Dom Laurence Freeman, OSB - WCCM
"Algumas palavras do passado" - Leitura de 20/09/2009
THE HEART OF CREATION (New York: Continuum, 1998), pp. 42-44.
Tradução de Roldano Giuntoli
 

Os primeiros Padres monásticos logo descobriram que um dos obstáculos que precisam ser vencidos por todo homem e mulher que reza, é o que eles descreviam como acídia. Trata-se de um conceito psicológico razoavelmente complexo, mas ele inclui as noções de tédio, de aridez, de insatisfação, um sentimento de desesperança, de não fazer progresso. Creio que todos nós estamos, em alguma medida, familiarizados com essas manifestações do ego. De fato, o conceito de acídia é um conceito particularmente moderno. Em nossa sociedade, as pessoas se entediam muito facilmente. O tédio nos inquieta, e nos torna inconsistentes em nossos comprometimentos, a todos nós. Assim como os primeiros Padres costumavam ir para Alexandria, de vez em quando, para passear em busca de um pouco de distração, nós também, em nossa sociedade secular, comumente estamos em busca de distrações. Aqueles que, dentre nós, descobriram o caminho da meditação, sentirão com frequência um puxão em sentido contrário, no sentido de livrar nossos pescoços da canga, de modo a podermos descansar um pouco. Todos buscamos uma diversão, porque estamos cansados da mesmice do comprometimento diário com uma peregrinação que nos testa com longos períodos de monotonia.

Recentemente, um jovem veio a mim para me perguntar: “Como você aguenta olhar através de sua janela, para todos os dias ver as mesmas coisas? Isso não te enlouquece?” Talvez a verdadeira pergunta devesse ser: “Como é que sempre podemos ver tantas coisas, olhando todos os dias através da mesma janela?” Os primeiros Padres sabiam que o tédio surge do desejo, do desejo de satisfação ou de fama, de algo novo, de uma modificação no ambiente ou na atividade, de diferentes relacionamentos, de um novo brinquedo, qualquer que possa ser.

A prece pura minimiza o desejo. Na quietude da prece, cada vez mais quieta quanto mais nos aproximamos da Fonte de tudo o que existe, de tudo o que pode existir, somos invadidos por tanto espanto, que não sobra mais lugar para o desejo. Não se trata tanto de que passamos a transcender o desejo, mas, na verdade, de que simplesmente não há mais lugar em nós para esse tipo de desejo. Todo o nosso espaço está sendo preenchido com o portento de Deus. A atenção, que no desejo se dispersa, é reunida e absorvida em Deus. [...]

Ao meditar, abandonamos o desejo de controlar, de possuir, de dominar. Em lugar disso, buscamos apenas ser quem somos, sendo a pessoa que somos, estamos abertos para o Deus que é.  Como resultado dessa abertura, é que somos preenchidos com o espanto, e com o poder e a energia de Deus, que é o poder de ser, e a energia de amar. [E] quando amamos, é impossível nos entediarmos.

Medite por Trinta Minutos
Sente-se confortavelmente, mas com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxado mas atento. Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a como quatro silabas de igual duração Ma-ra-na-tha, em ritmo lento. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense nem imagine nada - nem de ordem espiritual nem de qualquer outra ordem. Se pensamentos e imagens afluírem à mente, trate-os como distrações e simplesmente retorne à repetição da palavra.

 
 
Comunidade Mundial de Meditação Cristã