Carta 44 - Os Maus Pensamentos

ESCOLA DE MEDITACAO WCCM

Ano 2 - Carta 44

Os Maus Pensamentos

 

Cara(o) Amiga(o)

Evágrio alcançou profundo discernimento psicológico sobre o funcionamento da mente humana. O fato de que os discernimentos, decorrentes de pensamentos cuidadosamente examinados, são essenciais para a mudança e a transformação só foi redescoberto no século 19, com Freud e Jung. Atualmente essa é uma hipótese de trabalho comumente aceita pela maioria dos psicoterapeutas e analistas. Muitos dos enunciados de Evágrio não estariam fora de lugar em um manual da psicoterapia moderna.

Em seu ensinamento sobre "observar os pensamentos", ele distingue os seguintes como os mais importantes: "Há oito categorias gerais e básicas de pensamentos em que são incluídos todos os pensamentos. Primeiro vem a da ganância, em seguida, impureza, avareza, tristeza, raiva, acídia, soberba, e finalmente, o orgulho”. Encontramos, em uma carta anterior, o "demônio da acídia”, a aridez espiritual com seu sentimento de "que importância tem isso?” ou de “nada acontece nunca”, que tenta nos impedir de perseverar no caminho da meditação. Embora nós o encontremos em primeiro lugar, ele não é um dos mais importantes; estes são a ganância, a avareza e a busca pelo apreço: "Dentre os demônios que nos obstaculam a prática da vida ascética, há três grupos que lutam na linha de frente: aqueles a quem foram confiados os apetites da ganância, aqueles que sugerem pensamentos avarentos, e aqueles que nos incitam a procurar a estima dos homens. Todos os outros demônios os seguem e, por sua vez, atacam aqueles já feridos pelos três primeiros grupos ". É fácil ver quão desenfreados ainda andam esses “demônios” em nosso tempo atual!

A ganância dá início, portanto, a todo o processo, e se aplica a todos os aspectos da vida, não só ao alimentar. É considerada uma forma de apego obsessivo a tudo, que inclui capacidades físicas e intelectuais, conhecimento e bens materiais, por poucos que sejam. Poderia até mesmo se estender para as relações sexuais, daí a "falta de castidade". A "Ganância" era realmente considerada como uma atitude geral de imoderação, por isso, na vida ascética, poderia se aplicar mais ao jejum extremo do que ao comer em excesso. Além disso, o perigo era que isso poderia facilmente levar à sujeição aos demônios da 'vaidade' e do 'orgulho': Abba Isidoro, o sacerdote, dizia: "Se você jejua regularmente, não fique inflado de orgulho, mas se você se julga superior por causa dele, então é melhor comer carne. É melhor para um homem comer carne do que ficar inflado com orgulho e se glorificar a si mesmo”.

A preocupação com a alimentação e o jejum poderia levar não apenas ao "orgulho", mas também à "avareza". O asceta poderia não estar disposto a quebrar o jejum para compartilhar uma refeição com o irmão que bate à porta, por causa de preocupações quanto a não ter comida suficiente para manter a própria saúde. Ao fazê-lo, ele também teria rompido com a virtude importante de oferecer hospitalidade. 

“Tristeza” e “raiva” são consideradas demônios aparentados. Por “tristeza”, Evágrio não queria dizer “depressão” ou luto genuíno, mas sim uma tristeza que surge quando os desejos são contrariados. Ela era muitas vezes acompanhada pela "raiva" em relação àqueles que tinham as habilidades ou posses que os ascetas cobiçavam. 

Pensamentos “perturbados”, ou “maldosos”, de “vaidade”, ou “orgulho” eram considerados por Evágrio os demônios mais perigosos, mesmo quando o asceta já estava bastante avançado no caminho: "O espírito de soberba é muito sutil e cresce facilmente nas almas daqueles que praticam a virtude. Ele os leva a desejar tornar as suas lutas conhecidas publicamente, para angariar o louvor dos homens.... O demônio do orgulho é a causa da queda mais prejudicial para a alma. Pois induz o monge a negar que é Deus quem o auxilia, e a considerar que ele mesmo é a causa da ação virtuosa.

Esta forma discursiva de meditação, a “observação dos pensamentos", é um elemento essencial no caminho espiritual, que leva ao autoconhecimento, e ao conhecimento da Presença Divina.

 

por Kim Nataraja

 

Até a próxima semana!

Escola da Comunidade Mundial para a Meditação Cristã
BRASIL

 

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Na ‘Conferência IX’ de João Cassiano, Abba Isaac, um dos Padres do Deserto, começa a ensinar a Cassiano e seu amigo Germano, sobre a oração. Ele primeiro enfatiza que existem diferentes tipos de oração. “O apóstolo [São Paulo] aponta quatro tipos de oração. ‘Recomendo, pois antes de tudo, que se façam pedidos, orações, súplicas e ações de graças, por todos os homens’ (1Tm 2,1). Ora, pode-se ter certeza de que essa divisão não foi feita inconsequentemente pelo Apóstolo.

Então, devemos primeiro investigar o que se quer dizer por pedido, por oração, por súplica e por ação de graças.” Abba Isaac continua com explicações detalhadas dos tipos de orações mencionados, quando cada um deles é apropriado, e conclui dizendo: “Portanto, todos estes tipos de orações... são valiosos para todos os homens [e mulheres] e, de fato, são realmente necessários.” Ele chega a ilustrar como o próprio Jesus usava cada um destes tipos de orações. Ele segue com uma explicação da oração que Jesus nos ensinou, o ‘Pai Nosso’, e a denomina a mais perfeita das orações.

Mas, finalmente, ele chega à mais desejável de todas as orações: a ‘oração pura’, ‘contemplação’, quando não mais estamos conscientes de que estamos orando e, então, ele cita Santo Antão: ‘A oração não é perfeita quando o monge está consciente de si mesmo e do fato de que ele está realmente orando.’ Abba Isaac enfatiza que todas as formas de oração podem conduzir à ‘oração pura’: o que se faz necessário é persistência e fé.

Ele, então, os incita para que eles “sigam o preceito do Evangelho, que nos instrui a entrar em nosso quarto (Mt 6,6), e fechar a porta, para então orar ao nosso Pai. Nós oramos em nosso quarto quando retiramos nossos corações completamente da confusão de todo pensamento e preocupação, e revelamos nossas orações ao Senhor em segredo, por assim dizer, intimamente. Nós oramos com a porta fechada quando, com os lábios cerrados, e em total silêncio, oramos “àquele que busca corações, e não vozes”.

Aqui ele mostra o fundamento da contemplação, sem dizer a eles como ‘entrar em seu quarto’. Mas, na próxima Conferência ele explica como fazer isso, quando Cassiano e Germano mostram que estão prontos para esse tipo de oração ao fazerem a pergunta correta. Agora chegamos ao caminho de oração que John Main encontrou, para sua alegria, nos ensinamentos de Cassiano: orar com uma ‘fórmula’, que leva à contemplação.

Abba Isaac não restringe este tipo de oração a certos períodos do dia, mas incita Cassiano e Germano no sentido de ‘orar sem cessar’; “Você deveria, eu digo, meditar constantemente sobre este verso em seu coração. Você não deveria parar de repeti-lo enquanto estiver fazendo qualquer tipo de trabalho, ou realizando algum serviço, ou participando de uma jornada. Medite sobre o verso enquanto estiver dormindo, e comendo, e cumprindo as menores necessidades da natureza.”

Embora não se possa negar a importância deste tipo de oração para nós, e para os Cristãos primitivos, devemos lembrar que é apenas uma das formas de oração, dentre tantas outras. Laurence Freeman usa a imagem de uma roda para exemplificar os tipos de oração: “Pense na oração como uma grande roda. A roda gira em nossa vida em direção a Deus.... Os raios da roda representam os diferentes tipos de oração. Nós rezamos de formas diferentes, em horários diferentes, e de acordo com o nosso estado de espírito... Os raios são as formas ou expressões da oração, que se ajustam ao centro da roda, que é a oração do próprio Jesus... Todas as formas de oração são válidas. Todas são efetivas. Elas são informadas pela oração da consciência humana de Jesus que está dentro de nós, pela graça do Espírito Santo.” (Laurence Freeman)

 

por Kim Nataraja