Dom Laurence Freeman, OSB - WCCM
"Viajante Frequente" - Leitura de 06/09/2009
The Tablet, August 10, 2004.
Tradução de Roldano Giuntoli
 

No forte e seco calor de uma tarde da Toscana, descem do ônibus os participantes do retiro, vindos de diferentes continentes. Eles agora precisam caminhar cuidadosamente por uma via de íngreme declive na direção do mosteiro e da casa de hóspedes. Essa via é uma parábola, construída com antigos tijolos de terracota, muitos deles quebradiços, faltando alguns e, outros já substituídos por novos... Ainda que estejam prestando atenção à via desgastada, eles não deixam de aproveitar o cenário dos vales arborizados e, de respirar o penetrante perfume de ginestra. Eles também estão preocupados com sua bagagem, imaginando como serão a comida e seu quarto. Porém, já começam a esquecer Londres, Houston, Cingapura e Genebra e, para sua surpresa, já começam a se sentir em casa. Eles chegaram.

Tenho presenciado isso nos últimos quinze anos: as reações dos que chegam pela primeira vez ao retiro anual silente da meditação cristã em Monte Oliveto Maggiore, a casa-mãe da congregação beneditina olivetana. De início, a pura beleza física local, logo ao sul de Siena, é perturbadora, tal como nos acontece quando somos apresentados a uma pessoa de beleza excepcional. A paz que você sente no ar, a auto-confiança local e, a maneira como os monges de hábito branco que aqui vivem se sentem em casa, tornam-se mais surpreendentes, à medida que você se acostuma com isso. Não há muitos locais no mundo moderno, onde exista essa combinação de sensações de estabilidade, harmonia e hospitalidade. Sua primeira percepção poderia ser a de que se trata de uma tão forte sensação de lar para uma outra pessoa, que você estaria condenado a ser um estranho. Porém, demonstra ser um daqueles raros locais que contam com a graça de fazer com que todos se sintam em casa, naquele sentido em que você pode relaxar, ser você mesmo, lembrar-se de quem você é.

Em uma era de fundamentalismo religioso, nos sentimos iluminados ao encontrar um ambiente profundamente religioso que acolhe pessoas de diferentes visões e culturas. Que não se agarra imediatamente a diferenças, ou aplica rótulos de aprovação ou exclusão. Que não julga rigorosamente e, condena ou absolve em nome de Cristo, ou de Alá, ou de Yahweh. Creio que seja isso, a amizade do corpo com a mente em um ambiente de belezas naturais, a maravilhosa amizade que se encontra na contemplação com estranhos, esse estarmos juntos em um fluxo vivo de uma tradição, que não tenha se estagnado por ter sido represada e, que faz as pessoas se sentirem em casa.

Como Aelred de Rievaulx corajosamente disse, Deus não é apenas amor. Deus é amizade, para consigo mesmo, para com os outros e, para com o ambiente. Aqueles que não vivem a amizade, nada podem saber de Deus, até mesmo, e principalmente, naquela mais insensível certeza dos fundamentalistas religiosos, em que eles defendem Deus contra seus inimigos. A inquieta sensação de falta de um lar, que caracteriza nossa sociedade fragmentada, produziu um instinto contemplativo de retorno ao lar, ainda mais profundo do que o fundamentalismo. Num local como este, o instinto de retorno ao lar, para Deus, se intensifica em meio ao calor humano, à tolerância, à hospitalidade e à religião suave. O anseio por esse sentimento de conexão e de confiança mútua, é parte da busca espiritual de nossos tempos, a busca por uma religião que alimente a comunidade, mais do que as divisões. E, talvez, o significado da presença real seja essa sensação inclusivista e católica de estarmos em casa.

Quando Bernardo Tolomei, um rico nobre de Siena, aqui veio em busca de Deus cerca de 700 anos atrás, ele abandonara um lar confortável, trocando-o pelo que, então, era uma perigosa mata. Ele viveu uma solitude de prece e, quando companheiros a ele se juntaram, adotou a Regra de São Bento. Santa Catarina de Siena, uma Joan Chittister daqueles tempos, o repreendeu, assim como censurava bispos e clérigos por falta de entusiasmo, por aceitar monges demais, egressos de famílias prósperas e, ele obediente, expandiu sua base vocacional... Quando a peste atingiu Siena, ele deixou seu lar contemplativo e voltou para cuidar das pessoas à beira da morte, em sua velha cidade, onde ele também adoeceu e faleceu. O ciclo de sua jornada demonstra que essa sensação pacífica de se estar em casa, não se restringe a um local e, que quanto mais você se entrega a ela, mais você se encontra em seu lar. Caso você realmente esteja em casa, com o si mesmo em Deus, você se encontrará em seu lar, em paz e compaixão, em qualquer lugar.

Medite por Trinta Minutos
Sente-se confortavelmente, mas com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxado mas atento. Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a como quatro silabas de igual duração Ma-ra-na-tha, em ritmo lento. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense nem imagine nada - nem de ordem espiritual nem de qualquer outra ordem. Se pensamentos e imagens afluírem à mente, trate-os como distrações e simplesmente retorne à repetição da palavra.

 
 
Comunidade Mundial de Meditação Cristã