John Main OSB - WCCM
"A Prece como Encontro: Uma reunião Cristã e Muçulmana" - Leitura de 17/10/2010
Laurence Freeman OSB – para O Tablet de Setembro de 2006.

Tradução de Roldano Giuntoli
 

Quando Caim estava prestes a matar seu irmão, ele se encontrava tomado por “tristeza e irritação”, a reação visceral a qualquer sentimento de rejeição.  Deus intervém, e lhe pergunta: “por que estás triste e irritado?” (...)  Contudo, Deus então, diz algo que tem sido negligenciado nessa controvérsia: a dimensão transcendente da religião.  Deus salienta que Caim deve esperar para procurar dominar o demônio que, acuado, “espreita à porta”, ou este o dominará.  A prece está na espera.  Ela tem parentesco com a coragem da não-violência, que Gandhi dizia demandar o mais elevado tipo de força.  A transcendência nasce dessa profunda paciência.  A paciência de não apenas deixar de interromper alguém, ou deixar de ficar irritado quando o trem se atrasa, ou de golpear o computador quando ele trava.  O controle da impaciência é uma prática da mais profunda verdade da virtude da paciência.  (Seu significado fica mais claro quando a vemos na palavra “paixão”, tal como na “paixão de Cristo”.)

Assim, por mais estranho que possa parecer, existe paixão na espera.  No evento de 2006 Way of Peace da Comunidade, os conferencistas monásticos e acadêmicos ilustraram esse aspecto a partir de muitos autores místicos de nossas tradições (Católica e Sunita, Ortodoxa e Shiita), cujos temas diversos se harmonizavam na experiência essencial de todas as preces: o amor.  Os religiosos costumam negligenciar o óbvio, e isto é o que é mais óbvio, e aquilo que mais necessitamos lembrar.  Aqueles que não amam nada sabem de Deus.  Não se trata de arrazoado metafísico, mas da razão do coração.  A nossa experiência humana mais universal ensina isso desde o início da vida e, sem isso, a vida é insuportável.  Amor é transcendência, a mudança do foco da consciência, por meio do ato da atenção paciente em relação ao outro.  Os pais fazem isso, os amantes o fazem, e os religiosos também o devem fazer caso desejem ser genuínos.

A maneira como você ora, é a maneira como você vive.  Vivemos no poder da transcendência por meio de profunda prece.  Não apenas salat e liturgia, mas, contemplação.  Todo o propósito desta vida, dizia Santo Agostinho, é o de abrir os olhos do coração, com os quais vemos Deus.  A transcendência nos torna mais humanos porque realiza este plano humano.  Os meios são aquilo que a religião ensina, caso não se confundam com os fins: a espera, a paciência, a quietude e, particularmente importante numa era da comunicação instrantânea, o silêncio. [....]

Rezamos o salat e orações cristãs.  Todavia, também nos sentamos em silêncio para meditar: nós a chamamos prece do coração, eles a chamam dhikr.  Ela reduz muitas palavras a uma palavra, em uma rica pobreza de espírito.  Nesse silêncio, tocamos uma universalidade para a qual as palavras apenas apontam.  Não se trata de uma fuga da realidade, porém, de um abraço com a realidade divina que ambos conhecemos como amor.  Os relacionamentos se transformam por meio dessa experiência do silêncio na transcendência, em maneiras que as palavras não logram alcançar.  Convivemos de uma nova maneira, depois de termos compartilhado a paciência no silêncio do amor.

Medite por Trinta Minutos
Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxado, mas, atento. Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.

 
 
Comunidade Mundial de Meditação Cristã