Laurence Freeman, OSB - WCCM
“Beijar a Alegria em Vôo" - Leitura de 30/05/2010
John Main OSB, THE HEART OF CREATION (New York: Continuum, 1998), pgs. 74-75.
Tradução de Roldano Giuntoli
 

Desprendimento não é uma dissociação de você mesmo, ou uma fuga de seus problemas ou responsabilidades. Não se trata de uma negação da amizade ou afeição, ou mesmo da paixão. Desprendimento, essencialmente, é o desapego da preocupação consigo, daquela mentalidade, frequentemente inconsciente, que se coloca no centro de toda a criação... Desprendimento é o que torna possível o amor, porque o amor só é possível se estivermos desapegados da preocupação consigo, se migrarmos para fora do auto-isolamento, se nos libertarmos da auto-indulgência,... da prática de usar as pessoas para nossos próprios interêsses.

Todavia, acima de tudo, e essa é a importante lição que precisamos aprender na meditação, o desprendimento é a libertação da ansiedade que sinto com a sobrevivência de minha própria pessoa. A vida nos ensina a todos que, em sua essência, amar é nos perdermos na realidade maior do outro, dos outros, e de Deus. O desprendimento do auto-centrismo nos liberta para o amor, de maneira a não mais estarmos sujeitos à busca animal pela sobrevivência. O desprendimento demanda uma confiança plenamente humana: confiança no outro, tanto nas outras pessoas, quanto em Deus. Demanda a disposição para a entrega, desistir do controle, e demanda força para ser.

Por meio do aprendizado da repetição de seu mantra, na meditação, você aprende a confiar, você aprende a ser. Na verdade, a alegria da meditação reside no fato de que ela é uma celebração do ser, uma celebração de pura alegria ao receber sua vida como dádiva, e fazer aquilo que Blake chamou de beijar “a alegria em vôo”.¹ A prece não é possuir, não é controlar, mas uma pura celebração do ser. Chegamos a essa celebração porque a meditação nos conduz a essa qualidade central, ao ponto de imobilidade. Em cada pessoa existe um ponto de imobilidade que sou eu, e não exclusivamente eu. Aquilo que você aprenderá, na meditação, é que há apenas um centro, que é o centro de todos os centros.

É isso o que passamos a entender na meditação, e o fazemos a partir de nossa própria experiência da profunda unidade do ser, a unidade que está em nós, e a unidade na qual temos o nosso ser. Na meditação, o compromisso é o de nos desapegarmos da pré-ocupação auto-consciente, através da fidelidade ao mantra, e da prática da disciplina do desprendimento, duas vezes ao dia. Os períodos de meditação, então, se tornam cada vez mais simples, mais alegres, mais centrados. E, nossas vidas, modificadas profundamente pela meditação, revelam, a partir de nossa própria experiência, o que é que significa a afirmação “Deus é amor”.


¹N. T.: Poeta, pintor e escultor  inglês, William Blake (1757-1827) escreveu esse belo e sábio poema: He who binds to himself a joy, Does the wingèd life destroy; But he who kisses the joy as it flies, Lives in eternity's sunrise. (Aquele que amarra uma alegria a si mesmo, Destrói a vida alada; Porém, aquele que beija a alegria em vôo, Da eternidade vive a alvorada.)

Medite por Trinta Minutos
Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxado, mas, atento. Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.

 
 
Comunidade Mundial de Meditação Cristã