Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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A função do Mantra

Bede Griffiths, OSB

É importante lembrarmos que a prece e a meditação ocupam a totalidade da pessoa. Oramos com o corpo e com a alma, assim como, com o espírito.

Utilizamos nossos corpos nas preces, até mesmo quando pronunciamos palavras e, ainda mais, quando cantamos e cantarolamos. Na prece estritamente contemplativa, reduzimos as ações do corpo a um mínimo, mas, mesmo nela, há os movimentos da respiração.

Todas as tradições orientais enfatizam sobremaneira a importância da respiração. A meditação Zen focaliza a respiração abdominal: inspiração e expiração. A isso eles dão o nome de hara. Trata-se de um centro muito importante. Não deveríamos negligenciá-lo. Trata-se de um centro emocional, mas, ele é o verdadeiro centro da psique, e muitas pessoas se beneficiam pela concentração no hara. Outros preferem focalizar o coração, e isso talvez seja mais central. Você também pode se concentrar no ajña chakra, também chamado terceiro olho. Na Índia, colocamos ali uma marca de cor carmesim. Os dois olhos são os olhos da dualidade, com os quais olhamos o mundo exterior, o eu exterior. O terceiro olho é o olho interior que enxerga a luz interior. Muitas pessoas conferem grande importância à sincronização do mantra com a respiração, pois isso nos ajuda a levar o corpo ao coração da prece. Porém, é claro que quando consideramos estritamente a meditação, levamos o corpo à imobilidade, tanto quanto possível, de modo que a mente não se distraia. Algumas pessoas insistem em uma postura ereta e em completa imobilidade. Na meditação, o relaxamento é uma necessidade primordial. O corpo e a mente precisam estar completamente relaxados, para que o espírito possa estar completamente aberto e receptivo ao Espírito de Deus. No Yoga se diz que a posição deveria ser confortável e estável, relaxada e firme. Deveria haver estabilidade para manter a pessoa firme, mas ao mesmo tempo ela deveria estar relaxada.

Precisamos nos lembrar que os sons vibram o corpo todo e possuem um profundo efeito na psique. É impossível concebermos os efeitos causados à psique pelos sons de uma cidade moderna, com suas intermináveis distrações. Todos os dias, e a cada hora, somos bombardeados com esses sons, e as imagens da televisão. Nossos períodos de silêncio tornam-se, assim, muito importantes para que sejamos capazes de abandonar todas essas distrações. O mantra tem por função recompor a alma, trazê-la de volta ao seu centro, e reunir a totalidade da pessoa (corpo, alma e espírito) com o Espírito de Deus.

Não sei se deixei isso claro, essa distinção tão importante entre corpo, alma e espírito. Temos um corpo, o organismo físico que nos une a todos os organismos físicos do universo. Temos a alma, a psique que é o organismo psicológico, com sentidos, sentimentos, imaginação, razão e vontade. O centro da psique é o ego, isso que em Sânscrito se chama ahamkara, o “fabricante do eu”. A psique é muito limitada. Mas, além dela, há o espírito, o Atman, que é o ponto da transcendência do si mesmo. Naquele ponto, corpo e alma vão além de suas limitações humanas, abrindo-se para o infinito, o eterno, o divino. A meditação é a passagem além do corpo e da alma, para aquele ponto do espírito.

A meta que precisa ser mantida em mente com firmeza é a de centrar o corpo e a alma nas profundezas do espírito, onde o espírito humano encontra o Espírito de Deus. Nas palavras de São Paulo: “O próprio Espírito se une ao nosso espírito para testemunhar que somos filhos de Deus”. Nesse ponto do espírito, transcendemos o ego e nos abrimos para o Espírito Santo. Trata-se de um ponto de encontro, para nosso espírito e o Espírito de Deus. A meditação deveria ser aquele ponto de encontro, onde o espírito humano toca e se abre para o Espírito Santo de Deus. É interessante a maneira pela qual a palavra “espírito” é por vezes utilizada no Novo Testamento para o humano, e outras vezes para o divino: porque é o ponto de encontro. O espírito é aquilo que São Francisco de Sales chamava “o refinado ponto da alma”. Trata-se do ponto da transcendência de si, de onde vamos para além de nós mesmos, e recebemos o divino Espírito em nossos corações, ou seja, para o centro de nosso ser. A repetição do mantra é uma simples maneira de mantermos todas as faculdades da alma e corpo centradas nesse ponto do espírito.

Trata-se de um processo que reúne todas as faculdades da alma no ponto do Espírito, onde são penetradas pela luz da verdade. Em essência, essa luz é uma luz de amor. Trata-se de amor do Espírito Santo que inunda o coração, e que nos leva a estar face a face com Deus. Na tradição oriental, todos os métodos de meditação são meios de se chegar a esse centro interior. Porém, o que ali acontece depende de sua particular fé e tradição. Para o cristão, o ponto do espírito é o ponto em que o amor de Deus inunda o coração através do Espírito Santo.

Isto traz à tona o problema das distrações. Quando começamos a meditar, a mente começa a divagar. Para a maioria das pessoas, a atividade mental nunca cessa. Particularmente no caso das pessoas nos dias atuais, e especialmente para os ocidentais, cujas vidas são tão repletas de distrações, e para quem a televisão, com seu fluxo constante de imagens, é uma fonte constante de distração, o problema do controle da mente torna-se muito agudo. Todo o tempo estamos pensando, pensando e pensando. Parece que a maioria das pessoas não consegue parar o fluxo contínuo de pensamentos, mas, o que elas podem fazer é não se ocupar com eles, deixar que eles fluam e, na quietude, observá-los, como se fossem nuvens no céu, enquanto a mente mais profunda, o espírito interior, permanece em quieto repouso na presença de Deus. Lutar contra as distrações pode ser mais prejudicial do que benéfico. Então, o ego atua. Você procura parar a si mesmo, e então, isso piora as coisas. O mantra continua na quietude, e os pensamentos continuam a ir e vir, mas você não precisa se ocupar com eles. Deixe que eles venham, deixe-os ir, mas mantenha o mantra na quietude, continuando por debaixo deles todos.

 

Bede Griffiths foi um monge Beneditino, nascido na Inglaterra em 1906 e, educado em Oxford. Depois de 20 anos como monge na Inglaterra, ele foi para a Índia para encontrar “a outra metade de sua alma”. Esta palestra foi extraída do conjunto de palestras que ele proferiu no John Main Seminar de 1991. Essas palestras exploram a tradição da meditação cristã e relacionam-na com as grandes tradições orientais. Pe. Bede mostra como a jornada interior pode contribuir para a unidade espiritual. Ele faleceu na Índia em 1993. (http://www.bedegriffiths.com/biography.html).

 

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