Dom John Main, OSB - WCCM
"Quarta-Feira de Cinzas 2009: A Meditação e a Quaresma" - 15/03/2009
Tradução de Roldano Giuntoli
 

Assim como o Ramadan, o período cristão da Quaresma oferece aos praticantes de sua fé, uma oportunidade com muitas graças, para a interiorização de sua experiência dos mistérios. Fazemos isso por meio da purificação e da simplificação de nossas mentes, bem como, do dia-a-dia de nossas vidas. É um período de aceitação de que o espiritual é menos um ideal, e mais real. Trata-se de cura e integridade, mais do que um perfeccionismo que, perigosamente, mais alimenta o ego, do que o diminui. Trata-se de moderação, mais do que de extremos.

A adoção de novas disciplinas espirituais, poderá ser um estímulo e um refrigério. Também poderá ser arriscado. Estariam elas sendo adotadas como técnicas que podemos dominar para bajular a Deus, ou até mesmo forçá-lo a nos recompensar? Seriam elas meios de repreendermos nós mesmos, por nossas fraquezas, de um modo que secretamente nos torna mais orgulhosos, em vez de conduzir à humildade que é o auto-conhecimento.

É por isso que Jesus insistia para que seus discípulos não fizessem de seu jejum um espetáculo, especialmente para si mesmos. O ego será sempre um espectador atento a nossas ambições espirituais. Para evitarmos esta armadilha, sacamos da tradição de sabedoria que também serviu ao ensinamento do próprio Jesus Cristo. Com um jejum discreto, há também a prática complementar da esmola. Com o primeiro, reduzimos nosso próprio consumo. Com a outra, expandimos nossa generosidade àqueles necessitados.

Em meio a nossa crise econômica global, o jejum poderá parecer inevitável. As pessoas gastam menos, por terem menos para gastar. Porém, como nesses tempos os pobres são os que mais sofrem, também será importante darmos mais. Não deveríamos deixar de espiritualizar isso, como justificativa para a possessividade e o auto-interesse. Mas, também, deveríamos compreender que a redução de nosso consumo, aplica-se a mais do que o simples comprar ou comer. Poderá também se traduzir no quanto inconscientemente assimilamos, por sermos viciados nos meios de comunicação e do entretenimento. Quanto tempo adicional dedicamos à meditação e à leitura das escrituras. Um dia sem televisão, uma manhã sem o rádio. Esmolas, do mesmo modo, não abrangem apenas os bens materiais, mas, também, o tempo que dedicamos atenção e amor a outros. Uma sessão extraordinária, com alguém que sabemos precisar ser ouvido. Um momento para dedicar estima a uma pessoa solitária.

A melhor maneira de equilibrar nossa vida espiritual e nossa vida do dia-a-dia, tornando-as mais harmoniosas, é a de ser fiel e generoso com o tempo que dedicamos à meditação toda manhã e toda tarde. É fácil evitar esse jejum e essa esmola interiores (a meditação tanto é uma redução como uma expansão), por meio da dramatização das práticas exteriores. Procuramos meios de escapar ao anzol da verdadeira ascese. John Main nos ajuda a compreender isto, ao nos dizer que a meditação é a ascese essencial da vida espiritual.

A ascese não significa auto-negação ou adoção de desconforto. Literalmente, significa exercício ou treinamento. Caso utilizemos estes quarenta dias para nos condicionarmos melhor, celebraremos melhor os mistérios da Páscoa. Caso abracemos alegremente este período do deserto, sendo acima de tudo fiéis à sua quietude e silêncio interior, melhor enxergaremos que o deserto não está deserto. Ele está repleto. Não se trata de um desvio do caminho para o Reino, mas, de seu verdadeiro portal.

Com muito amor
Laurence Freeman OSB

Medite por Trinta Minutos
Sente-se confortavelmente, mas com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxado mas atento. Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a como quatro silabas de igual duração Ma-ra-na-tha, em ritmo lento. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense nem imagine nada - nem de ordem espiritual nem de qualquer outra ordem. Se pensamentos e imagens afluírem à mente, trate-os como distrações e simplesmente retorne à repetição da palavra.

Comunidade Mundial de Meditação Cristã