John Main OSB - WCCM

“Segunda Conferência de Getsêmani (extrato)" - Leitura de 29/01/2012
John Main OSB, Meditação Cristã (São Paulo: Paulus, 5a Edição,2004), pgs. 37-39.

A meditação é a oração de fé, porque aceitamos livremente seguir o preceito do Mestre: estamos dispostos a perder nossa vida para conseguir realizar plenamente nosso próprio potencial.
E quando tivermos encontrando nosso verdadeiro Self, nossa tarefa, por assim dizer, estará apenas no início. Pois, encontrarmo-nos com nós mesmos, para retomar a expressão de Santo Agostinho, significa descobrir o degrau que nos levará a Deus. Então, e só então, encontraremos a confiança necessária para dar o segundo passo, que é deixar de olhar para o Self que acabamos de descobrir, e desviar o projeto de nós mesmos para focalizar o Outro. Ora, a meditação é a oração de fé precisamente porque deixamos para trás a nós mesmos antes que o Outro apareça, e sem nenhuma garantia pré-estabelecida de que Ele irá aparecer. A essência de toda pobreza consiste nesse risco de aniquilamento.


Esse é o salto que damos, na fé, saindo de nós mesmos em direção ao Outro: é o risco que envolve todo amar. Assim, uma experiência, mesmo que breve, da prática da meditação, nos revela que o processo de auto-empobrecimento é uma experiência contínua e cada vez mais radical. Este é um momento muito delicado no nosso processo de oração. Pois, quando percebemos a totalidade exigida pelo compromisso assumido na profunda entrega de nós mesmos à oração, há uma tentação muito forte de voltar atrás, de fugir do apelo da pobreza total, de abandonar a meditação, de desistir da ascese do mantra e retornar à oração onde o centro somos nós e não Deus.


A tentação é a de retornar à oração que poderíamos descrever como a oração da piedade anestesiada, flutuante: a oração denominada por João Cassiano de Pax Perniciosa (Paz Prejudicial) e o Sopor Letalis (Entorpecimento Letal). Ora, é preciso transcender essa tentação. Jesus chamou-nos a perder nossa vida e não a emprestá-la; nem a tentar negociar condições mais favoráveis. Se perdemos nossa vida, e somente se a perdermos, iremos encontrá-la nEle. E, na visão de Cassiano, restringir nossa mente a uma só palavra [e prova de autenticidade de nossa renúncia. Nesta visão de Cassiano, renunciamos ao pensamento, à imaginação e até mesmo à auto-consciëncia que é a matriz da linguagem e da reflexão.


Mas procuremos entender com a máxima clareza porque renunciamos a todos esses dons de Deus na hora da oração – aquilo que o autor da Nuvem do não-saber chamou de "hora do trabalho" (hora da obra). Não bastaria dizer que renunciamos a tudo isso meramente porque nos "distrai". Seria, evidentemente, um absurdo negar que são meios naturais primordiais de comunicação e autoconhecimento. Nem a eles renunciamos por considerar que náo possuem lugar em nosso relacionamento pessoal ou social com Deus. É óbvio que toda nossa resposta a Deus na Liturgia se baseia em palavras, gestos e imagens. E o próprio Jesus nos disse que podemos orar ao Pai em Seu Nome para obter tudo de que precisamos como também pelas necessidades do mundo inteiro.

Devemos estar sempre bem conscientes destas considerações. Mas creio que todos nós sabemos, no âmago de nosso ser, qual o verdadeiro sentido das palavras de Jesus quando nos convida a perder nossa vida, de maneira a reencontrá-la. E, nesse âmago, cada um de nós sente a necessidade de uma simplicidade radical. Experimentamos a necessidade de passar além de todas as nossas atividades para alcançar o princípio unificante da própria atividade: a causa e o fim do movimento. Em outras palavras, todos nós conhecemos a necessidade de nos regozijar pela existência de nosso ser no que tem de mais simples. Ali onde nosso ser simplesmente existe, sem outra razão qualquer para essa existência a não ser a de dar glória a Deus que o criou, ama e sustenta. E é na oração que experimentamos a pura alegria de simplesmente ser. Havendo renunciado a tudo que temos, tudo pelo qual existimos, estamos diante do Senhor Deus em total simplicidade. E a pobreza do versículo único, que Cassiano nos recomenda é o meio. . . de perder nossa vida a fim de podermos encontrá-la, de nos anularmos a fim de nos tornarmos o todo.

 

Medite por Trinta Minutos
Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.


 
 
Comunidade Mundial de Meditação Cristã