"Quaresma 2008" - Leitura de 24/02/2008
Ash Wednesday (The Tablet)
Tradução de Roldano Giuntoli

“O que fará você para a quaresma?” Esta pergunta hoje em dia é feita freqüentemente com uma entoação zombeteira. A idéia de “exercícios espirituais” ou de ascetismo, se tornou tão entranhada com associações de religião negativa, de auto-rejeição ou de retidão. Ainda assim, frequëntemente se faz essa pergunta (ela se relaciona com uma profunda carência de se estar em ativo desenvolvimento, na própria jornada espiritual) e, por isso, para todos nós, porém, especialmente dentre as pessoas com uma prática espiritual consciente, trata-se de uma pergunta importante.

Muitas religiões possuem esses períodos de intensificada prática espiritual, o Ramadã, o retiro das Chuvas Budistas, ou, o Thai Pusam hinduísta, como exemplos. Para os cristãos a Quaresma, espelhando os quarenta dias que Jesus passou no deserto, antes de iniciar seus ensinamentos públicos, oferece essa oportunidade de renovação e de revigoramento do próprio compromisso e, de devoção ao Caminho. A Quaresma é a época do ano em que a Igreja empreende exercícios espirituais cujo ponto focal, globalmente, é o Cristo e, localmente, a aspiração humana por cura e salvação, inteireza e santificação. Ao sincronizar-se com a celebração da Páscoa, passa a ser, também, uma reflexão experimental na maneira como essa aspiração humana se realiza radicalmente através da mortalidade de Jesus. Portanto, de propósito, a Quaresma envolve os aspectos físicos de nosso processo espiritual.  (Como resultado de uma Quaresma bem-praticada, deveríamos nos sentir melhor, tanto física, quanto psicologicamente).

Porém, é exatamente este o porque de ser tão difícil, para muitas pessoas modernas, entender a Quaresma e, o porque de elas a descartarem, apenas por considerarem-na uma “desistência” de prazeres que, freqüentemente, parecem ser inofensivos ou infantis. Necessitamos de uma percepção litúrgica e sacramental das coisas, de modo que elas façam sentido. A liturgia, o culto público, eleva o indivíduo de um estado atomizado a uma comunidade. Na verdade, em alguma extensão, o mesmo acontece em uma partida de futebol, no carnevale do Rio, ou num concerto de rock. Uma liturgia vai além dessas experiências de coletividade, pelo aprofundamento do significado de comunidade que ela realiza (em última análise, não aquele de um time, tribo ou festa, mas, o de toda a humanidade) e, também, da feliz integração do corpo e da mente, que a boa liturgia reconhece e promove. A liturgia se dá com a presença física. Não se pode realizar satisfatoriamente por procuração ou virtualmente. Afinal, também é isso o que se dá com o “ir à igreja aos domingos”. Porém, a liturgia é muito mais que isso.

O ciclo litúrgico anual costumava ser totalmente integrado aos calendários político e social.  Havia apenas um calendário para tudo (isso também tinha seus perigos e armadilhas, é claro), enquanto que, nos dias de hoje, temos diversos calendários em paralelo, que refletem nossas múltiplas identidades, freqüentemente competidoras entre si. Caso sequer tenhamos um calendário litúrgico em nossas vidas, normalmente ele está subordinado (o trabalho e o lazer normalmente tem mais prioridade). Ainda que tenhamos conquistado alguma liberdade pessoal, nos desconectando das épocas litúrgicas da Igreja, também perdemos muito. Para muitos, a vida de hoje é uma cinzenta planície, sobre a qual os estímulos artificiais e, as distrações do entretenimento, ou as cargas de trabalho excessivas, passam, tal como padrões climáticos indiferentes. Contrastando com isso, um senso litúrgico do tempo costura em nossas vidas, tanto no dia-a-dia, quanto nas diferentes épocas do ano, uma história sagrada, uma narrativa histórica, para os cristãos. Assim como se reflete na celebração móvel da Páscoa, baseada que está nas fases da Lua, isso também nos lembra que, apesar do ambiente artificial que criamos, também habitamos um mundo natural, que dança em nossos sistemas sanguíneo e límbico.
Na Quaresma, não apenas nos lembramos de Jesus dirigindo-se ao deserto para ser tentado.  Compreendemos que nós, também, temos um deserto pessoal a que nos dirigir, um em que aprendemos a lutar com aquelas forças da escuridão, que qualquer pessoa interessada na iluminação deve enfrentar. A antiga linguagem da luta contra Satã, ou, da arte da guerra espiritual, precisa ser traduzida hoje, mas, não deveria ser descartada muito rapidamente, pois ela toca aspectos reais de nossa cura e crescimento pessoais.  Os mestres do passado expressaram isto dizendo que nós “construímos nossas defesas” contra os poderes da escuridão, através dos exercícios espirituais empreendidos na Quaresma. Nos fortalecemos, ao lidarmos com os problemas e obstáculos que encontramos, tanto em nosso interior, quanto nos eventos inesperados de nossas vidas.
Assim, uma boa preparação para o entendimento da Quaresma, após a leitura de Isaías 58, é a leitura dos relatos evangélicos da tentação de Cristo no deserto (Mt 4:1-11, Mc 1:12-15 e Lc 4:1-13). Esses diferentes relatos refletem uma variedade de possíveis interpretações e se constituiriam em um bom material para a lectio entre o dia de hoje e o primeiro domingo da Quaresma, em quatro dias.  O que é que está tentando Jesus? Qual é a base de sua rejeição a essas falsidades e ilusões? Por que é que ele sai do deserto, após seu batismo, pronto para iniciar sua missão?

Uma percepção litúrgica do tempo costura nossas histórias individuais para algo maior.  Expande nossos horizontes, assim como, desafia os mesquinhos imperialismo e territorialismo do ego.  Uma vez que ela tenha passado a fazer parte de nossa compreensão do significado do tempo, ela também nos abre uma visão sacramental. Isto também, está intrinsecamente interligado à nossa inteireza humana (corpo e mente). Enxergar as coisas de maneira sacramental, é enxergar o valor sagrado do físico e do mundano. É saber que “o mundo está carregado com a grandeza de Deus”.  Nos permite saborear e aproveitar a beleza e a maravilha das coisas, sem destruir nossa apreciação delas com análise compulsiva ou reducionismo. Especialmente nessa época do ano, no hemisfério norte, podemos ler o livro da natureza com uma emoção especial. Na primavera vemos a maravilha da nova vida abrindo caminho por entre as folhas mortas. Vemos pequenas flores, de beleza cósmica, mostrando-se mais forte que o solo gelado. A auto-doadora natureza de toda vida e, do Verbo de Deus, encontram uma suprema metáfora na beleza da estação. Como toda beleza, a melhor maneira de aproveitá-la e respeitá-la e, de se sentir unido à sua epifania, é a de deixá-la em paz.

É a mim que eles buscam todos os dias, mostram interesse em conhecer os meus caminhos. (Is 58).

No hemisfério sul, desconhecido para os poetas bíblicos, as metáforas da estação para a Quaresma e a Páscoa, hoje, nos adicionam uma nova dimensão aos seus significados. Nos dias de hoje, em que nos é fácil habitar todas as estações, quase simultaneamente, o compartilhamento desses símbolos sacramentais enriquece o maravilhamento com que percebemos nosso lar terrestre, bem como, nossa frágil, ainda que profundamente unificada, existência humana nele.

A Quaresma é um período em que refinamos e purificamos os sentidos espirituais e, identificamos os hábitos ou padrões que os poluem. Os meios de se fazer isso, são os exercícios que empreendemos nesta época.  Não é um período de auto-punição ou repressão.  Especialmente nos dias de hoje, a psique humana é muito frágil para isso. Porém, quando um amigo reúne a coragem para lhe dizer algo que você preferiria não ouvir, alguma evidência de um erro ou desonestidade da qual você tem sido culpado, não sentirá você, afinal, gratidão pela expressão de amor e atenção demonstrados por você? Não é a condenação, mas, sim o arrependimento, que opera para acelerar a jornada espiritual. Arrepender-se não significa se sentir culpado, o que é um desperdício de tempo e de espírito. Significa ser honesto, enxergar com suficientes coragem e clareza, de modo a mudar de direção. Antes de mudar de direção, o melhor é fazermos uma pausa. Acima de tudo, a Quaresma é um período para dedicarmos mais tempo do que normalmente acreditamos que podemos, para a mecânica de nossa vida espiritual. Não se trata apenas de desistirmos, mas, de fazermos algo, mais ou menos. Algumas vezes as duas coisas podem ser bem equilibradas: menos tempo assistindo à televisão, mais tempo de leitura, ir para a cama mais cedo, acordar mais cedo para meditar, ouvir as notícias apenas uma vez por dia, horários de prece mais freqüentes, comer menos e melhor, viver e se comunicar de maneira mais saudável. É claro que as boas intenções tem mais probabilidade de serem sustentadas, se forem realistas. É melhor desacelerar gradualmente, antes de mudar de direção, do contrário você poderá simplesmente perder a direção. O objetivo da disciplina da Quaresma é o de reverter a inércia desse movimento de auto-rejeição, manifesta ou implícita, e, o de permitir que a experiência de sabermos que somos amados, surja e nos envolva. Essa experiência (como quer que ela nos alcance) é, de fato, a “experiência de Deus”. A alteração da inércia desse movimento é a imobilidade. Portanto,

Cala-te e saiba que Eu sou Deus (Salmo 39)

Finalmente, do contrário esta leitura te ocupará até a Páscoa, alcança-se a união da sensibilidade litúrgica e sacramental, através de uma variedade de maneiras diferentemente adequadas ao temperamento e nível de desenvolvimento que possuímos. Há uma farta escolha, a leitura das escrituras, a participação nos sacramentos, outras formas de prece, jejum. O princípio de toda privação que serve a um propósito positivo, é o da moderação. Porém, algumas vezes, um período de abstinência é a melhor maneira de restabelecer o equilíbrio. Existe algo que você faça em demasia? Concentre-se nisso, e veja se desistir disso para a Quaresma ajudaria a restaurar um aproveitamento moderado (e, portanto, intensificado). Você sabe haver algo que gostaria de fazer regularmente, sem nunca encontrar tempo para isso? Puxe pela memória e, veja se quer realmente encontrar tempo para isso. E, não se esqueça dos outros hábeis meios, que a tradição cristã sempre enfatizou. Tais como a caridade, que é a doação (e o desapego) do tempo ou dinheiro, àqueles que necessitam mais do que você. Isto é especialmente útil em uma era de consumismo e de ansiedade material. É uma oportunidade de se praticar a verdadeira doação, anonimamente, modestamente e, sem pedir nada em troca, nem mesmo uma consciência tranqüila.

Ou, como “boas obras”, um esforço ativo no sentido de desfazer injustiças. Os cristãos levaram quase dois milênios para se darem conta de que a escravidão não estava de acordo com os valores do evangelho. Você pode não ser capaz de levar a paz ao oriente-médio, nesta Quaresma, ou mesmo, reverter o aquecimento global. Porém, você pode ajudar; e, fazer isso poderá iluminá-lo para uma responsabilidade que lhe esteja mais próxima, na família, na comunidade ou no trabalho.

Por acaso não consiste nisto o jejum que escolhi: em romper os grilhões da iniqüidade, em soltar as ataduras do jugo e pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar todo o jugo? Não consiste em repartir teu pão com o faminto, em recolheres em tua casa os pobres desabrigados, em vestires aquele que vês nu e não te esconderes daquele que é tua carne? (Is 58)

John Main pensava que a prece é a essência de todo ascetismo cristão, voltar-se de si mesmo para o Outro. Isto implica em uma certa profundidade de prece, uma profundidade de simplicidade e de pureza, dessas a que o mantra pode nos conduzir. Assim, talvez, para um meditante, a primeira prática de Quaresma que deveríamos empreender alegremente (e, a Quaresma deveria ser um período de crescente felicidade), seria a de nos prepararmos melhor para os períodos de meditação, de sermos mais fiéis para com eles e, de repetirmos o mantra com a maior atenção, fidelidade e suavidade possíveis.
Então, mais do que nunca:

Iahweh será teu guia continuamente e te assegurará a fartura, até em terra árida; ele revigorará teus ossos, e tu serás como um jardim regado, como uma fonte borbulhante cujas águas nunca faltam... então te deleitarás em Iahweh, e eu te farei levar em triunfo sobre as alturas da terra (Is 58).

Com muito amor na jornada que compartilhamos nestes dias vindouros,

Laurence Freeman OSB

Medite por Trinta Minutos
Sente-se confortavelmente, mas com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxado mas atento. Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a como quatro silabas de igual duração Ma-ra-na-tha, em ritmo lento. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense nem imagine nada - nem de ordem espiritual nem de qualquer outra ordem. Se pensamentos e imagens afluírem à mente, trate-os como distrações e simplesmente retorne à repetição da palavra.

Comunidade Mundial de Meditação Cristã