Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
Quaresma 2017 >
Quaresma 2016 >
Quaresma 2015 >
Quaresma 2014 >
Quaresma 2013 >

Séries de Palestras

Encontre um Grupo de Meditacao Crista

O Mantra na Tradição Cristã

Bede Griffiths, OSB

O método da meditação de Dom John Main está centrado no uso do mantra. Mantra é uma palavra do sânscrito, derivada de uma longa tradição de prece e meditação na Índia. Foi o gênio de D. John que descobriu a mesma tradição nos Padres do Deserto, e a viu como uma tradição sagrada que havia chegado a São Bento a partir dos Padres, tendo sido preservada, ainda que praticamente perdida, na Ordem Beneditina da atualidade. O mantra foi, na realidade, uma sua descoberta, e ele foi o primeiro a trazê-lo à luz, difundindo-o como um método válido de oração na Igreja.

A arte do mantra consiste na repetição de um verso da Bíblia ou uma palavra sagrada, o que possui o efeito de ‘centralizar’ a pessoa, unificando todas as faculdades, e focalizando-as na presença de Deus que a habita. A mesma descoberta foi feita na Abadia de Spencer, sob a influência da Meditação Transcendental de Maharishi, conduzindo ao conceito de ‘oração centrante’. Trata-se de um método de auto-centralização, de procura do centro interior do próprio ser, conduzindo todas as faculdades, dos sentidos e da razão, a se unirem nesse centro, abrindo assim as profundezas da pessoa humana à presença de Deus que a habita.

D. John tomou como seu mantra a palavra aramaica maranatha, que tanto pode ser traduzida por “Vem Senhor”, quanto por “Nosso Senhor vem”, tirada da epístola de São Paulo aos Coríntios. A palavra aramaica mar significa simplesmente “Senhor”. O sufixo an significa “nosso”, de modo que maran, na verdade, significa “Nosso Senhor”. Podemos traduzir Maran-atha, “Nosso Senhor vem”. Ou, pode ser Marana-tha, “Vem Nosso Senhor”. Possivelmente a primeira seja a mais correta. Simplesmente, o Senhor está chegando.

Esse mantra é uma das muito poucas palavras do aramáico, a própria língua de Jesus, que sobreviveram no Novo Testamento. Há seis palavras. Quando Jesus levantou uma menina, ele disse: Talítha Kum, “Menina, eu te digo, levanta-te”(Mc 5, 41). E, na cruz ele disse: “Eloi, Eloi, lemá sabachtáni”, “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” (Mc 15, 34 e Mt 27, 46). Exceção feita a essas palavras, tudo o que Jesus disse, está traduzido em grego. Voces sabem, isso é muito importante. Jesus falava aramaico; penso que nem todas as pessoas se dão conta disso. Nossos Evangelhos foram escritos em grego, e Maranatha, que aparece na primeira epístola de Paulo aos Coríntios, foi utilizada pela igreja nascente, uma das relíquias do aramáico, pronunciada pelo próprio Jesus. Essa é a razão de ser uma palavra muito sagrada, Maranatha. Nosso Senhor vem. Ao utilizarmos esta palavra, ela nos conduz de volta, para além do próprio Novo Testamento, que foi escrito em grego.

Devemos nos lembrar sempre, que o Novo Testamento surgiu num período de aproximadamente cinquenta anos depois de Jesus, traduzido em grego. Ela nos conduz de volta, para além do próprio Novo Testamento, que foi escrito em grego, à mais antiga tradição da igreja, antes que ela tivesse emergido de sua matriz judáica. Toda a história da Cristandade nascente, evoluiu naquele mundo judeu: Jesus e seus discípulos falavam aramáico, adoravam no templo, iam à sinagoga, e assim por diante. Então, no decorrer daquele século, começou a se disseminar entre os gentios, as pessoas de fora, e Paulo foi a principal influência nesse processo de levar esta mensagem aos gentios. Paulo era um judeu que falava grego, de Tarso, e ele disseminou a mensagem em grego. As epístolas, tanto as de Paulo, como as outras, foram escritas em grego. Devemos nos lembrar que o próprio nome Jesus Cristo é uma tradução grega, do nome aramáico ou hebráico Joshua Meshia.

Assim, toda a mensagem de Jesus foi transmitida através do grego para o mundo Greco-Romano, e para uma outra cultura. Isto é importante. Foi o encontro de duas culturas. Evoluiu de uma cultura puramente judáica. Jesus pertencia integralmente àquele mundo judeu. Ele veio ao mundo, não simplesmente de uma cultura qualquer, mas, de dentro de uma determinada cultura judáica, que havia sido preparada por Deus, ao longo dos séculos. O Evangelho evoluiu a partir dessa cultura, e no decorrer dos séculos, floresceu no mundo Greco-Romano. Então, ele se disseminou por toda a Europa, e então, para as Américas.

Nós pertencemos a esse ciclo evolutivo que floresceu a partir da matriz judáica, e gradativamente cresceu através do contato com diferentes culturas. Atualmente, essa religião judáica, greco-romana, européia e americana está, verdadeiramente, entrando em contato com a Ásia, a Índia, a China e o Japão. É um grande momento da evolução do Cristianismo.

Não há dúvida que uma palavra como Maranatha possui uma qualidade especial, que nos sintoniza com a mais antiga tradição cristã, e nos conduz de volta às raízes de nossa religião. D. John adotou essa tradição da prece que vem desde os Padres do Deserto e, em última análise, do Novo Testamento. Um dos mais profundos discernimentos na erudição do Novo Testamento, é o de que toda a vida de Jesus está centrada em volta de sua “experiência do Abba”. Jesus se referia a Deus como Abba, “Pai”, mas, de uma maneira muito íntima, mais parecida a “paizinho”: tal como uma criança chama mãezinha, “abba”. Jesus possuía um relacionamento íntimo com Deus, como Pai, ao passo que os judeus do Velho Testamento faziam o oposto. Yahweh era o Deus nos céus, e sua reverência era tanta, que eles nem queriam chamá-lo pelo nome. Substituíam Yahweh por Adonai, ou Senhor, pois era proibido dar nome a Deus. Ele estava a uma tal altura acima dos homens, que havia um sentimento de temor do julgamento, e uma percepção de que a lei precisava ser mantida a todo custo.

Jesus foi diretamente além disso, para uma consciência íntima de sua completa união a Abba, seu Pai.
Acredito que poderíamos dizer que Abba era o mantra de Jesus. Ele simplesmente vivia nessa intimidade com o Pai, como Abba. Sua vida se centrava nessa palavra, e em tudo o que ela implicava. Portanto, dele recebemos a tradição do mantra.

 

Bede Griffiths foi um monge Beneditino, nascido na Inglaterra em 1906 e, educado em Oxford. Depois de 20 anos como monge na Inglaterra, ele foi para a Índia para encontrar “a outra metade de sua alma”. Esta palestra foi extraída do conjunto de palestras que ele proferiu no John Main Seminar de 1991. Essas palestras exploram a tradição da meditação cristã e relacionam-na com as grandes tradições orientais. Pe. Bede mostra como a jornada interior pode contribuir para a unidade espiritual. Ele faleceu na Índia em 1993. (http://www.bedegriffiths.com/biography.html).

 

< Voltar para o índice de palestras