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Sábado da Segunda Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Existe uma falsa paz que vem meramente da impressão de que estamos no controle e que podemos explicar tudo que está acontecendo. É o que Jesus chamou de “paz como o mundo dá”, e a distinguiu de sua própria paz, que concede como dádiva. Como todas as dádivas de uma fonte verdadeiramente autêntica, ela é sem condições, independentemente de o beneficiário - nós - merecer ou não.

A paz como o mundo dá se degrada e é facilmente dissolvida, deixando-nos confusos, assustados e raivosos. Algo com que contávamos não existe mais, e seu desaparecimento mina nossa confiança na benevolência do universo. Já não podemos ter certeza de que a vida vai nos tratar de forma justa. Qualquer infortúnio pode causar essa ruptura da paz. Pode ser a perda de uma epifania de amor, na qual tínhamos cautelosamente nos permitido acreditar e que achávamos que duraria para sempre. Pode ser um diagnóstico médico inesperado, ou uma carta dizendo que nos tornamos redundantes. Em instantes, a paz que nos deu um amortecedor, para superar os pequenos solavancos da vida com um sorriso, desaparece numa lufada de ar. Aterrissamos com uma pancada dura em uma terra que de repente tornou-se difícil e inóspita.

Pior de tudo, não faz sentido. As trivialidades religiosas podem dar alívio temporário: Deus trabalha de maneiras misteriosas. Temos que aceitar o áspero com o suave. Jesus também sofreu desse jeito. Não é que elas são falsas, mas continuam sendo trivialidades insípidas, sem fundamento e anêmicas, até que tenhamos vivenciado seu significado. Uma vez que o tenhamos, podemos usá-las com moderação.

Não há explicação. Pelo menos, nenhuma que leve em conta toda a gama de destinos humanos, incluindo a comédia e a tragédia da vida. As explicações buscam a harmonia e apresentam uma visão ordenada das coisas. Como na música, relaxamos na harmonia e permitimos que nos acalme. Bach tem muitas seções em suas gloriosas harmonias nas quais propositalmente perturba o equilíbrio e, por um tempo, promove caos na mente do ouvinte. Estes são os momentos em que ele deliberadamente apresenta a dissonância. Parece que as coisas desmoronam, bem quando estavam tomando uma bela forma. Por quê ele faz isso: seria ele na verdade um cínico dissimulado rindo de nossa credulidade por acreditarmos em harmonias supremas? Ou está revelando o segredo sombrio de que tudo acabará em caos.

Essas explicações, sobre o porquê Bach às vezes nos nega a harmonia da explicação, não confluem com a fé profunda que permeia sua música. Seu uso de dissonância pode ser uma expressão de que o inexplicável deve ser aceito tanto quanto o previsível e todas as explicações ordenadas que gostamos que nos protejam. Mas nenhum deles é completo ou real, a menos que possam coexistir com o que é às vezes sem sentido e que resiste a qualquer razão. Uma mãe que perdeu dois filhos em um acidente de carro não deve ter de ouvir de um jovem padre, ansioso para suavizar essa dissonância fatal, “Não se preocupe, eles estão em um lugar melhor”. Não existe uma explicação fidedigna que não respeite a inexplicabilidade das coisas.

Nossas disciplinas Quaresmais são uma espécie de dissonância controlada que pode nos ensinar isso em escala reduzida. O mesmo acontece com o refluxo e o fluxo de percepção na meditação diária ao longo dos anos.

 


 

Texto original em inglês

Saturday Lent Week Two

There is a false peace which comes merely from the feeling that we are in control and can explain everything that is happening. It is what Jesus called ‘peace as the world gives it’ and he distinguished it from his own peace which he bestows as gift. Like all gifts from a truly authentic source it is without conditions, regardless of whether the beneficiary – us – deserve it or not.

Peace as the world gives it breaks down and is easily dissolved leaving us confused, frightened and angry. What we had relied on is no longer there and its disappearance undermines our trust in the benevolence of the universe. We can no longer be sure we will be treated fairly by life. Any number of misfortunes may cause this breakdown of peace. It might be the loss of an epiphany of love that we had cautiously allowed ourselves to believe in and felt would last forever. It could be an unexpected medical diagnosis or a letter telling us we are made redundant. In a moment the peace which gave us a cushion, on which to ride out the small bumps of life with a smile, is gone in a puff. We land with a hard bump on an earth that has suddenly become hard and inhospitable.

Worse of all it makes no sense. Religious platitudes may give temporary relief: God works in mysterious ways. We have to take the rough with the smooth. Jesus suffered like this too. It is not that they are untrue but they remain tasteless platitudes, ungrounded and bloodless, until we have experienced their meaning. Once we have, we may use them, sparingly.

There is no explanation. At least none that takes account of the full range of human destiny including the comedy and the tragedy of life. Explanations seek harmony and present an orderly view of things. As in music, we relax into harmony and allow it to soothe us. Bach has many sections in his glorious harmonies where he tips this apple cart over and, for a while, lets the apples roll chaotically around the listening mind. These are the times when he deliberately introduces dissonance. It sounds as if things fall apart, just as they were taking beautiful shape. Why does he do this: is he really a secret cynic laughing at our gullibility for believing in ultimate harmonies? Or is revealing the dark secret that it will all end in chaos.

These explanations of why Bach sometimes denies us the harmony of explanation do not flow with the deep faith that pervades his music. His use of dissonance might be a statement that the inexplicable has to be accepted just as much as the predictable and all the orderly explanations we like to protect us. But none of these are complete or real unless they can co-exist with what is at times senseless and resists being given any reason. A mother who has lost two children in a car accident should not be told by a young priest eager to smooth away this fatal dissonance, ‘don’t worry, they are in a better place.’ There is no trustworthy explanation that does not respect the inexplicability of things.

Our Lenten disciplines are a sort of controlled dissonance that can teach us this in a small way. So does the ebb and flow of feeling in daily meditation over the years.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.