensional não passa de uma projeção. O mundo é um campo de energias que vibram em diferentes freqüências e, dentro desse campo, há várias estruturas ou formas que interpretamos como sendo um universo tridimensional. Mas, esse universo tridimensional é uma projeção e, assim, uma ilusão, uma aparência. A realidade está por trás da aparência.

A prece, a meditação, é o caminho para irmos além das aparências e tocarmos a realidade. A realidade é o próprio Deus, que está sempre se revelando por trás de todas as aparências.

 

Bede Griffiths foi um monge Beneditino, nascido na Inglaterra em 1906 e, educado em Oxford. Depois de 20 anos como monge na Inglaterra, ele foi para a Índia para encontrar “a outra metade de sua alma”. Esta palestra foi extraída do conjunto de palestras que ele proferiu no John Main Seminar de 1991. Essas palestras exploram a tradição da meditação cristã e relacionam-na com as grandes tradições orientais. Pe. Bede mostra como a jornada interior pode contribuir para a unidade espiritual. Ele faleceu na Índia em 1993. (http://www.bedegriffiths.com/biography.html).

 

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