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Quarto Domingo da Quaresma

D. Laurence Freeman

Quarta semana da Quaresma 2020

Talvez a pergunta "por que os padres católicos usam vestes cor-de-rosa neste domingo da Quaresma?" não seja a preocupação mais urgente para o mundo neste momento. Mas ela oferece um vislumbre por trás da ansiedade e da turbulência interna e externa que nossa família humana está sofrendo. Hoje é "Domingo de Gaudete (Alegre-se)" e a tradicional cor litúrgica para a alegria é rosa.

O que há agora para ser feliz? Não tanto, mas a alegria é diferente. A felicidade (valoriza-a enquanto a tens) depende de circunstâncias externas ou de formas de relacionamento. Enquanto elas duram, nós facilmente deslizamos para uma gratidão que assume que o tempo de felicidade será permanente. E o que é, afinal, permanente? A alegria, no entanto, não depende de circunstâncias externas e de formas passageiras. Ela flui continuamente de uma fonte, uma fonte pura, de ser ela mesma. Nada a pode bloquear, a não ser a nossa própria tendência sombria para engarrafar a água da nascente, para possuir, para poluir a pura realidade inocente dela com as ilusões da nossa própria criação e ganância.

Nada é tão doloroso no início como a transição da felicidade perdida para a pura alegria.

Há algumas décadas que estamos conscientes de que a felicidade material sem precedentes, identificada com a riqueza, veio a um preço não razoável e insustentável. Nossa humanidade pessoal, civilidade e justiça social, sanidade e nosso próprio lar global estavam sendo poluídos e abusados. Mas o que poderíamos fazer a esse respeito? As pessoas que fizeram soar o alarme foram descartadas como malucas ou exageradas. Os gemidos e lamentadores também se tornaram uma classe, uma indústria. Os políticos estavam entre as pessoas que detinham o poder. Mas viemos a reconhecer que a política era cada vez mais uma máscara pública do poder. A confiança e o respeito pela política e pela lei, necessários para qualquer forma de civilização, caíram a pique. Vimos o caos e o governo eleito pela barbárie.

A alegria de viver foi gradativamente desviada e engarrafada em graus cada vez piores de injustiça e egoísmo surreal: os 1% mais ricos hoje possuem metade da riqueza do mundo - mesmo agora, como estamos socialmente distantes e em quarentena e os mais vulneráveis estão sofrendo pior. Alguns dos 1% são generosos e bons, mas mesmo os piores deles estavam lentamente percebendo que era um pouco irreal demais para durar. A raiva poderia aumentar contra eles - como aconteceu na agressão passiva do populismo. Mas demonizá-los é injusto e irreal também.

No evangelho de hoje, Jesus cura um homem que nasceu cego. Seus discípulos lhe perguntaram quem era o culpado por sua desgraça, e ele se recusou a apontar o dedo da culpa. Ele disse que a cura em si era o sentido - revelava a plenitude divina da vida, a alegria de ser, empurrando através das limitações e desvantagens humanas. Jesus curou o homem, cuspindo no chão e fazendo uma pasta com a terra, aplicando-a aos olhos do homem e dizendo-lhe que se lavasse na nascente da piscina de Siloé. Mais tarde, o homem disse: "Tudo o que sei é que, uma vez eu era cego e agora, consigo ver".

Palavras usadas em 1772 por John Newton, o ex-comerciante de escravos em seu cântico Amazing Grace. "E a graça nos trará para casa”, diz o hino.

 


 

Texto original em inglês

Fourth Sunday of Lent

Perhaps the question ‘why do catholic priests wear pink vestments this Sunday of Lent?’ is not the most pressing concern for the world just now. But it offers a glimpse behind the anxiety and inner and outer turbulence that our human family is suffering. Today is ‘Gaudete (Rejoice) Sunday’ and the traditional liturgical colour for joy is pink.

What is there to be happy about? Not so much, but joy is different. Happiness (treasure it while you have it) depends on external circumstances or forms of relationship. While they last, we easily slip into a gratitude that assumes that the time of happiness will be permanent. And what, after all, is permanent? Joy, however, is not dependent on external circumstances and passing forms. It flows continuously from a source, a pure spring, from being itself. Nothing can block it except our own dark tendency to bottle the spring water, to possess, to pollute the sheer innocent reality of it with the illusions of our own making and greed.

Nothing is so painful at first as the transition from lost happiness to sheer joy.

For some decades now we have been aware that the unprecedented material happiness, identified with affluence, came at an unreasonable and unsustainable price. Our personal humanity, civility and social justice, sanity and our global home itself were being polluted and abused. But what could we do about it? The people who sounded the alarm were dismissed as cranks or exaggerators. The moaners and groaners also became a class, an industry. Politicians were among the people who held power. But we came to see that politics was increasingly a public mask of power. Trust and respect for politics and law, necessary for any form of civilisation, plummeted. We saw elected chaos and government by barabarians.

The joy of life was grdaually siphoned off and bottled in worsening degrees of unfairness and surreal selfishness: the richest one percent today own half of the world’s wealth - even now, as we are socially distancing and quarantined and the most vulnerable are suffering worst. Some of the one percent are generous and good people but even the worst of them were slowly realising it was a little too unreal to last. Anger may build against them – as it did in the passive aggression of populism. But demonising them is unfair and unreal too.

In today’s gospel Jesus cures a man born blind. His disciples asked him who were to blame for his misfortune, and he declined to point the finger of blame. He said the healing itself was the meaning – it revealed the divine fullness of life, the joy of being, pushing through human limitations and handicaps. Jesus cured the man by spitting on the ground and making a paste with the earth, applying it to the man’s eyes and telling him to wash in the spring-fed Pool of Siloam. Later the man said, ‘all I know is, once I was blind and now, I can see.’

Words used in 1772 by John Newton, the reformed slave trader in his hymn Amazing Grace. ‘And grace will bring us home’, the hymn also says.’