Dom Laurence Freeman, OSB - WCCM
"Encontrar e perder" - Leitura de 01/11/2009
Jesus O Mestre Interior, (Martins Fontes, São Paulo 2004), pg. 160.
Tradução de Roldano Giuntoli
 

Para encontrar Deus, precisamos perder Deus, ao menos aquelas nossas idéias e imagens primitivas de Deus. Será doloroso desapegarmo-nos dessas imagens que nos são familiares, tanto em caráter individual, quanto para a comunidade de que somos parte. Trata-se de uma mudança que se dá em um nível profundo da nossa psique.
Até mesmo para aquela pessoa que não é religiosa, haverá a dor de sentir que está perdendo algum tipo de Deus familiar e confortador. Tanto a dor, como a alegria, acompanham a descoberta do mistério vivente, pois os ídolos que precisamos destruir estão muito entrelaçados às imagens que fazemos de nós mesmos.

A sensação de separação de Deus, todavia, é necessária à individuação espiritual. Para as pessoas religiosas ela é particularmente dolorosa e desconcertante. Sua primeira percepção do Reino, poderá se parecer menos com uma descoberta de Deus, do que com uma perda ou, até mesmo uma rejeição sacrílega daquele Deus que no passado foi-lhe ensinado com tanta certeza. Porém, através do horrível vazio da ausência, Deus é encontrado...

Lentamente, surge o entendimento de que a perda da imagem é pré-requisito para o encontro do original. Perder-se de seu caminho é o próprio caminho da busca de Deus. Essa verdade acerca da visão de Deus, nos revela outra lei, que podemos nem saber que estamos obedecendo: que para encontrar nosso verdadeiro Ser precisamos perder o ser de nosso ego. Para aprofundar um relacionamento, precisamos abandonar o outro. Então, imperceptivelmente, a ausência se transforma no mistério da presença. Por fim, nos damos conta de que a ausência de Deus é apenas a falência de nossas faculdades na percepção da real presença de Deus.

De acordo com Tomás de Aquino, tudo o que podemos dizer com certeza acerca de Deus, é que Deus é e, não ‘o que’ Deus é. Nosso relacionamento com Deus, portanto, é semelhante ao mistério que somos para nós mesmos. Se é verdade que Deus permanece sempre um mistério para nós, também é verdade que somos um mistério para nós mesmos. E, é mistério, afinal, até mesmo existirmos, ou que qualquer coisa exista. Esse pasmo é uma qualidade humana fundamental e, de acordo com Aristóteles, a chave de nossa filosofia. A estupefação do ser humano é uma contingência da estupefação perante o misterium de Deus. Essa característica misteriosa de Deus é a afirmação bíblica primordial acerca de Deus. Apesar de todo o pensamento e toda a ritualística que acumulou, a reconhecível incapacidade de conhecer a Deus é o elemento central da teologia cristã.

“Se você puder entendê-lo”, nos diz Santo Agostinho, “então, não se trata de Deus. Se você foi capaz de compreender, então você compreendeu algo diferente de Deus. Se você foi capaz de compreender, mesmo parcialmente, então você enganou a si mesmo, com seus próprios pensamentos”.

Essa radical humildade (e humor) perante o inefável mistério de Deus é o fundamento da tradição cristã. A partir do coração dessa tradição, surge uma autoridade que liberta. Seus professores apontam o caminho, com um sábio não saber, uma erudita e humilde ignorância, em direção ao Reino.

Medite por Trinta Minutos
Sente-se confortavelmente, mas com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxado mas atento. Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a como quatro silabas de igual duração Ma-ra-na-tha, em ritmo lento. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense nem imagine nada - nem de ordem espiritual nem de qualquer outra ordem. Se pensamentos e imagens afluírem à mente, trate-os como distrações e simplesmente retorne à repetição da palavra.

 
 
Comunidade Mundial de Meditação Cristã