Dom John Main, OSB - WCCM
"Carta Nove" - Leitura de 27/07/2008
Common Ground: Letters to a World Community of Meditators (New York: Continuum, 1999) págs. 103-104.
Tradução de Roldano Giuntoli
 

A meditação não permite que nos enganemos. Nos vemos, como somos. Nos é impossível deixar de enxergar as maneiras pelas quais somos falsos ou hipócritas; nossas ilusões, auto-enganos, inseguranças medrosas e, compulsões se mostram claramente; e, a maneira como julgamos e rejeitamos outras pessoas, de maneira tão arrogante, atingirá como uma adaga nossa consciência, quando a enxergarmos.  Porém, ao encararmos esse lado sombrio de nós mesmos, o iluminamos. O vemos, com uma luz que brilha, a partir de algum local mais profundo em nós mesmos. E, essa luz de nosso espírito calcina essa nossa auto-aversão, com a revolucionária e finalmente inevitável verdade, de que somos bons e dignos de amor.

Quanto mais conscientes estivermos do verdadeiro ser, mais veremos nossa atitude se modificar em relação aos outros, na maneira como mantemos nossas relações com eles.  O medo diminui, o amor generoso aumenta; as reações iradas cedem lugar à sabedoria do perdão; o julgamento é absorvido pela paciência. Em lugar do controle e da manipulação, que aos olhos do ego é o que faz o mundo girar, vislumbra-se uma surpreendente liberdade, como real possibilidade nos negócios humanos: a liberdade que surge quando as pessoas permitem, umas às outras, que elas sejam quem realmente são. O mundo não seria perfeito, mesmo se fizéssemos isso desde a infância, mas, certamente necessitaríamos menos prisões e, aqueles que nelas estivessem, poderiam ser aqueles que efetivamente se beneficiariam por ali estar.

Mas, que grande risco. O grande risco que assumimos na meditação é, antes de mais nada, o de sermos nós mesmos.  Este é o primeiro passo. Se não déssemos o correspondente próximo passo, jamais nos moveríamos de onde estamos; estaríamos saltando em uma só perna toda a nossa vida. O próximo passo é o de assumirmos o risco de deixar que os outros sejam eles mesmos. A maneira de fazermos isso, é percebermos que a realidade deles é distinta da nossa. E, percebê-los como reais é amá-los. Iris Murdoch escreveu certa vez, que  “o amor é a percepção do indivíduo”. Ela seguiu dizendo,
O amor é essa extremamente difícil compreensão de que algo além de nós mesmos é real.  O amor e, assim também, a arte e a moralidade, é a descoberta da realidade. O que nos choca, nessa compreensão de nosso destino supersensitivo, é uma indizível particularidade.

A grande ação da contemplação é a de voltarmos a atenção para fora de nós mesmos, na direção da realidade maior “fora de nós” que nos contém. É a mesma ação da contemplação, qualquer que seja a maneira como a consigamos fazer: nos relacionamentos, na arte, no serviço e, na prece. Certamente, uma maneira fundamental de fazê-lo, é a de aprendermos a meditar, uma arte de aprendizado vitalícia. Meditar é aprender a viver contemplativamente em tudo o que fazemos, [para], tal como Santo Antão do deserto certa vez exortou seus discípulos a: “sempre respirar Cristo”.

Medite por Trinta Minutos
Sente-se confortavelmente, mas com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxado mas atento. Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a como quatro silabas de igual duração Ma-ra-na-tha, em ritmo lento. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense nem imagine nada - nem de ordem espiritual nem de qualquer outra ordem. Se pensamentos e imagens afluírem à mente, trate-os como distrações e simplesmente retorne à repetição da palavra.

Comunidade Mundial de Meditação Cristã