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Segunda-feira da Terceira Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Em qualquer estrutura de poder, a influência espiritual ou o status religioso é fonte de tentação. A maior parte do lado sombrio da história da Cristandade, desde o édito de Milão em 313 dC (quando o Império parou de perseguir os seguidores de Jesus), pode ser creditada à submissão às tentações do poder. Essa era a ilusão que Jesus distinguia tão claramente e, à qual renunciou durante sua própria Quaresma. Para mim, é difícil acreditar que Jean Vanier tenha sido tentado por esse tipo de poder.

Não conheço seu universo interior, mas tomando por base o seu ensinamento e personalidade, me arriscaria a dizer que sua ferida, auto infligida, que o levou a ferir outras pessoas, não era uma fome bruta de poder, mas um auto engano por conta de sua própria deficiência e carência de intimidade. É claro que ele possuía poder e que fez mau uso dele com pessoas às quais deveria ter estendido os seus cuidados, em vez de tê-las usado. Porém, suponho que ele não tenha sido motivado por desejo de poder ou de aclamação. Foi algo que se aproximava mais daquilo a que ele frequentemente se referia: fraqueza e deficiências. Quando não as reconhecemos, elas se tornam forças sombrias.

Mas, será que isso faz alguma diferença? Para as pessoas que ele feriu, pouco importa a motivação dele, mas sim as consequências que sofreram e a atenção que agora recebem. Não tenho certeza; qualquer um se sente desconfortável em refletir sobre isso para um entendimento certo. Mas, procurar entender nos auxilia a corrigir os erros que cometemos acerca do importante significado da santidade. Todas as religiões professam a ideia da santidade, o estado iluminado e liberto de indivíduos que mergulharam mais fundo nos processos da transformação humana. Podemos acreditar que esse processo de santificação tenha se completado em alguém, quando a verdade está longe disso. Não temos todos nós, lados bom e mau, altruísta e de auto sacrifício, iluminado e sombrio? Sempre que for óbvio que esse processo em nós não se completou, ninguém nos chamará de “santos”. Se o processo estiver mais adiantado, as pessoas podem se apressar em concluir que lá chegamos. Então, ergue-se mais um pedestal e, nossa argila humana passa a ser reutilizada para fabricar um santo de gesso.

A única abordagem segura é a de não chamar ninguém de santo (para os católicos nem mesmo o “Santo Padre”). Jesus nos advertiu para não chamarmos a ninguém de Pai, Professor ou, Mestre. Há um único Pai, e um Mestre. Só Deus é santo. Só Deus é bom. Seu aviso para “não julgar” inclui tanto os julgamentos exageradamente positivos que fazemos dos outros, quanto as mais completas condenações que gostamos de emitir. É complicada a situação em que fica exposto alguém que nos ensinou e que víamos como amigo e, em que vemos como ele feriu outras pessoas. A primeira preocupação, então, é a dos cuidados para com quem foi ferido, os danos colaterais humanos. Em segundo lugar nos preocupamos em ser cuidadosos (por nossa causa e pela da verdade) ao julgar quem ofendeu. Mesmo se, em termos relativos, temos apenas uma palha em nosso próprio olho, precisamos antes tirá-la para depois enxergar claramente qualquer coisa. Por exemplo, em que extensão fomos, ainda que inconscientemente, facilitadores de um apetite pelo poder, ou de um jogo de auto-engano, que se tornou, em uma pessoa basicamente boa, uma tentação irresistível?

É duro quando os heróis, especialmente nossos heróis espirituais, passam vergonha, e são rebaixados. Assim, talvez, seja bom que não haja mais heróis. Ou, apenas um herói. É melhor, e mais seguro, para todos os envolvidos.

 


 

Texto original em inglês

Monday Lent Week Three

Religious status or spiritual influence in any power structure is a source of temptation. Most of the dark side of the history of Christianity, since the edict of Milan in AD 313 (when the Empire stopped persecuting of the followers of Jesus), can be attributed to giving in to temptations of power. This was the illusion that Jesus so clearly saw through and refused during his own Lent.
I find it hard to believe that Jean Vanier was tempted by this kind of power.

I don’t know his inner world, but on the basis of his teaching and personality I would venture to say his self-inflicted wound that led him to wound others was not crude hunger for power but self-deception around his own handicap and hunger for intimacy. Clearly he did have power and misused it with people whom he should have been caring for, not using. But, my guess, is that it was not driven by the desire for power or acclaim. It was closer to what he often spoke about: weakness and handicaps. When these are not acknowledged they become dark forces.

But does this even make a difference? What matters for those he hurt is not his motivation but the consequences they suffered and the attention they now receive. I am not sure; it is uncomfortable for anyone to reflect on and get it right. But trying to understand it helps us to correct the mistakes we make about the important meaning of holiness. All religion proposes the idea of holiness, the enlightened, liberated state of individuals who have plunged more fully into the processes of human transformation. We may assume this process of sanctification is complete in someone when it is anything but finished. Don’t we all have good and bad, self-less and self-sacrificing, enlightened and shadow sides? When it is obvious that our process is not complete, no one calls us ‘holy’. If it is more advanced, people can jump to the conclusion we have arrived. And then up goes another pedestal and our human clay is re-used to make a plaster saint.

The only safe approach is to call no one holy (for Catholics not even the ‘Holy Father’). Jesus warned us to call no one ‘Father’ or ‘Teacher’ or ‘Master’. There is only one Father and one Teacher. Only God is holy. Only God is good. His warning to ‘judge not’ includes over-positive judgements of others as well as the total condemnations we like to make. It is complicated when someone we have learned from and whom we saw as a friend is exposed and we see how they harmed others. The first concern then is caring for those who have been hurt, the human collateral damage. Second, is being careful (for our sake and that of the truth) how we judge the offender. Even if, relatively speaking, we have only a splinter in our own eye, we need to take it out before we can see anything clearly. For example, how far were we, even unconsciously, facilitating a lust for power or the game of self-deception, which became, in a basically good person, an irresistible temptation?

It’s hard when heroes, especially our spiritual heroes, are shamed and downgraded. So maybe it’s good that there are no heroes anymore. Or only one hero. It’s better and safer for all concerned.