John Main OSB - WCCM

“Caríssimos amigos" - Leitura de 27/11/2011
Laurence Freeman OSB, WCCM International Newsletter, October 1997, pg. 2-7.
 

 

Certa vez, Santo Antão do deserto falou para seus monges acerca do dia do juízo que cada um deles iria enfrentar no momento da morte. Ele lhes disse que não seriam julgados pelo quanto eles teriam sido como ele, ou como qualquer outro dos grandes mestres do deserto, porém, pela extensão em que eles se tornaram verdadeiramente eles mesmos. Encarada como objetivo e significado da existência humana, a santidade pode ser uma qualidade que podemos reconhecer em muitas pessoas diversas, um perfume do qual nos conscientizamos. Existe um caráter universal na santidade, que atravessa as fronteiras do tempo, da cultura e da religião. Não se trata do produto de uma determinada marca de treinamento e, por mais que muitas ideologias procurem reivindicá-la para si, ela desafia qualquer tentativa de rotulagem. O que faz com que sua natureza seja universal é o fato de que ela se torna perceptível nas pessoas que se tornaram elas mesmas. A santidade é a presença de Deus nos seres humanos que são imagem de Deus. Tornar-se santo, então, é a simples reunião da imagem com o original.

Tanto de nossas vidas parece se desvanecer na memória. Problemas que nos atormentam, ou prazeres que nos emocionam, planos que nos absorvem completamente, pesares inconsoláveis que pareciam fazer com que nossa vida tivesse chegado ao fim, são todos temperados pelo tempo. Existem outras experiências, não tão frequentemente emocionalmente irresistíveis quando de sua ocorrência, que não se desvanecem. Recordamos essas epifanias de consciência pura de maneira mais profunda, porque se tornam parte de nós. Na maneira frequentemente modesta e quieta em que aconteceram, elas eliminaram algumas das camadas obscuras usuais e, nos revelaram como realmente somos, quem realmente somos. Nesse despertar, não houve nenhum trovão, nem manchetes místicas. Porém, foram notícia, verdadeira notícia. Notícia, cuja novidade não se dissipou com a chegada dos jornais matutinos. Estes são os terremotos da quietude, que rearranjam o panorama de nossa vida, os furacões do silêncio, que modificam a nossa forma de ouvir, e falam pelo resto de nossa vida. Lembramos do momento de tais epifanias porque, por alguma razão que nunca podemos explicar, estávamos prontos para elas quando elas ocorreram, ainda que nos tivessem pego de surpresa. E, estávamos despertos quando aconteceram. Provavelmente, sem nos darmos conta, acabáramos de morrer.

Recordo-me, por exemplo, que quando garoto, ao voltar da escola, frequentemente parava em frente à vitrine de uma loja, em que havia selos filatélicos estrangeiros, que para mim à época eram irresistivelmente belos. Um dia, um amigo de família, mais velho, passando por ali, interrompeu meu olhar contemplativo extático, para me cumprimentar. No dia seguinte, enquanto parado em frente à mesma vitrine, na minha volta para casa, a mesma pessoa passava e, brincando, perguntou-me se eu estivera ali parado desde o dia anterior. Algo indescritível, mas, fortemente familiar, se acendeu dentro de mim, algo que está comigo até hoje: uma consciência do si-mesmo, de ser tomado de surpresa, mas sem medo, o conhecimento de que existimos no universo de outros, assim como, em nosso próprio. Qualquer que seja a maneira como venhamos a descrever esses momentos, e eles são muito comuns, pois pontuam o desenvolvimento de nossa consciência, eles são a prova que necessitamos, de que somos reais. Que existimos. E, ao tempo em que essa prova tenha se aprofundado suficientemente em nós, começamos a encontrar o sentido da existência, como um desenvolvimento na santidade.

Talvez, a santidade se assemelhe à música. Não pode ser descrita, a não ser em sua própria língua. Porém, trata-se de uma língua universal que pode ser escutada e apreciada pelas pessoas. Em uma sociedade como a nossa, em que a linguagem e as tradições religiosas transformaram-se mais em um dialeto especializado, do que uma linguagem comum e unificadora, essa música de santidade é de especial importância. A santidade nos une em amizade, e em uma crença comum no núcleo de bondade da humanidade.[...] São Bento dá um aviso a seus monges, no capítulo sobre "os instrumentos das boas obras", no sentido de não desejar ser chamado santo, antes de realmente o ser. A ironia, é claro, é que ao tempo em que o indivíduo se torna realmente santo, ele não mais irá querer ser chamado de santo. Ou de qualquer coisa, de fato. Enquanto estivermos preocupados com a "honra" que as pessoas deveriam nos devotar, ou com que pensem e falem bem de nós, teremos um atestado de que ainda nos encontramos a uma boa distância. . . . Crescemos em santidade, preocupando-nos com "a honra" procedente daquele que é o Deus único". . . .

Medite por Trinta Minutos
Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxado, mas, atento. Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.


 
 
Comunidade Mundial de Meditação Cristã