Dom John Main, OSB - WCCM
"Viajante Frequente" - Leitura de 05/10/2008
(The Tablet: August 10, 2004)
Tradução de Roldano Giuntoli
 

No forte e seco calor da tarde da região italiana da Toscana, descem do ônibus os participantes do retiro, vindos de diferentes continentes. Eles agora precisam caminhar cuidadosamente por uma via com íngreme declive em direção ao mosteiro e à casa de hóspedes. Essa via é uma parábola, construída com antigos tijolos de terracota, muitos deles qubradiços, faltando alguns e, outros já substituídos por novos... Ainda que estejam prestando atenção à via desgastada, eles não deixam de aproveitar o cenário dos vales arborizados e, de respirar o penetrante perfume de ginestra. Eles também estão preocupados com sua bagagem, imaginando como serão a comida e seu quarto.  Porém, já começam a esquecer Londres, Houston, Cingapura e Genebra e, para sua surpresa, já começam a se sentir em casa. Eles chegaram.

Por quinze anos, tenho presenciado isso, as reações dos que chegam pela primeira vez ao retiro anual silente de meditação cristã em Monte Oliveto Maggiore, a casa-mãe da congregação beneditina olivetana. De início, a pura beleza física local, logo ao sul de Siena, é perturbadora, tal como acontece quando somos apresentados a uma pessoa muito bonita. A maneira pacífica de ser, a auto-confiança do local e, a maneira como os monges de hábito branco que aqui vivem estão à vontade, tornam-se mais surpreendentes, à medida que voce se acostuma com isso. Não há muitos locais no mundo moderno, onde exista essa combinação de sensações de estabilidade, harmonia e hospitalidade. Sua primeira percepção poderia ser a de que se trata de uma tão forte sensação de lar para outra pessoa, que voce estaria condenado a ser um estranho. Porém, ele demonstra ser um daqueles raros locais que dispõem da graça de fazer com que todos se sintam à vontade, no sentido de que voce pode relaxar, ser voce mesmo, lembrar-se de quem voce é.

Em uma era de fundamentalismo religioso, esse fato de podermos encontrar um ambiente profundamente religioso, que acolhe pessoas de diferentes visões e culturas, é fator de iluminação.  Um que não se agarra imediatamente às diferenças, ou aplica rótulos de aprovação ou exclusão.  Que não julga rigorosamente e, condena ou absolve em nome do Cristo, ou de Alá, ou de Yahweh. Creio que seja isso, a amizade do corpo com a mente em um ambiente de belezas naturais, a maravilhosa amizade que se encontra na contemplação com estranhos, esse estarmos juntos em um fluxo vivo da tradição, que não tenha sido represado e estagnado, que faz as pessoas se sentirem à vontade.

Como corajosamente Aelred de Rievaulx disse, Deus não é apenas amor. Deus é amizade, para consigo, para com os outros e, para com o ambiente. Aqueles que não vivem a amizade, nada podem saber de Deus, até mesmo, e principalmente, na mais insensível certeza dos fundamentalistas religiosos, de que eles defendem Deus contra seus inimigos.  A inquieta sensação de falta de um lar, que caracteriza nossa sociedade fragmentada, engendrou um instinto contemplativo de volta ao lar, ainda mais profundo que o fundamentalismo. Num local como esse, o instinto da volta ao lar para Deus, se intensifica em meio ao calor humano, à tolerância, à hospitalidade e à religião suave. O anseio por esse sentimento de conexão e de confiança mútua, é parte da busca espiritual de nosso tempo, a busca por uma religião que alimente a comunidade, mais do que as divisões.  E, talvez, o significado da presença real seja essa sensação includente e católica de se estar à vontade.

Quando Bernardo Tolomei, um rico nobre de Siena, aqui veio buscar a Deus há 700 anos, ele abandonava um lar confortável, trocando-o pelo que, então, era uma perigosa mata.  Ele viveu uma solitude de prece e, quando companheiros a ele se juntaram, adotou a Regra de São Bento. Santa Catarina de Siena, uma Joan Chittister daqueles tempos, o repreendeu, assim como censurava bispos e clérigos por falta de entusiasmo, por aceitar monges demais egressos de famílias prósperas e, ele obediente, expandiu sua base vocacional... Quando a praga atingiu Siena, ele deixou seu lar contemplativo e voltou para cuidar das pessoas à beira da morte, em sua velha cidade, onde ele também adoeceu e faleceu. O ciclo de sua jornada demonstra que a sensação pacífica de se estar à vontade não se restringe a um local e, que quanto mais voce se abandona a ela, mais voce se encontra no lar. Caso voce realmente esteja à vontade, com o si mesmo em Deus, voce se encontrará no lar, em paz e compaixão, em toda parte.

Medite por Trinta Minutos
Sente-se confortavelmente, mas com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxado mas atento. Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a como quatro silabas de igual duração Ma-ra-na-tha, em ritmo lento. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense nem imagine nada - nem de ordem espiritual nem de qualquer outra ordem. Se pensamentos e imagens afluírem à mente, trate-os como distrações e simplesmente retorne à repetição da palavra.

Comunidade Mundial de Meditação Cristã