Dom Laurence Freeman, OSB - WCCM
"Carta Quatro" - Leitura de 06/12/2009
THE WEB OF SILENCE (London: Dartman, Longman & Todd, 1996).
Tradução de Roldano Giuntoli
 

Se podemos entender o quão silenciosa é a natureza, poderemos entender o poder redentor e purificador do silêncio. Qualquer coisa que seja simplesmente ela mesma, é silenciosa. Não importa se ela está falando, grasnando ou soprando ao vento. O silêncio não é influenciado pelo barulho, caso o barulho não esteja fingindo alguma coisa, ou procurando se apossar de alguma outra identidade ou direito de ser... O silêncio purifica. Ele restaura nossa verdadeira natureza e reverte a corrente contrária daquilo que não é natural.

A reapropriação de nossa verdadeira natureza através da meditação significa que, com a meditação, aprendemos a atender as necessidades básicas da nossa natureza. Por "atender nossas necessidades" desejo utilizar os dois sentidos para o verbo atender: ir de encontro... e suprir. Nós não poderemos suprir as necessidades enquanto não as tivermos identificado e aceitado plenamente; até que as tenhamos reconhecido sem sentimento de culpa ou de auto rejeição. Elas são necessidades humanas tais como a plenitude, a felicidade e a paz. Elas não são abstrações. E elas não são desejos... Com o enorme discernimento que o silêncio nos proporciona entre o que são necessidades e o que são desejos, recuperamos a possibilidade de relacionamentos diretos e harmoniosos, uma não dualidade em nós mesmos. A única vítima disso é o fantasma de nosso eu imaginado, seus temores e ilusões.

A meditação aguça nossos sentidos para as inúmeras forças anti naturais que estão em ação atualmente... A alienação à nossa própria natureza espiritual, ilimitada e compassiva, só pode ser corrigida ao reaprendermos qual é a nossa verdadeira natureza. Por retornar à natureza, não queremos dizer caminhadas no campo, ainda que possa ser tão árduo e refrescante, quanto um exercício físico. A meditação restaura um apetite saudável pela vida, em vez daquela fascinação decadente com morte e corrupção. Nós vemos isto no amor pela vida das pessoas santas, a inabilidade que os santos têm de se entediar. O trabalho do silêncio, de maneira semelhante, nos lembra que precisamos encontrar nossos maiores prazeres naquilo que é natural...

Ao encontrarmos nossa verdadeira natureza, com nossa consciência espelhando e participando da consciência divina, experimentamos paz e liberdade. A paz surge da certeza de que a nossa própria natureza está enraizada em Deus, e é tão real quanto Deus. É a todo poderosa paz de pertencer àquilo que sabemos nunca nos rejeitará ou deserdará, a auto confiança do amor. Uma liberdade que floresce a partir da alegria da transcendência, de saber que aquilo a que pertencemos, nos pertence. O enraizamento permite a expansão, assim como o voto beneditino da estabilidade permite uma transformação contínua.

Em face das nossas crises contemporâneas precisamos perguntar por que meditamos. Perguntamos não para debilitar nosso comprometimento, mas para refiná-lo e aprofundá-lo. Nós não estamos em busca de experiências interessantes. Meditação não é tecnologia da informação. Ela trata do conhecimento que redime, a pura consciência... Este conhecimento redentor e recriativo é a sabedoria que falta ao nosso tempo. Nós podemos reconhecê-lo, e discernir entre ele e suas falsificações, porque ele não reivindica nem ostenta quaisquer pronomes possessivos. Ninguém o reivindica como sendo seu... Ele é a consciência do Espírito Santo e, portanto, é o útero de toda ação verdadeiramente amorosa. Em face da mais desanimadora tragédia, ele está tão perto de nós, quanto nós estamos de nosso verdadeiro eu.

Medite por Trinta Minutos
Sente-se confortavelmente, mas com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxado mas atento. Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a como quatro silabas de igual duração Ma-ra-na-tha, em ritmo lento. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense nem imagine nada - nem de ordem espiritual nem de qualquer outra ordem. Se pensamentos e imagens afluírem à mente, trate-os como distrações e simplesmente retorne à repetição da palavra.

 
 
Comunidade Mundial de Meditação Cristã