Dom Laurence Freeman, OSB - WCCM
"Caríssimos Amigos " - Leitura de 30/08/2009
WCCM International Newsletter, Inverno de 2001.
Tradução de Roldano Giuntoli
 

Em tempos de conflito e de medo, é difícil encontrar a paz interior. Quando a mente e as emoções são turbulentas, descobrimos que nos sentarmos em imobilidade é difícil. É muito fácil desistirmos da meditação, nessas horas em que ela mais nos é necessária. Assim, nos ajudará entendermos que a meditação não se destina apenas a nós mesmos. Caso assim fosse, nada mais seríamos do que consumidores da religião. O significado da contemplação se encontra em seus frutos, especialmente no amor e no serviço aos outros. Quando temos paz interior, nos voltamos para os outros, com compaixão. Sem ela, toda nossa manifestação está sujeita ao desejo, à raiva e à competitividade do ego. Deus é o amor que desfaz o medo em nosso vizinho, pois quando verdadeiramente encontramos aquele amor dentro de nós mesmos, jamais poderemos causar qualquer mal a nosso vizinho.

O auto-conhecimento nos abre para o mistério da exclusividade humana, a unidade na diversidade. Enquanto não reconhecermos e abraçarmos nossa própria exclusividade, não poderemos nos relacionar com o universal. Permanecemos presos na armadilha do egoísmo. Devemos compreender nossa própria santidade particular, antes que possamos conhecer o todo em que temos nosso ser e, onde mais verdadeiramente nos sentimos em casa. O grande erro (e o pecado do clericalismo) é o de fingir ter assimilado o universal antes de termos alcançado o auto-conhecimento. Tentar assimilar o universal, falar em nome dele, controlá-lo, esses são os sinais de que nós ainda não fomos assimilados por ele.

O que é que o "universal" significa? Jesus o expressou como sendo a natureza do amor divino dispensado imparcialmente a tudo o que é. Assim como o sol ilumina igualmente o bom e o mau. Isto significa que Deus está além da moralidade humana. Deus nunca luta a meu lado contra os outros. Assim como a chuva, o amor divino recai sobre o inocente e sobre o malvado. Isto significa que a justiça de Deus está além de qualquer tentativa humana de ser justo. Um amor une o opressor e a vítima. Precisamos primeiro experimentar essa universalidade à medida que ela se aplica a nós mesmos. Ela então, descarta o ego. Ela nos simplifica. Ela nos eleva acima da complexidade de nossas vidas, à medida que inunda todo nosso ser, por nosso mais profundo centro. Só então estaremos verdadeiramente despertos. Ali principiam as gêmeas aventuras humanas da descoberta e da celebração. Descobrimos que o mesmo amor está em toda parte e, envolve a todos, até mesmo aqueles que ainda não sejamos capazes de amar. Contudo, ao menos podemos ver que eles são passíveis de ser amados. Também celebramos. Nos regozijamos com a beleza intoxicante que apenas os olhos de um amante podem ver. Só então, teremos verdadeiramente feito as pazes conosco e com o mundo.

A paz não é alcançada com a erradicação e a destruição do mal. Quando nos damos conta de nossos vícios, raiva, orgulho, ganância e luxúria, a tentativa de destruí-los facilmente se degenera em ódio a si mesmo. Afinal, se não podemos nos amar a nós mesmos, por que nos importarmos em amar aos outros? Melhor que destruir suas falhas, é trabalhar para pacientemente implantar as virtudes, um trabalho mais lento e menos dramático, mas muito mais eficaz. Adicionalmente, ao evitar os perigos da hipocrisia religiosa e do moralismo, cria-se uma mais agradável personalidade ativa. Escondidas em todas as nossas falhas, nossa capacidade para a maldade, há também as sementes de muitas virtudes. O terrorista pode ter tido a semente da justiça nele, antes que dele se apossassem sua própria raiva e, a ilusão de que ele seria o instrumento da ira divina. Quando combatemos a nós mesmos (muitos dos grandes fanáticos religiosos têm praticado a auto-negação) nos arriscamos a enormes danos colaterais: com a destruição de nossas próprias sementes de virtude. Todo tipo de violência é um crime contra a humanidade, pelo fato de privar o mundo de bondade desconhecida.

O primeiro passo na implantação das virtudes que por fim sobrepujarão os vícios, é o de estabelecer a virtude fundamental da prece regular e profunda. Através desse ritmo silencioso da prece, a sabedoria lentamente penetra nossa mente e nosso mundo. A sabedoria é o poder universal que, da maldade, gera o bem. Tal como nos diz o livro da Sabedoria: "a esperança da salvação do mundo reside num maior número de pessoas sábias". Os sábios conhecem a distinção entre o auto-conhecimento e a auto-fixação, entre o desapego e o endurecimento do coração, entre o corrigir e a crueldade. Não há regras para a sabedoria. As regras nunca são universais. Mas, a virtude é.

Medite por Trinta Minutos
Sente-se confortavelmente, mas com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxado mas atento. Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a como quatro silabas de igual duração Ma-ra-na-tha, em ritmo lento. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense nem imagine nada - nem de ordem espiritual nem de qualquer outra ordem. Se pensamentos e imagens afluírem à mente, trate-os como distrações e simplesmente retorne à repetição da palavra.

 
 
Comunidade Mundial de Meditação Cristã