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Séries de Palestras

Encontre um Grupo de Meditacao Crista

A Meta que as Religiões têm em comum

Bede Griffiths, OSB

Os grupos de meditação introduziram um novo modo de vida, na Igreja, e para a humanidade como um todo. Dom John Main, ao apresentar a meditação com um mantra, revitalizou uma antiga tradição de prece contemplativa da ordem beneditina. Ele, então, estendeu esse meio de meditação e de vida contemplativa aos leigos. Esta tradição de meditação se origina dos Padres do Deserto, e foi transmitida a São Bento por Cassiano. Atualmente ela se espalha por todo o mundo. Possui raízes na antiga tradição da Índia, tendo se tornado um método de prece típico da tradição do Ocidente. Podemos encontrá-la, não apenas no Budismo e no Hinduísmo, mas também entre os sufis no Islã, e no movimento hassídico do Judaísmo.

Qual será o futuro da vida contemplativa, com base nesta tradição na Igreja e no mundo. Em primeiro lugar, acredito que devamos reconhecer que a tradição cristã não pode se sustentar isoladamente. Somos hoje desafiados a ver nossa religião no contexto de outras religiões do mundo. Especificamente, encontramos esse meio de meditação em todas as grandes religiões, e a vida contemplativa deve ser encarada como um chamado para a humanidade. A partir de uma civilização materialista centrada na ciência e na tecnologia, estamos mudando para uma nova era na qual pessoas de todas as partes do mundo se voltam conscientemente para um caminho espiritual, buscando integrar suas vidas, para conduzir todas as coisas ao centro interior do coração, e para encontrar o significado da vida, não no mundo exterior, mas na realidade interior cujo reflexo é o mundo exterior. É no contexto desse novo mundo, que precisamos encontrar o lugar da vida contemplativa na Igreja, e o lugar das comunidades oblatas no incentivo a esse modo de vida.

Costumo repetir esse ponto de vista de que o mundo exterior é um reflexo, tal como em um espelho, do mundo interior. Esse é o ponto de vista da física moderna: o de que quando passamos além das aparências exteriores, em primeiro lugar dos corpos exteriores, depois dos átomos, prótons e elétrons, chegamos finalmente a um campo de energias. Precisamos reconhecer que nós mesmos somos um campo de energia que opera dentro do vasto campo de energias do universo. Projetamos esse mundo tri-dimensional à nossa volta, através de nossos sentidos e de nossas mentes. Esse mundo tri-dimensional é transitório. Trata-se de uma expressão do vasto mistério da energia, que nós criamos e no qual vivemos, e que precisamos transcender. Confundimos sempre os fenômenos exteriores, as aparências, o mundo do espaço e do tempo, com a Realidade, mas estamos lentamente aprendendo que tudo isso é passageiro.

Essas são as grandes conquistas do discernimento da Índia. Acredito que o Buddha, dentre todos os seres humanos, teve o mais profundo discernimento da natureza do universo. Para ele esse mundo das aparências, dos sentidos, era transparente. Ele enxergava tudo como sendo passageiro. ‘Tudo passa. Tudo é sofrimento (no sentido de ser insatisfatório, sem que haja satisfação definitiva)’. ‘Tudo é irreal’, sem substância, sem que haja qualquer fundamento real. Todo esse mundo em que vivemos, o mundo dos sentidos, é o mundo dos fenômenos, das aparências. Todavia, essas aparências refletem a realidade eterna. Assim, vivemos em um mundo de fenômenos passageiros, e todas as coisas estão se alterando, o tempo todo, e tudo está em fluxo e em conflito, tal como num espelho ou nas águas de um lago, está refletindo a realidade divina. Na hora da morte, passamos para além do fluxo dos fenômenos e do corpo, tais como os conhecemos, para adentrar a realidade. Parece-se um pouco com assistirmos à tela da televisão. Vemos os eventos que se passam e, se bem não soubéssemos, poderíamos pensar que é ali que eles estão se passando. Porém, não é na tela que eles estão se passando. Eles se passam além, em algum local, e aquilo que vemos trata-se de uma re-apresentação. Assim, todo o mundo físico é uma re-apresentação, uma manifestação de uma realidade que não vemos.

Toda tradição religiosa possui um termo para essa realidade que não é vista. Na Índia temos Brahman. E por trás do corpo humano temos Atman, o Ser único. O Buddha o chamava nirvana. Quando todos os fenômenos se vão, existe uma ‘explosão’ de todas as aparências, de todas alterações e do vir a ser, e você adentra a Realidade que é Eterna. Em tradição budista posterior, a Realidade é denominada sunyata, a vacuidade. Quando todas as coisas se esvaziam, você tem a vacuidade, que é a plenitude.

Na China, existe o Tao. Confúcio e seus seguidores tinham seus rituais e sua vida, política e socialmente organizada, contudo, Lao Tsé enxergava o Tao por trás disso tudo, o ritmo do universo, a maravilhosa ordem que está por trás de todas as coisas que, todavia, não pode ser vista. Ele sempre usava essa bonita ilustração para a vacuidade: ‘Construímos os raios e a roda de modo a conduzir uma carruagem, todavia, é o espaço vazio do cubo da roda que permite que a roda gire sobre o eixo. Construímos potes de argila, todavia é o espaço vazio do interior do pote que o torna útil. Construímos casas de tijolos, argamassa e madeira, todavia são os espaços vazios, das portas, das janelas, que fazem com que a casa seja habitável’. Assim a vacuidade é tão importante quanto a plenitude.
Na tradição muçulmana, o poeta Sufi Ibn Al Arabi mostrava que por trás do Deus do Alcorão está Al Haqq: a Realidade. No Judaísmo, na Cabala, eles falavam de Ein Sof, o Infinito. Por trás de Iaweh, da Lei, dos Profetas, e de tudo o mais, está Ein Sof, o Infinito.

Todos nós estamos no processo de descoberta de que por trás das projeções do mundo físico, do mundo psicológico, e até mesmo da religião, está a Realidade que buscamos. Karl Rahner a chamava de ‘o divino mistério’, o mistério por trás de todas as coisas. Essa é a meta de nossa busca religiosa. Necessitamos de um mundo físico, e necessitamos dos símbolos da religião, contudo, precisamos ir além deles, para a Realidade. Este é o nosso chamado.

PAZ PAZ PAZ

 

Bede Griffiths foi um monge Beneditino, nascido na Inglaterra em 1906 e, educado em Oxford. Depois de 20 anos como monge na Inglaterra, ele foi para a Índia para encontrar “a outra metade de sua alma”. Esta palestra foi extraída do conjunto de palestras que ele proferiu no John Main Seminar de 1991. Essas palestras exploram a tradição da meditação cristã e relacionam-na com as grandes tradições orientais. Pe. Bede mostra como a jornada interior pode contribuir para a unidade espiritual. Ele faleceu na Índia em 1993. (http://www.bedegriffiths.com/biography.html).

 

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