Leituras

Acesse mais leituras e mensagens de D. John Main e D. Laurence Freeman:

Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
Quaresma 2020 >
Quaresma 2019 >
Quaresma 2018 >
Quaresma 2017 >
Quaresma 2016 >
Quaresma 2015 >
Quaresma 2014 >
Quaresma 2013 >

Encontre um Grupo de Meditacao Crista

Terça-feira da Terceira Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Há uma visão falsa da Quaresma - e da ascese espiritual (exercício) em geral - que a associa a ser ou fingir ser solene a ponto de ser miserável. Jesus aborda isso dizendo: quando você pratica uma disciplina de autocontrole, não a divulgue, não pareça maltratado por ela ou piedoso. Faça de tudo para ficar relaxado e alegre.

Existe uma dinâmica de culpa entranhada em nossa psique. E outro fator perturbador no ego é a sensação mágica de que todo momento feliz gasta um crédito limitado, como em um plano telefônico, e isso deve ser compensado fazendo algo difícil ou penoso. Você paga pela felicidade. A felicidade é um produto e não o nosso estado natural. Não temos o direito de ser felizes enquanto o mundo é dilacerado por um vírus global, ou há um milhão de refugiados deslocados na Síria ou um amigo está sofrendo.

O que é felicidade? Para as pessoas religiosas, isso se encaixa na ideia de um Deus que só quer que você seja feliz nos termos dele, quando você O adora da maneira que ele aprova. E então esse Deus, uma forma complexa da ideia de karma - você recebe o que merece - transforma-se em um deus mesquinho, que recompensa e castiga. O treinamento religioso e as ideias culturais a respeito de Deus muitas vezes reforçam essa visão, mas ela é formada na infância, quando primeiro observamos como os adultos nos tratam. Bom garoto, aqui está um presente. Menino mau, vá para a cama.

A meditação tem um poder surpreendente de quebrar todo o complexo de ideias que se auto reforçam e pensamentos compulsivos que giram em círculo. Isso funciona diretamente em todos os nossos pensamentos e imagens sobre Deus - que não são apenas itens intelectuais, mas fortemente emocionais. Se você acredita que Deus vai puni-lo por seus erros, você será afetado emocionalmente em tudo o que faz e em todos os seus relacionamentos. Então, à medida que as ideias de Deus mudam, mudam também nossas visões fundamentais da realidade e nossas relações com outras pessoas.

As pessoas religiosas costumam ficar desconfortáveis no primeiro estágio deste processo. Eles sentem que Deus está desaparecendo, que meditação não é realmente oração ou que eles podem acabar ateus. Certa vez, um homem me disse que meditava fielmente, mas não estava convencido de que era realmente uma forma de oração aprovada pela Igreja ou por Deus. Assim, ele começava cada meditação com uma oração: ‘Querido Deus, vou meditar agora. Mas acredite, eu não sou realmente budista.’

À medida que as velhas ideias de Deus vão se esgarçando, nada sólido vem para substituí-las imediatamente . O tempo e a fé, no entanto, nos ajudam a perceber que o nada é pobreza de espírito, que o vazio é o espaço da plenitude e que a perda é a primeira parte de um ciclo que leva a um novo e surpreendente tipo de descoberta. Encontramos aquilo que perdemos, mas aquilo mudou ao ser perdido. Pela distância que tomou de nós enquanto estava perdido, ou porque nós mudamos. Às vezes temos que perder nossas crenças sobre Deus, até mesmo parar de acreditar, e simplesmente esperar. Até que acreditemos novamente, de uma nova maneira. A fé se aprofunda nos túneis do tempo. E o tempo é transcendido pela fé.

 


 

Texto original em inglês

Tuesday Lent Week Three

There is a false view of Lent - and spiritual ascesis (exercise) generally - that associates it with being or pretending to be solemn to the point of miserable. Jesus addresses this by saying, when you practice a discipline of self-restraint, don’t publicise it and look hard done by or pious. Go out of your way to be relaxed and cheerful.

There is a guilt dynamic embedded in our psyche. And another upsetting factor in the ego is the magical feeling that every happy moment uses up limited credit, like on a phone plan, and this has to be topped up by doing something hard or difficult. You pay for happiness. Happiness is a product not our natural state. We don’t have the right to be happy while the world is disrupted by a global virus, or there are a million refugees displaced in Syria or a friend is suffering.

What is happiness? For religious people, this slides into the idea of a God who only wants you to be happy on his terms, when you are worshipping him in a way he approves. And this God, a complex form of the idea of karma – you get what you deserve – then becomes a petty god who rewards and punishes. Religious training and cultural ideas of God often reinforce these ideas, but they are first formed in childhood as we observe how adults treat us. Good boy, here’s a present. Bad boy, go to bed.

Meditation has a surprising power to break up every self-reinforcing complex of ideas and compulsive loop-thinking. This works directly on all our thoughts and images about God – which are not just intellectual items but strongly emotional. If you believe that God will punish you for your faults you are emotionally affected in everything you do and in all your relationships. Then, as ideas of God change, so do our fundamental views of reality and our relations with other people.

Religious people are often made uncomfortable in the first stage of this process. They feel that God is disappearing, that meditation isn’t really prayer or that they may end up as an atheist. A man once told me he meditated faithfully but was not convinced it was really a form of prayer of which the Church or God approved. So, he would begin each meditation with a prayer: ‘Dear God I am going to meditate now. But believe me, I am not really a Buddhist.’

As old ideas of God fade, nothing solid immediately comes to take their place. Time and faith however help us to realise that the nothing is poverty of spirit, that emptiness is the space of fullness and that the loss is the first part of a cycle that leads to a surprising fresh kind of discovery. We find what we have lost but it is changed because it was lost. In the distance it took from us while it was lost it or we changed. Sometimes we do have to lose our beliefs about God, even to stop believing and wait. Until we believe again in a new way. Faith is deepened in the tunnels of time. And time is transcended by faith.